segunda-feira, 17 de março de 2014

Como é uma psicoterapia?

Sempre pensei, desde muito cedo na profissão, que ser psicóloga e psicoterapeuta é um privilégio. Por quê? Por ter como minha atividade cotidiana, constante, o partilhar, com pessoas, de sua vida mais própria, aí incluídos não só os problemas, as crises, os medos e as inseguranças, mas, muitas vezes, os prazeres e a satisfação por terem realizado um sonho, um projeto de vida.
A Enciclopedia of Human Behavior define psicoterapia como “tratamento de problemas de personalidade e de desajustamentos pelo uso de técnicas psicológicas”. É uma definição bastante pobre, como toda definição o é. A psicoterapia é uma experiência vivida que se dá como processo – portanto se estende no tempo – no qual homens e mulheres abrem “sua alma” de um modo único, porque um pressuposto fundamental dela é a confidencialidade: nada do que é dito dentro do tempo e espaço de uma sessão pode ser divulgado para qualquer outra pessoa. Há uma exceção: se, a pedido do terapeuta ou do cliente, outra pessoa (em geral da família) é solicitada a participar da sessão. Claro que com a concordância do cliente e na sua presença.
Há outra especificidade: o relacionamento de psicoterapeuta e cliente só existe, como tal, dentro do espaço do consultório, (ou clínica ou hospital).
Esses aspectos básicos tornam possível à pessoa mostrar-se por inteiro, sem apoiar-se em papéis sociais, sem ocupar-se de parecer “boazinha”, “sabida”, “bem sucedida” ou “poderosa”, ou qualquer outra forma de ser que não seja verdadeira. Mesmo porque a psicoterapeuta não tem expectativa de coisa alguma a seu respeito. Não julga ou critica, muito menos aconselha. A vida dela “não passa” pela do cliente, e isso lhe dá uma liberdade emocional única. Seja lá o que o cliente fizer, sentir ou decidir – é algo que exclusivamente pertence a ele. Não importa se sinto compaixão, empatia, se partilho sua alegria, é sempre nítido que somos pessoas distintas, na mais profunda acepção do termo.
E o que acontece, dentro desse contexto?
Os norte-americanos denominam a psicoterapia, coloquialmente, como uma “talking cure” (cura pela conversa). A palavra é sim privilegiada, mas algumas modalidades de psicoterapia – como aquela com a qual trabalho – acrescentam, entre outros recursos, movimentos corporais, visualizações (i.e., o uso de imagens, sons, sensações corporais apenas imaginadas) e variações da experiência de meditação.
Aparentemente é bastante simples, não é? Duas pessoas, um encontro. A comunicação flui, podemos rir juntos, e, já me aconteceu, chorar juntos. Parece tão fácil que poderia ser “confundida” com uma conversa entre amigos. Roberto*, jovem, atraente, profissionalmente realizado, várias vezes referia-se às sessões de psicoterapia comigo como “o nosso papo”, “o papo da semana passada foi muito bom” – comentários longe do estereótipo muito divulgado de que “psicoterapia é para malucos” ou “procurar uma psicóloga é coisa para doidos”.
Roberto*, por sua dificuldade de viver vínculos afetivos, leva muito longe a aparente simplicidade do diálogo terapêutico. Mas esse é tema para outro texto… O que quero dizer é que o diálogo – verbal ou não-verbal – presente na psicoterapia é algo aparentemente muito simples, na maioria das vezes cordial e caloroso, mas que tem como “fundamento de existência” uma grande bagagem do profissional em conhecimentos (filosóficos, psicológicos, sociais, científicos) que não são explicitados, mas estão ali mesmo. Além da sua bagagem pessoal de experiências, sensibilidade e sabedoria.
Comecei falando do meu sentimento de privilégio no exercício da psicoterapia. Só me fica faltando dizer agora que penso que o privilégio não é só meu, mas também do cliente**.
Por que privilégio?
Duas razões principais:
1.) pela intimidade única que se estabelece na relação. Nela não há a ameaça de súbito abandono, de competição, de opressão, de descaso. Não é “paternalista” ou “maternalista”, no sentido de indevidamente protetora.
2.) pela possibilidade de satisfação, eu diria até de felicidade, também única, que acontece quando a pessoa encontra, na sessão psicoterápica, o caminho para a resolução de um conflito ou sofrimento. A resolução pode se dar ao longo de diversas sessões contínuas, ou descontínuas. Ou pode acontecer em um “momento aha!”. Pode ter implicado um encontro com o passado e com pessoas e emoções significativas desse passado. Ou pode se referir a experiências e pessoas do presente. Não penso que uma psicoterapia é profunda apenas quando há uma ênfase de investigação no passado da pessoa ou se os pressupostos teóricos são X, Y ou Z. Acho que a profundidade do processo depende da expertise da psicoterapeuta, da abertura e disponibilidade do cliente e, claro, da relação que estabeleceram.
Será que contribuí um pouco para a compreensão do que é a psicoterapia? O que ficou faltando? O que ainda não está claro? Tomara os leitores se animem a contribuir com respostas a essas questões.

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* Nome fictício.

* *  Cliente, paciente, analisando: denominações distintas para o outro sujeito da relação que não é o psicoterapeuta.

sexta-feira, 14 de março de 2014

OPRAH WINFREY, uma pensadora existencial?

Assisti ao último Oprah Winfrey Show na televisão. Uma choradeira só. Tantos depoimentos emocionantes, tantas pessoas se confessando profundamente agradecidas por tudo que aprenderam ao longo dos 25 anos do programa. Parece banal, já li um comentário cínico sobre seu programa. Alguém o comparou, pejorativamente, a uma autoajuda televisiva. Psicoterapeuta de rigorosa formação que sou, não concordo.

Durante mais ou menos dois anos acompanhei, não muito regularmente, as entrevistas incríveis de Oprah. Não vejo muito televisão, mas uma grande amiga, jornalista experiente, fez alguns comentários sobre a personalidade da Oprah, seus empreendimentos na África e em regiões pobres dos EUA, sobre o ineditismo de suas iniciativas e a política que as norteiam, que me deixaram intrigada. Procurei o horário do seu programa em um canal brasileiro de TV. Desde então me interessa muito sua incansável chamada para a autenticidade, para a coragem necessária de cada um ser o que é, para que todos, homens e mulheres, brancos e negros, vivam a liberdade e busquem conquistar o que lhes faz feliz. Tanto no programa de TV como em sua revista, Oprah constantemente aponta para a importância das escolhas que cada um faz a todo o momento da vida, fala da necessidade de olhar para si mesmo com coragem e lucidez, mas sem se esquecer de que o Dasein[1] é um ser no mundo, junto com os outros. Nenhuma experiência humana exclui a existência do outro, esta é uma verdade ontológica, o que quer dizer fundante da realidade. Não é incrível que Martin Heidegger tenha dito isto no começo do século XX e hoje é possível “reencontrá-lo” na fala de Oprah Winfrey?

Gosto muitíssimo de descobrir as noções, propostas, críticas, reflexões, pensamentos e valores tantas vezes afirmados pelos filósofos, psiquiatras e psicólogos que me formaram como psicoterapeuta da fenomenologia-existencial – sendo defendidos, propalados, por pessoas populares (no sentido de sua aceitação por milhões de pessoas, como Oprah Winfrey) e por vertentes de pensamento e fé longínquos (nós, ocidentais, como referência, é claro...) como o budismo tibetano. Isso me dá uma vivência muito particular de universalidade, de partilhamento sem fronteiras de tempo, geografia, língua ou cultura.






[1] Dasein é a expressão usada de modo muito próprio pelo filósofo alemão Martin Heidegger. Designa uma especificidade do ser humano: ele é o ser-aí (Da-sein), presente, no mundo.

OPRAH WINFREY, EXISTENTIAL THINKER?

I saw the last Oprah Winfrey show on television. People cried their eyes out.  So many touching testimonials, so many people confessing their deep gratitude for everything they learned over the 25 years of the show. It seems trivial, I've already read a cynical comment about her and her last show.  Someone pejoratively compared it to a TV  self-help version. Being a psychotherapist of rigorous training I must say that I do not agree with this.

I don't watch much TV, but  a good friend of mine, a very talented journalist, told me a few things about Oprah Winfrey’ personality and her adventures in Africa and in the poor regions of the USA that first intrigued me and soon made me watch Oprah’s show in a Brazilian channel.

Since then I admire among her amazing character qualities, her tireless calling for authenticity, the calling of the guts to be oneself, to be who we are. The calling for everyone, men and women, whites and blacks, to live the  freedom and in search for what makes them happy and fulfilled.

 Both on the TV show and in her magazine, Oprah constantly points out the importance of the choices we (do) on every  moment of our lives. She talks about the need to look within ourselves with courage and lucidity, but never forgetting that Dasein is a being-in-the world, and so always along with the other. No human experience can exclude the existence of the other: this is an ontological truth, which means that it is common to and inherent, constitutional to all beings.
 Isn't it amazing that Martin Heidegger wrote about this early on the 20th century and  that today we can "find it" in Oprah Winfrey’s sayings?

I’m pround of  finding out that concepts, proposals, criticisms, reflections, thoughts and values – so many times reaffirmed by philosophers, psychiatrists and psychologists fundamental in my training as a psychotherapist – are disclosed by popular people ( popular in the sense of their acceptance by millions of people, such as Oprah Winfrey) and by far strands of thought and faith (far, placing us as references ...) as Tibetan Buddhism. This gives me a very special universal experience of sharing this with no borders of time, geography, language or culture. It feels peaceful  and joyful to me.

Anyway, I wanted to write about two subjects that I’m fond of: the weltanschauung (vision of the world) grounded in the existential philosophy and the possibility of finding its truths in such distinct languages, as in a media artist or in a very admired religious and political leader.


Dasein é a expressão usada de modo muito próprio pelo filósofo alemão Martin Heidegger. Designa uma especificidade do ser humano:ele é o ser-aí (Da-sein), presente, no mundo.


segunda-feira, 10 de março de 2014

A Trip to France II


There would be many things to tell about my trip to France. However, two or three things left a remarkable impression in my life. Nothing to do with the troubled return because of the volcano in Iceland. I certainly had an incredible luck that made me ponder: I won’t complain about “bad luck” within the next months. I don’t have the right to do it… to catch the last flight that left Paris before the airport was closed, wasabsurdly good.

The first remarkable experience happened in a small Provence village: Forcalquier. At night, strolling around and looking for a place to eat, I see a small church. The front door was opened, I suggest we go in and visit it. Soon we heard an incredible beautiful music. Few steps ahead, there it was, a large chorus with people of different ages, a small orchestra in front of them and a young conductor. The music was Mozart’s Requiem, touching, dramatic and melancholic. I was dazzled by the beauty and the uniqueness of it all. It was a rehearsal for what was going to happen right there, the next day. To join it, to follow the interruptions and corrections of the conductor, to smile with the chorus laughs when they exchanged funny comments (I could notice by the gestures and the facial expressions), and then the entrance of four singing soloists…I wasbreathing fast, my heart pounding. We smiled, mesmerized. We are here?

The rehearsal finished and we couldn’t resist congratulating the conductor. Talking about how far we had come from, how thankful we were for listening to them. With a soft smile he also thanked us and invited us for the next day concert. But we’d be way far…

Another moment of great emotion – paramount to make it unforgettable– was a visit at Saint-Paul psychiatric hospital, in Saint-Rémy-de-Provence. It is a kind of old and beat up building, anteceded by rows of olive trees. There were also other trees, just beginning to bloom. Spring was in its way. We entered the building (the allowed area for visitors), went up to a curve staircase and there it was: the bedroom where Van Gogh stayed during one year. Almost exactly as it was then, between 1888 and 1889. So casual, so humble.The narrow bed, the famous chair, a small trunk, some paintings on the wall. Only. And the window. The same window that framed landscapes and people he painted. Once again I was breathless, I felt like crying. The internal garden of the hospital remains the same way as Van Gogh painted back then. The same colourful flowers and the bushes, beautifully composing a geometric design.

I guess that those experiences reveal what I mean by “traveling”. It doesn’t matter the place where you go. The encounter with the past, to live the unexpected, to be astonished by the beauty of some human beings who get over the great amount of sadness and disappointment that follow us in the social and political routine of our times –  all of it makes it worth the necessary effort to take a plane, a train, a bus, and meet that which is not familiar to us and challenges our capacity to look at the world with the same awe that Plato taught us to cherish in order to live a better life.

Uma viagem II

Haveria muitas coisas para contar sobre a minha viagem à França. Mas duas ou três deixaram uma impressão marcante na minha vida. Nada a ver com a volta tumultuada por causa do vulcão na Islândia. Tive uma sorte incrível que me fez ponderar: nos próximos meses não vou me queixar de “falta de sorte”. Não tenho o direito… Pegar o último vôo que partiu de Paris, antes do fechamento do aeroporto, foi absurdamente bom.

Quarto em Arles
A primeira experiência marcante aconteceu em um vilarejo da Provence: Forcalquier. À noite, saímos a caminhar e procurar um lugar para comer. Vejo uma pequena igreja. A porta de entrada estava aberta, sugiro entrarmos para conhecê-la. Logo escutamos uma música incrível, linda. E poucos passos depois, lá estava, um grande coral de pessoas de idades muito distintas, uma pequena orquestra à frente, um jovem maestro. A música era o Réquiem de Mozart, emocionante, dramático e melancólico. Fiquei deslumbrada pela beleza e ineditismo de tudo isso. Era um ensaio para o que iria acontecer ali mesmo, no dia seguinte. Participar dele, acompanhar as interrupções e correções do maestro, o sorriso das pessoas, a troca de comentários engraçados (eu percebia pelos gestos e expressões do rosto), a entrada de quatro solistas cantantes… fiquei com a respiração acelerada, o coração batendo forte. Sorríamos, “abobalhados”. Nós aqui?

O ensaio acabou, não resistimos ir cumprimentar o maestro, falar de quão longe tínhamos vindo, de como estávamos gratos por ouvi-los. Ele também agradeceu sorridente, convidou-nos para o espetáculo do dia seguinte. Mas já estaríamos longe…

Outro momento de muita emoção – componente fundamental para fazê-lo inesquecível – foi a visita ao hospital psiquiátrico Saint-Paul, em Saint-Rémy-de-Provence. Um prédio velhinho, um tanto mal tratado, antecedido por fileiras de oliveiras, algumas outras árvores começando a florir. Era o início da primavera. Entramos no prédio (a parte liberada para visitas), subimos uma escada em curva e lá estava: o quarto que Van Gogh ocupou, do jeito que era então, durante um ano. Nossa! Tão despojado, tão modesto. A cama estreita, a famosa cadeira, um pequeno baú, algumas pinturas na parede. Só. E a janela. A mesma janela que emoldura paisagens e gentes que ele pintou. Também aí fiquei com a respiração acelerada, uma vontade de chorar. O jardim interno do hospital está igualzinho ao que Van Gogh pintou. As mesmas flores coloridas com as folhagens compondo um desenho geométrico.

Acho que viajar é isso. Não importa para qual lugar. O encontro com o passado, viver o não-esperado, maravilhar-se com a beleza de alguns seres humanos que redimem a montanha de tristeza e desapontamento que nos acompanha no cotidiano social e político do nosso tempo – tudo isso faz com que valha a pena o empenho necessário para pegar um avião, um trem, um ônibus, e ir ao encontro do que não nos é familiar e desafia nossa abertura e capacidade de olhar o mundo com o mesmo assombro que Platão nos ensinou a cultivar para melhor viver.


segunda-feira, 3 de março de 2014

Cún Zài: Existência Humana (parte I)



Minha viagem a Orlando para participar da Convenção Anual da American Psychological Association continua me alegrando. Leio o longo artigo do psicólogo Dr. Eric Craig – Human Existence (Cún Zái). What is it? What’s in it for us as Existential Psychotherapists? – no qual ele descreve o significado dos caracteres chineses cún (“ser”, “existir”, “sobreviver com sorte ou boa fortuna”, mas também “manter a salvo, abrigado”) e zài (“aí” ou “em”). A combinação dos dois caracteres é a expressão da língua chinesa para “existência”. No pensamento existencial, originário no filósofo Heidegger, esta palavra indica o próprio do ser humano – portanto, indica o estar envolvido, engajado, no mundo. O ser humano não existe encapsulado, uma “subjetividade” isolada, diferenciada, do outro. Ontologicamente estamos sempre envolvidos com os eventos do mundo, em relação com todos os entes. Pensá-los separadamente foi o erro de Descartes, perpetuado por séculos.

Craig se aproximou do pensamento de Lao Tse, como escrevi em outro texto, e desde então procura a conexão do taoísmo com a analítica existencial.
Mas o que realmente quero dizer agora é como fiquei admirada com sua descrição do que é “a maravilha da psicoterapia”.
Seu primeiro contato com a psicoterapia foi aos 13 anos, ao ler uma coluna de revista popular que dizia como as pessoas que trabalhavam nesse campo “dedicavam-se a resolver as dificuldades humanas”, que, diz Craig, não apenas ocupavam, mas eram sua própria existência. Naquele momento ele soube que aquilo era o que queria fazer na vida. Diz ainda: “(suspeito) que, como muitos na nossa área, a solução para a necessidade de um psicólogo era tornar-se um psicólogo”. Assino embaixo. Pensei em ser psicóloga quando tinha 15 anos e sofria imensamente os embates entre meus pais, sentia-me deslocada entre colegas, confusa e perdida no mundo. Costumo dizer a meus clientes: é natural, para mim, estar nos dois lados da relação terapêutica.