sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

O coração no trabalho

Pesquisas recentes realizadas na Europa e nos Estados Unidos, por médicos e psicólogos, evidenciam a influência negativa do distresse – o estresse prejudicial à saúde – na vida de trabalhadores. Participantes do Congresso Internacional de Ambiente de Trabalho e Doenças Cardiovasculares, na Califórnia, apresentaram pesquisas que indicam que estressores como pouca recompensa pelo esforço no trabalho, ambiente hostil e horário longo de tarefas podem determinar o risco dos trabalhadores para doenças cardiovasculares1.

Quando o trabalhador, operário ou gerente, não tem autoridade para tomar decisões, tampouco controle sobre seu processo de trabalho e muita insegurança quanto permanecer na função, é provável que viva um alto nível de distresse psicológico e, a partir dele, o risco de desenvolver uma doença cardiovascular .

Homens e mulheres vivem exigências relacionadas ao trabalho que muitas vezes superam seus recursos para lidar com elas. Horários rígidos, multiplicidade de tarefas, baixos salários, competição no mercado, são condições que poucos avaliam corretamente como drasticamente prejudiciais à saúde. Muitas vezes encontro pessoas que acreditam que podem trabalhar mais, esforçar-se mais, dedicar mais horas do lazer para preencher supostas lacunas da jornada de trabalho. Os filhos são quem mais reclamam e se ressentem deste super-empenho. Eles querem não apenas mais companhia e cuidados, mas temem pela vida dos pais. Intuitivamente sabem que as demandas excessivas afetam o corpo, e nele, sobretudo o coração.

Procurar formas de lidar com as pressões do trabalho que sejam preventivas de doenças cardiovasculares é um projeto de vida valioso. Criar pausas para relaxar durante o dia, entrar em contato com os próprios sentimentos, ter uma percepção de si como finito, valorizar sua vida afetiva – e, portanto buscar o apoio de colegas, amigos e familiares – são variedades do manejo de estresse indicadas por especialistas.

O trabalho e o salário são fundamentais na vida da maioria das pessoas, mas não merecem qualquer preço a pagar por eles. Os riscos de doenças coronarianas, já comprovados, advindos da ansiedade excessiva, do trabalho extenuante, da irritabilidade contínua, indicam a necessidade das pessoas refletirem sobre seus valores, prioridades e projetos de vida. Muitas vezes só se dão conta disso depois de um diagnóstico de hipertensão arterial ou de um evento cardíaco mais sério como o infarto do miocárdio. É quando a experiência de crise conduz a um questionamento de tudo que constitui a vida do indivíduo.

Por que não adiantar o relógio de uma tal crise e reavaliar logo seu mundo do trabalho?



[1] The Monitor on Psychology, vol.36,n.5, 2005.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

O cultivo da mesmice

Sempre me intriga observar como muitas pessoas discutem calorosamente sobre seu gosto por uma coisa ou outra e como isso acontece em relação às coisas mais banais da vida. Outro dia ouvi a conversa de duas amigas que gastaram minutos e minutos exaltando as qualidades de seu adoçante preferido e rejeitando o preferido pela outra. Se o tema é mais complexo, aí é que a discussão se prolonga, a emoção se intensifica e a preferência ou gosto torna-se uma arma de batalha.


O que me chama a atenção é o esforço que se faz para convencer o interlocutor, como se fosse necessário manter sua posição a qualquer preço, não importa o valor do que se discute. “Marcar a diferença” é sinônimo de forma sobre o outro? E é isso que faz sentir-se melhor?

O que será que está em questão?
Claro que há teorias que servem para tudo explicar. Por exemplo, a que afirma a necessidade humana de se sentir enraizado, ligado ao que lhe é familiar. Outra que aponta o sentimento de segurança advindo de o indivíduo se sentir “o mesmo” em todas as circunstâncias, para viver uma identidade, para não se desorganizar mentalmente. Algo que poderia se formular assim: “se eu digo e sinto sempre o mesmo em relação às coisas da vida, então sou um ‘eu’ firme e seguro” ou “se defendo com muita energia o que penso, então sou forte.”

Uma consequência devastadora desta atitude de cultivo da mesmice é a discriminação do que é diferente, do que não se “encaixa” nos modelos, opiniões e preferências de cada um. Certa vez um rapaz, entrevistado na televisão sobre o tema do homossexualismo, comentou com muito humor: “As pessoas discriminam tanto o que é diferente que até a tampa do pão de fôrma rejeitam.”


A aceitação do que lhe é diferente, a possibilidade de lidar com um comportamento distinto do seu, a abertura para o que lhe é desconhecido, constituem um desafio que poderá trazer uma diversidade de experiências que proporcionarão encantamento, surpresa, curiosidade ou até medo. Não há garantias. Mas se percebermos que o diferente pode se somar ao que somos, ou temos, e nos tornar menos existencialmente provincianos, aumentará muito o ganho de riqueza na vida e generosidade com os demais. Porque penso que provinciano não é próprio, necessariamente, dos indivíduos que moram na província, na cidade pequena. É um atributo que podemos dar àqueles que vivem encapsulados, limitados a um mundo estreito, plenos de certezas e opiniões imutáveis – essa é a conotação existencial do termo. E eles podem viver em metrópolis.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

Ta Máthema


Desde Galileu, bem no início do século XVI, nós começamos a ser orientados na busca do conhecimento pela ta Máthema – a Matemática, em grego.  Galileu foi um herói de nossa história ocidental.  Pela primeira vez houve um rompimento com as ideias da igreja cristã que quase lhe custou a vida. Como podia contestar que o sol não girava em torno da Terra? Como ousar dizer que o céu não era perfeito, que todos os astros não eram compostos pelo éter? Galileu construiu telescópios, mediu distâncias nunca antes exploradas, analisou o movimento da Terra e dos astros e... chegou à conclusão de que a verdadeira linguagem da natureza é a matemática.

O que isso tem a ver com nossa vida cotidiana, essa que tanto nos importa e tanto nos inquieta?

Duas reflexões nos aparecem: a primeira fala desta herança, radicalizada pelo filósofo francês Descartes, de que só é verdadeiro o que pode ser medido, o que é matematizável. Tudo que apreendemos pela imaginação, pelo sonho, pela percepção dos sentidos, é ilusório, porque muda no tempo e no espaço. Mas o que se traduz em uma fórmula ou equação é perene, portanto válido. Esta “verdade suprema” até hoje domina nossas vidas. Quando, por exemplo, alguém acredita que apenas tomando um remédio – uma fórmula química – encontrará a solução para seus males do corpo e da alma (mente? psique?) está sendo fiel à Galileu , à  Descartes e à ciência moderna que deles deriva. Quando os médicos lidam com seu paciente como se ele fosse uma máquina desarranjada, ou mesmo quando sendo um especialista no tratamento de uma parte do corpo físico desconsidera que esta parte pertence a um sujeito – estão reproduzindo, saibam ou não, os ensinamentos de Galileu e Descartes.

Quando o conhecimento se origina tão longe no tempo e se constitui como base de um poder social – como aconteceu na ciência e na medicina – é muito difícil mudar a visão de mundo de médicos e cientistas.  A abertura para o novo, a experimentação realizada segundo outros paradigmas, a apreensão do indivíduo humano como uma unidade de corporeidade e consciência (sem hierarquia do que é “superior” e “inferior”) é difícil, mas creio, inexorável. Assim como impérios dominam grande parte do planeta e, pouco a pouco, se desmoronam, outros se constituindo e ocupando seu lugar, também modelos de pensar e agir se transformam a partir da emergência de conhecimentos novos e da gradual obsolescência dos que até então prevalecem.

Galileu nunca será esquecido, sua rebeldia em relação aos teólogos da Inquisição, a afirmação da ta Máthema como método de conhecimento necessário para transcender os dogmas bíblicos, fazem dele um modelo para cientistas (como os da Física Quântica) e profissionais, (como os da Psicologia)  que afirmam contra o modelo de ciência vigente:

1.      a inclusão  da subjetividade em toda forma de investigação;
2.      o lugar de domínio da  matemática nas ciências naturais, mas não em todas as áreas do conhecimento e
3.      a consideração de que as emoções, os sentimentos, as percepções e os afetos dos seres humanos não são um estorvo, mas aspectos da realidade que enriquecem o conhecimento e ultrapassam as limitações da matemática e suas derivações, como a tecnologia.


Devemos gratidão eterna a Galileu e Descartes, mas não uma eterna submissão.