Sempre pensei, desde muito cedo na profissão, que ser psicóloga e psicoterapeuta é um privilégio. Por quê? Por ter como minha atividade cotidiana, constante, o partilhar, com pessoas, de sua vida mais própria, aí incluídos não só os problemas, as crises, os medos e as inseguranças, mas, muitas vezes, os prazeres e a satisfação por terem realizado um sonho, um projeto de vida.
A Enciclopedia of Human Behavior define psicoterapia como “tratamento de problemas de personalidade e de desajustamentos pelo uso de técnicas psicológicas”. É uma definição bastante pobre, como toda definição o é. A psicoterapia é uma experiência vivida que se dá como processo – portanto se estende no tempo – no qual homens e mulheres abrem “sua alma” de um modo único, porque um pressuposto fundamental dela é a confidencialidade: nada do que é dito dentro do tempo e espaço de uma sessão pode ser divulgado para qualquer outra pessoa. Há uma exceção: se, a pedido do terapeuta ou do cliente, outra pessoa (em geral da família) é solicitada a participar da sessão. Claro que com a concordância do cliente e na sua presença.
Há outra especificidade: o relacionamento de psicoterapeuta e cliente só existe, como tal, dentro do espaço do consultório, (ou clínica ou hospital).
Esses aspectos básicos tornam possível à pessoa mostrar-se por inteiro, sem apoiar-se em papéis sociais, sem ocupar-se de parecer “boazinha”, “sabida”, “bem sucedida” ou “poderosa”, ou qualquer outra forma de ser que não seja verdadeira. Mesmo porque a psicoterapeuta não tem expectativa de coisa alguma a seu respeito. Não julga ou critica, muito menos aconselha. A vida dela “não passa” pela do cliente, e isso lhe dá uma liberdade emocional única. Seja lá o que o cliente fizer, sentir ou decidir – é algo que exclusivamente pertence a ele. Não importa se sinto compaixão, empatia, se partilho sua alegria, é sempre nítido que somos pessoas distintas, na mais profunda acepção do termo.
E o que acontece, dentro desse contexto?
Os norte-americanos denominam a psicoterapia, coloquialmente, como uma “talking cure” (cura pela conversa). A palavra é sim privilegiada, mas algumas modalidades de psicoterapia – como aquela com a qual trabalho – acrescentam, entre outros recursos, movimentos corporais, visualizações (i.e., o uso de imagens, sons, sensações corporais apenas imaginadas) e variações da experiência de meditação.
Aparentemente é bastante simples, não é? Duas pessoas, um encontro. A comunicação flui, podemos rir juntos, e, já me aconteceu, chorar juntos. Parece tão fácil que poderia ser “confundida” com uma conversa entre amigos. Roberto*, jovem, atraente, profissionalmente realizado, várias vezes referia-se às sessões de psicoterapia comigo como “o nosso papo”, “o papo da semana passada foi muito bom” – comentários longe do estereótipo muito divulgado de que “psicoterapia é para malucos” ou “procurar uma psicóloga é coisa para doidos”.
Roberto*, por sua dificuldade de viver vínculos afetivos, leva muito longe a aparente simplicidade do diálogo terapêutico. Mas esse é tema para outro texto… O que quero dizer é que o diálogo – verbal ou não-verbal – presente na psicoterapia é algo aparentemente muito simples, na maioria das vezes cordial e caloroso, mas que tem como “fundamento de existência” uma grande bagagem do profissional em conhecimentos (filosóficos, psicológicos, sociais, científicos) que não são explicitados, mas estão ali mesmo. Além da sua bagagem pessoal de experiências, sensibilidade e sabedoria.
Comecei falando do meu sentimento de privilégio no exercício da psicoterapia. Só me fica faltando dizer agora que penso que o privilégio não é só meu, mas também do cliente**.
Por que privilégio?
Duas razões principais:
1.) pela intimidade única que se estabelece na relação. Nela não há a ameaça de súbito abandono, de competição, de opressão, de descaso. Não é “paternalista” ou “maternalista”, no sentido de indevidamente protetora.
2.) pela possibilidade de satisfação, eu diria até de felicidade, também única, que acontece quando a pessoa encontra, na sessão psicoterápica, o caminho para a resolução de um conflito ou sofrimento. A resolução pode se dar ao longo de diversas sessões contínuas, ou descontínuas. Ou pode acontecer em um “momento aha!”. Pode ter implicado um encontro com o passado e com pessoas e emoções significativas desse passado. Ou pode se referir a experiências e pessoas do presente. Não penso que uma psicoterapia é profunda apenas quando há uma ênfase de investigação no passado da pessoa ou se os pressupostos teóricos são X, Y ou Z. Acho que a profundidade do processo depende da expertise da psicoterapeuta, da abertura e disponibilidade do cliente e, claro, da relação que estabeleceram.
Será que contribuí um pouco para a compreensão do que é a psicoterapia? O que ficou faltando? O que ainda não está claro? Tomara os leitores se animem a contribuir com respostas a essas questões.
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* Nome fictício.
* * Cliente, paciente, analisando: denominações distintas para o
outro sujeito da relação que não é o psicoterapeuta.





