segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Budismo e Psicoterapia

É surpreendente o caminho que o campo da saúde vem percorrendo nos últimos anos. A onipresença do paradigma cartesiano que afirma a separação radical entre fenômenos físicos e mentais está finalmente sendo questionado de modo consistente e constante. Alguns cientistas e muitos profissionais, médicos e psicólogos, têm apresentado pesquisas e relatos clínicos mostrando como as doenças emergem de perturbações físicas e psicológicas combinadas, entrelaçadas. Já é considerado resultado da ignorância, deliberada ou não, acreditar que o que uma pessoa vive no plano das emoções, dos sentimentos e pensamentos é desconectado do corpo e seus processos.

A presença do Dalai Lama no Brasil teve uma significação religiosa e política, mas também uma outra de extremo valor : a de mostrar que há outra via de afirmação da conexão entre o que vivemos no coração e no espírito e os processos corporais na saúde e na doença.

Como assim?

Os ensinamentos budistas que o Dalai Lama enfatiza no ocidente falam sempre da importância das escolhas existenciais (“a vida é resultado de nossas escolhas”), da responsabilidade de cada um diante de si mesmo e dos outros, apontando que o estado de saúde depende não apenas da utilização dos recursos tecnológicos de diagnóstico e tratamento, mas que as experiências vividas dos indivíduos, o cuidado de si e de seus relacionamentos com as coisas do mundo, condicionam sua saúde e bem-estar. Diz ele: “É necessário compaixão por nós mesmos antes de poder oferecê-la aos outros”.

O Dalai Lama tem procurado encontrar os pontos de contato entre os ensinamentos de Buda e a ciência médica. Suas constantes reuniões com cientistas, médicos e psicólogos, o diálogo incessante na procura de pontos em comum que respeitem a diversidade de perspectivas, nos falam do seu objetivo de contribuir para a diminuição do sofrimento humano.

Esta procura pela integração de áreas aparentemente tão distintas de conhecimento – a ciência e o budismo – resulta em uma ampliação também no campo da prática profissional: psicoterapeutas utilizam intervenções na corporalidade, médicos começam a considerar o lugar dos medos, da ansiedade, do estresse, do luto e da saudade no aparecimento ou agravamento de doenças.

E, ainda mais, alguns psicoterapeutas estão construindo abordagens que integram não apenas as práticas advindas do budismo, como a meditação e a mindfulness (consciência alerta e em relaxamento, podemos traduzir), mas combinam algumas das concepções budistas do ser humano e do mundo com as de autores consagrados de escolas psicoterápicas como a Fenomenológica-Existencial. Para essa, o ser humano é indissoluvelmente conectado com o mundo e com os outros seres, vive no tempo como movimento e fluxo. Ambos, budismo e terapia existencial, promovem a atitude não-utilitária de relacionamento com os outros seres e o mundo.  

O importante disso tudo é a possibilidade de abrirmos o campo de percepção, sair da acomodação empobrecedora que nos faz ver a realidade do mesmo modo como há séculos. E considerar a transformação evidente no século XXI: a da integração dos diversos conhecimentos, da ciência e da filosofia, das tradições de sabedorias ocidentais e orientais.


O que é “coping”?

Lutar, competir com sucesso ou em igualdade de condições: esta é a tradução literal do verbo inglês “to cope”, cujo significado também pode ser descrito como a ação de “lidar adequadamente com uma situação”, superando as dificuldades ou limites que essa situação apresenta.  

Em Psicologia, mais precisamente na Psiconeuroimunologia – campo científico interdisciplinar que estuda o ser humano como unidade indissolúvel de corpo e mente –, o coping é pesquisado, sobretudo, na relação com o estresse, sendo definido como “tentativa ou empenho para lidar com exigências externas (do ambiente) ou internas (do próprio sujeito) percebidas como sobrecarregando ou excedendo os recursos da pessoa.”(Folkman e Lazarus)

Acontecimentos estressantes acontecem o tempo todo em nossas vidas: são pequenas contrariedades cotidianas, como a longa fila no banco, o fluxo de trânsito interrompido perto de casa, a nota baixa do filho na escola e etc. Também estressantes são acontecimentos positivos, como o encontro, na noite de carnaval, de um parceiro amoroso, a notícia da aprovação de seu filho no vestibular, uma relação sexual de entrega intensa e ardente, um elogio inesperado do companheiro de trabalho.

Esses eventos estressantes suscitam um coping. Não há uma maneira padrão e coletiva de “cope”. Os estudos apontam duas categorias de estratégias de coping básicas: as voltadas para a resolução do problema e as orientadas para a regulação da emoção.

Os moradores de um edifício que desabou – ou uma coletividade atacada por armas militares ou assaltantes – vivem um estresse traumático. Nele se inscrevem as três características básicas do nível mais grave de acontecimento estressante: é incontrolável, imprevisível e ambíguo. As estratégias de coping para lidar com esse estresse traumático variam de indivíduo para indivíduo, mas é possível identificar os padrões mencionados. Assim, por exemplo, uma mulher diz que não lhe é suficiente chorar a perda de seus bens, ela precisa colocar todo seu esforço para obter na justiça a condenação do responsável pela construção do edifício (resolução do problema). Uma outra estratégia, voltada para a mudança da reação emocional, é a do pai que tenta cuidar mais da filha que sobreviveu à morte do irmão mais velho durante um assalto – ou usa a revolta, muitas vezes apenas debilitante, para se engajar em um movimento coletivo de protesto contra a violência. Ele procura outra emoção diferente da perda, sem negá-la, mas superando-a pela mudança emocional e pela ação.

Um outro modo de analisar o coping é pela categoria de passivo ou ativo.
O coping passivo é o que envolve a “evitação” do problema ou a redução da tensão por ele provocada. Um exemplo é o consumo intenso do álcool ou de comida para reduzir a ansiedade diante do acontecimento estressante. O coping ativo é o que compreende as tentativas para lidar diretamente com o evento gerador de estresse. No caso do desabamento do edifício, acontece quando uma pessoa organiza uma cooperativa para distribuição de alimentos e roupas para os moradores desabrigados; ou procura se unir a outras e mover uma ação reparadora.

Não proponho aqui estabelecer regras de comportamento ou uma tábua de valores (isso é bom, ou certo ou errado). Tentei apenas esclarecer a existência de reações emocionais e comportamentais que constituem estratégias para lidar com os problemas e os fatores de estresse presentes na relação do indivíduo com o mundo – quer no nível da vida cotidiana, no plano das tragédias imprevisíveis, ou de doenças, perdas e crises/mudanças graves. Na medida em que a vida contemporânea se caracteriza cada vez mais como instável e exige mais recursos pessoais para lidar com as mudanças e imprevisibilidades, é natural que a ciência médica e psicológica se volte para a pesquisa dos modos de coping. Médicos e psicólogos se ocupam da análise da eficácia dos modos de coping e procuram terapias que facilitem o desenvolvimento de variedades de coping que se constituam como recursos valiosos para indivíduos e grupos.


Viver na contramão

Aconteceu no Café Psicológico, realizado no Armazém Digital de Itaipava: após os debates e troca de experiências, as pessoas presentes concluíram que é difícil mudar a vivência do tempo que todos temos – e que tanto nos angustia –, mas vale a pena fazermos uma tentativa nesse sentido.

“Estamos sempre apressados, correndo contra o tempo”, todos admitiram, confessando, ainda, ter vivências de perdas relacionadas ao tempo “mal vivido”. “Deixamos de lado aspectos importantes da vida". Sentimos falta de estar com a família, de encontrar os amigos para um café ou um chopp sem compromisso, de saber o que pensam nossos filhos, de ler um livro que nos aguarda há muito tempo na estante. Mas não conseguimos fazer nada disso.”

Viva e estimulante, a conversa apontou exemplos de como “o viver no abismo do tempo” torna a vida tingida pela angústia, faz com que a gente se sinta culpado pelo que deixamos de lado e pela percepção de que adiamos experiências importantes. Sobretudo, revelou como o prazer possível nos escapa e, no limite, nos parece até inalcançável.

Acredito que a atração do Ocidente pelo pensamento budista surge, em parte, da necessidade de superação desses sentimentos e angústias. O onipresente ensinamento budista de que é fundamental permanecermos no presente, com atenção relaxada, calma concentração e consciência alerta – o que está sendo denominado no campo das psicoterapias como mindfulness  –  é uma resposta possível, um recurso de coping para a nossa experiência sofrida do tempo. Conseguir situar-se no presente conduz à libertação daquilo que, verdadeiramente, não é. Todos sabemos que o que está no passado não existe mais e o futuro, na maior parte das vezes, só existe enquanto expectativa – e expectativa ansiosa, muito mais do que projeto norteador de uma trajetória pessoal.

Contudo, creio que há uma decisão importante a ser feita para podermos utilizar esse recurso de coping, a mindfulness: a vontade, a determinação, de nos mantermos próximo a nós mesmos. Sim, é verdade que as condições sociais e culturais nos “empurram” a viver apressadamente, a nos ocupar de infinitas tarefas e cuidados; mas também é verdade que esse modo de vida é facilmente instrumentalizado, tornando-se uma fuga de nós mesmos. Construímos, desta forma, um círculo vicioso: nos submetemos à pressão sócio-cultural que exige que nos ocupemos de inúmeras obrigações e de múltiplas e trabalhosas tarefas – alternadas com um lazer afobado e febril – e que resulta, com freqüência, em um sentimento de culpa, de dívida. E para minorar os consequentes sofrimento e angústia provocados por essa atitude, emerge um movimento de fuga, de escape de si mesmo – este ser tão “pequeno”, quase esmagado  por esses movimentos externos e internos.


Mesmo partindo de um tema questionador, o Café Psicológico desse dia terminou com muito entusiasmo. Todos, ou quase todos, concordaram que precisamos mudar e que esta mudança significa viver na contramão da corrente no qual estamos inseridos. Concordamos que não é fácil, que estabelecer prioridades e valores é fundamental e, mais ainda, que não podemos esquecer a brevidade do tempo que nos é dado viver; Concordamos que é possível viver na contramão, mas que isso não se dá pelo caminho do consumismo, do apelo inexaurível da tecnologia atual. Concordamos que é difícil olharmos para nós mesmos com compaixão, mas sem complacência. Concordamos, ainda, que não há como eliminar, de uma vez por todas, o sofrimento, a tristeza e as frustrações, mas somos capazes, sim, de buscar um caminho próprio de vida no qual haja lugar para a felicidade pessoal (concebida como alegria) combinada com a solidariedade não apenas pelos desvalidos e desamparados de nossa sociedade, mas pelas pessoas que nos cercam, que valorizam a doação de gestos, palavras e atos que podemos lhes oferecer.