domingo, 17 de novembro de 2013

Dia da Criatividade, dias de criatividade

Uma notícia: 17 de novembro é a celebração oficial do Dia da Criatividade. Gostaria que ele fosse inspirador para muitos. Consulto nosso Aurélio e me encanto com a variedade de significados que a palavra criatividade tem: dar existência a; gerar; dar origem a; dar princípio a; produzir, inventar, imaginar; fundar, instituir. E outros mais.

Essa minha descoberta (tardia..) confirma o que eu pensava escrever sobre o tema: todos nós podemos ser criativos/criadores.

Estamos familiarizados com o uso da expressão relacionada apenas à criação artística, mas a riqueza de significados remete à uma preciosa possibilidade humana: a abertura para cada um de nós produzir, inventar, fundar sua própria vida com liberdade, a cada dia. Isso é o oposto da acomodação, da mesmice e do conformismo das respostas que damos ao que a vida nos apresenta.

Não há uma fórmula para o exercício da criatividade assim entendida. Creio que é fundamental reconhecer este “eu posso” e dar partida à experiência cotidiana de se experimentar, de inventar novas maneiras de fazer o que precisa ou deseja fazer. O que inclui coisas simples (mas não fáceis...) como não reclamar que seu filho não estuda tanto quanto devia, que os serviços no Brasil funcionam muito mal, o quanto não reconhecem seu esforço para realizar as tarefas do trabalho, etc e etc. É tudo verdade, mas conseguir “dar uma guinada” e ver de outra forma... é uma maravilha!

De certo modo estou falando em mudanças. Criar como mudar para algo melhor, ou simplesmente inaugurar uma resposta nova a algo bem familiar, seja esse algo “bom” – como o caminho bem conhecido que toma para chegar em casa – ou algo “ruim”, como queixar-se e se atormentar com o trânsito (como eu, tantas vezes...), com o comportamento da namorada ou do marido.

Criatividade no sentido bem amplo, mas nem por isso menos verdadeiro, é a experiência de transformar sua vida a cada momento, ou ao longo do tempo, de tal jeito que você faça da criatividade um desafio ou estimulo para que sua vida seja melhor – seja lá qual for a sua concepção de melhor.

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Itaipava: um distrito perturbador

Nasceu assim, perturbador, e não apenas por causa da expressão que lhe daria o nome – a tupi ita ipáua, que se refere à uma elevação de pedra – ou da definição encontrada nos dicionários: “itaipava é o recife que atravessa um rio de lado a lado provocando um desnivelamento da corrente”. Pensamos que esta origem etimológica está bem de acordo com o que, de algum modo, percebemos em nossa cidade de Petrópolis.

Como assim?        

Itaipava contrasta com a Petrópolis que existe no centro histórico. É um distrito “novidadeiro”, cheio de lugares e eventos inaugurados com festas e alarde que, muitas vezes, logo deixam de existir para dar lugar a outros. Enquanto o centro preza a tradição, a herança imperial, as belas casas e mansões, testemunhas de um passado rico e privilegiado, Itaipava, fazendo parte da cidade, não preza nada que existiu antes dele. A maioria de seus habitantes, e de seus numerosos visitantes, provavelmente pouco sabem – muito menos consideram – o passado histórico no qual o distrito se insere. Itaipava “provoca um desnivelamento da corrente” na medida em que busca, às vezes insensatamente, a novidade, o brilho da noite, as lojas caras, os produtos sofisticados que facilitam o “faz-de-conta...”. Ao mesmo tempo, por este mesmo processo, abre frentes novas de trabalho, empregando jovens estudantes e mulheres habilidosas e criativas no que produzem. Não tendo um passado ligado à nobreza, experimenta e muda, abre espaços e ousa até o mau-gosto.

Às vezes nos parece que “a cultura de Itaipava” irrita o morador de “Petrópolis”. Surgem as críticas à arquitetura de shoppings, aos altos preços do que é vendido. Os restaurantes, nos finais de semana, cheios de gente risonha, falante, “comprante”. Como se não existisse a pobreza (tão perto!), como se não existisse um déficit crônico de empregos, de escolas, de universidade. Petrópolis-centro tem sempre um olho no Rio de Janeiro: lá está tudo que existe de bom. Os frequentadores de Itaipava parecem muito felizes de poderem estar ali. Os que não moram, querem morar. Os que já lá estão, se deliciam com a diferença de seu anterior viver no Rio.  Mas será que Itaipava, distrito perturbador, não se constitui como a diferença que enriquece a cidade? Da mesma forma como é a diversidade de etnias, línguas, culturas e tradições que faz uma metrópole ser atraente e pujante? Quando tudo é igual, não nos sugere a mesmice da estagnação?  Quando nossas vidas não mudam, quando não conseguimos “inaugurar” comportamentos, atitudes, iniciativas, também a vida não se torna uma mesmice que desanima? E, ainda, não precisamos de nossos paradoxos e contradições, dos erros e dos enganos, das ilusões e esperanças vãs – nossos defeitos? –  para nos constituir como seres humanos mais ricos e inteiros?


O “desnivelamento da corrente” com o qual estamos identificando Itaipava é parte integrante da cidade de Petrópolis, como a pedra que altera o correr do rio é, ainda, parte dele. Podemos ter opiniões e sentimentos diversos e discrepantes em relação ao distrito, mas acreditamos ser importante considerá-lo como “nosso”. Uma parte de Petrópolis diferente, divertida, até pretensiosa, cheia de “estrangeiros” tolos ou interessantes, mas que inegavelmente contribui para a diversidade da cidade e, dessa forma, para o seu jeito único de ser entre todas do estado.

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Por que a psicologia é ciência e sabedoria?

Primeira Parte: Psicologia como ciência


Há décadas a Psicologia tenta se afirmar como uma ciência “igual às outras”. Psicólogos, sobretudo nos Estados Unidos, dedicam a maior parte de suas carreiras a executar experimentos em laboratórios que obedeçam aos parâmetros de ciência, ou seja, tratam de fatos, fenômenos mensuráveis, quantificáveis, e que podem ser replicados por outros cientistas em iguais condições. Penso que essa é uma tarefa inglória. Os fenômenos humanos são de tal complexidade, de tal diversidade, que a metodologia científica clássica nunca dará conta de apreendê-los tal como são. O que não quer dizer que os experimentos sejam inúteis. Está aí a neurociência e suas incríveis descobertas, muitas das quais reafirmam o que a clínica psicológica há muito conhecia. Com frequência, os experimentos e pesquisas empíricas servem para os psicólogos conseguirem financiamento para seus trabalhos, ou seja, garantirem um emprego, uma fonte de renda para sua atividade laboral, uma vez que as agências financiadoras valorizam, em maioria, pesquisas que consideram “científicas”. É preciso olhar para as consequências desse fato: as pesquisas científicas eventualmente conduzirão à descoberta de medicamentos – logo a indústria farmacêutica tem interesse nelas e as financiam. E as universidades precisam desses financiamentos para sustentarem seus departamentos de Psicologia.

Um outro ponto é a procura da “respeitabilidade” oferecida pela ciência. Se a Psicologia não pertence à área privilegiada da ciência, os profissionais que a ela se dedicam são de “segunda classe”, seus rendimentos financeiros pequenos, seu lugar na academia sempre precário, dependente de fundos universitários orientados muito mais para as pesquisas tecnológicas.

Por mais que todos os dias falemos da rapidez da informação, da “aceleração do tempo”, das mudanças incessantes trazidas pela tecnologia ao nosso cotidiano, há algumas  coisas neste mundo que demoram muito a mudar… Uma delas é a noção de ciência – e há tempos esta noção deveria ter sido ampliada. No começo do século XX, o matemático, e depois filósofo, Edmund Husserl estabeleceu um modelo para a ciência que se revelaria mais amplo do que o clássico, cartesiano, que nos rege hegemonicamente. Por que? Porque rompia com a dicotomia sujeito-objeto, consciência-corpo, com a pretensão de objetividade dela resultante, com seus critérios de verdade. A Fenomenologia postula que a relação do sujeito com o objeto é indissolúvel – portanto, não há uma objetividade que exclua o sujeito da experiência, de qualquer experiência, inclusive a de pesquisa de conhecimentos. A subjetividade está presente em tudo que se refere ao humano. Depois de Husserl, na década de 1920, Martin Heidegger, o filósofo alemão discípulo de Husserl, acrescentará: este sujeito é umDasein, um ser-no-mundo. Todo conhecimento advem de seres humanos que se inserem em um mundo (físico, social, cultural, biológico) do qual qualquer separação é artificial, construída/teórica. Como poeticamente descreveu Maurice Merleau-Ponty:

“Retornar às coisas mesmas é retornar a este mundo antes do conhecimento cujo conhecimento falasempre, e com respeito ao qual toda determinação científica é abstrata, representativa e dependente, como a geografia com relação à paisagem onde aprendemos primeiramente o que é uma floresta, um campo, um rio.”

A Fenomenologia não exclui as premissas e a atuação das ciências clássicas, mas deixou o legado do questionamento de sua hegemonia no campo do conhecimento e, principalmente, afirmou o sujeito como presente na elaboração de toda produção científica. “Presente” como interessado, situado em uma cultura, economicamente condicionado, influenciado por seus preconceitos e valores, inserido no seu tempo histórico. Não existe “pureza” científica, entendida, inclusive, como “objetividade” nas afirmações de verdade, neutralidade do cientista.

O que tudo isso nos revela?

A importância da valorização da Psicologia como ciência cujo paradigma não é o mesmo daquela inaugurada por Galileu e Descartes.

A consideração de que toda a realidade deve ser conhecida e investigada por meio de disciplinas múltiplas e integradas.+

A afirmação de que o sujeito humano não é um ser fragmentado em psique e soma, sujeito e mundo e, portanto, conhecê-lo e atuar nele e no mundo implica na adoção de princípios e métodos que respeitem estes entrelaçamentos.       

Continua…


sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Heidegger na Grécia

Minha formação como psicoterapeuta tem seu fundamento primeiro na obra “Ser e Tempo” do filósofo alemão Martin Heidegger. Desde então – lá se vão muitos anos – leio outros textos seus outros inspirados nele, comentários em revistas acadêmicas, literárias e outras.

Em uma viagem por Buenos Aires, encontrei num canto de prateleira de uma daquelas livrarias incríveis que só conheço por lá, um pequeno livro (55 páginas): a edição de um manuscrito que Heidegger escreveu durante sua primeira (e única?) viagem à Grécia. O título é “Estancias” - (acho que a melhor tradução do espanhol aqui é estadia, paragem). Acabo de lê-lo e me sinto envolvida pelo clima nostálgico (no bom sentido: o que traz um sentimento caloroso em relação a algo que já passou) do texto. Não só porque esta viagem de Heidegger aconteceu em 1962, mas porque ele insere constantemente alguns belos versos de Hölderlin, cita várias estrofes nas quais ecoa a paixão do poeta pela Grécia dos deuses e da beleza:

Mas onde os tronos, os templos, e onde os vasos,
Onde, cheio de néctar, o canto para satisfação dos deuses?
Onde, onde esplandecem eles, os oráculos que vão longe?
Delfos dorme, e onde ressoa o grande destino?
(de Pão e vinho, 4ª estrofe, trad. livre)

 E ainda:
“ilhas queridas, olhos do mundo encantado” (Lágrimas, 2ª estrofe)

O “livreto” é a narrativa de seu percurso por algumas ilhas gregas e uma pequena parada em Atenas. Descreve paisagens, a pobreza dos povoados, as ruínas de templos, a presença de turistas por todo lado fotografando, “despejando sua memória na imagem tecnicamente elaborada. Renunciam, sem se dar conta, à festa do pensar”. (p. 53)

Heidegger percorre as ilhas gregas de barco, junto com outros viajantes alemães, sempre com a questão: o que é o mais próprio, mais verdadeiro, da existência grega e de seu mundo? Só vai nos dar a resposta quando chega à ilha de Delos. A resposta é aletheia: “o aberto que se oferece a si mesmo, que alcança, delimita e tudo libera, que a todo o presente e ausente oferece chegada e momento, partida e falta” (p.36).

Claro que Heidegger não pode deixar de mencionar Heráclito, Parmênides, os gregos da Hélade que tanto o inspiraram ao longo de sua trajetória como o pensador mais denso e original do século XX. Foi em Delos que a viagem à Grécia se converteu em “estancia”, diz ele. E, mais uma vez, se dá conta do quanto nos afastamos da paragem grega, distinta do mundo tecnológico que modernamente dominou a Europa. Escreve ele neste seu “diário de bordo”: “Nós, seres humanos de hoje, parecemos expulsos de tal morada (grega), perdidos nas cadeias da planificação calculadora” (p.44)


Para mim foi uma experiência de encantamento acompanhar sua viagem, suas reflexões muitas vezes melancólicas, seu amor pelas origens gregas do pensamento, sua paixão pela verdade como desvelamento e ocultação (aletheia). E ao mesmo tempo re-encontrar o envolvimento profundo com a poesia de Hölderlin e toda a melancolia que ele revela pela perda do sagrado, do mundo grego e seus deuses alegres, irônicos, plenos de sensualidade e sabedoria.

*Ed. Pré-Textos/Ensayo , 2008, Valencia.