segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Aposentadoria: as interrogações da mudança.

A aposentadoria sempre levanta várias questões que merecem ser pensadas: como lidar com as mudanças na vida? Como lidar consigo mesmo? O que fazer para não ficar isolado? É possível manter os relacionamentos construídos em sua instituição de trabalho ou em sua clínica?



A decisão e o processo de aposentar-se são sempre difíceis, em qualquer lugar do mundo.
 Em 2012 eu estava na Convenção Anual da American Psychological Association e assisti a inúmeras apresentações de trabalhos relacionados à Psicologia. Tudo lá acontece em dimensões que surpreendem uma profissional brasileira como eu: dezenas de palestras, diversidade de temas, psicólogos de vários estados e, mesmo membros (como eu) de diferentes países.
Pois bem, a palestra que até hoje me lembro bem, me faz pensar, me inspira para a realização de um trabalho específico, foi a da Dra. Nancy K. Schlossberg sobre aposentadorias. E foi a de maior audiência entre todas que assisti. Seus cabelos naturalmente brancos, seu senso de humor, a facilidade de expressão, os depoimentos sobre seu próprio processo de aposentadoria criaram uma atmosfera de interesse e calor na enorme platéia.
Sempre pensei que um dia iria morrer sentada em minha poltrona, conversando com a paciente do momento, tamanha a minha paixão por meu trabalho como psicóloga e psicoterapeuta. Agora me vejo mudando: será mesmo? Será que é bom descobrir novas vias para o talento que acredito ter?
Penso que os médicos, sejam quais forem suas especialidades, o estágio profissional que alcançaram, a poupança que fizeram – vivem o mesmo dilema que eu: qual o melhor momento para se aposentar? Vale a pena pensar no tema? Quando? Ou é melhor nem pensar nisso, apenas ir vivendo o dia-a-dia da profissão?
Não há uma “melhor resposta” teórica ou científica. Cada médico tem uma experiência própria e, sobretudo, valores próprios. São os valores que irão orientar a escolha, mesmo que outros fatores sejam importantes.
Se o médico (ou médica) tem uma família que o absorve e a qual dedica um afeto intenso, ele vai optar por logo, logo, buscar os meios e estratégias para se aposentar. O mesmo se seu sonho de sempre é viajar, conhecer lugares novos ou voltar com mais tempo para apreciar aqueles que amou.
Mas se o trabalho ocupa um lugar primordial em sua vida, aí as dificuldades aparecem. Afinal quer a aposentadoria aconteça como um evento único, ou uma sucessão de eventos, ela muda a vida de modo muito significativo. Quanto mais a identidade é vinculada ao papel profissional, mais difícil é a aposentadoria. Nesses casos, o profissional sente que deixará de ser quem é, acha que perderá suas referências e, pior, antecipa que não mais terá a apreciação e o reconhecimento social que sempre teve.
E viver sem isso é quase como morrer. Morrer socialmente é tão penoso quanto morrer fisicamente.
A aposentadoria levanta várias questões: Como lidar com as mudanças na vida de casal? Algumas vezes elas são positivas, outras não. Como lidar consigo mesmo? O que fazer para não ficar isolado? É possível manter os relacionamentos construídos em sua instituição de trabalho ou em sua clínica?
De qualquer modo as mudanças pedem um movimento de adaptação, uma avaliação profunda do que lhe é importante ou não.
É claro que também é possível buscar um trabalho de tempo parcial no qual o médico use sua formação e habilidades para continuar conectado com sua profissão, mas sem o stress e as exigências costumeiras. Esse caminho pode ser muito satisfatório, pode  facilitar a manutenção do status financeiro e a manutenção de relações sociais, em geral aspectos preciosos na profissão.
Algumas pessoas amam os riscos. Não os riscos financeiros que a mídia tanto prestigia. Mas refiro-me aos riscos existenciais, aqueles nos quais buscamos experiências que podem nos enriquecer como pessoas, que podem acrescentar uma dimensão em nós nunca antes experimentadas.
É preciso ter consciência que a aposentadoria significa mudança, re-estruturação da vida, uma certa “bagunça” que requerem tempo e invocam a  clássica pergunta: O que eu quero da vida ? Afinal o trabalho nos dá não apenas uma identidade, mas um estilo de vida e de relacionamentos. Deixar um trabalho é muito mais do que deixar de trabalhar. Contudo, aposentar não é um fim, mas uma transição na vida.

Algumas dicas para este tempo, tais como sugeridas pela Dra. Nancy Schlossberg :
1.      Sinta-se confiante de que você “conta” para algumas pessoas, que é reconhecido, apreciado. Se isso não acontece, comece a pensar em como “mexer” com sua vida, de tal forma que esta sua avaliação mude.
2.      Descubra o que tem significado para você. A espiritualidade é um componente importante na vida de muitas pessoas e ela ajuda nessa fase. Ela pode ter diferentes formas: yoga, leitura, participação em uma religião organizada.
3.      Substitua as relações que tem (ou tinha) no trabalho. É importante ter um papel ativo na construção de um novo network de amigos e conhecidos.
4.      Comece ou aumente as atividades físicas. Entre para uma academia, um grupo de caminhadas, contrate um treinador pessoal para você.
5.      Mantenha sua vida financeira organizada. Se necessário, contrate um contador ou um assessor financeiro para lhe ajudar.
6.      Olhe para dentro de si mesmo. Examinar sua vida é uma tarefa desafiadora, mas que lhe ajuda a lidar com os problemas que surgem continuamente ao longo dos anos de aposentadoria.

Os planos, angústias, desafios e alegrias da aposentadoria são um tema fascinante da experiência humana. Nela se desvelam aspectos insuspeitados que podem contribuir para anos de bem estar e felicidade.
Como isso se dá?
Ah!... cada um tem (ou terá) sua própria história...

Bibliografia:
Retire smart, Retire happy (2009, APA Life Tools)

Autora: Dra Amaryllis Schvinger - Psicóloga graduada pela PUC-RJ e Doutora em Psicologia pela UFRJ.




sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

O coração no trabalho

Pesquisas recentes realizadas na Europa e nos Estados Unidos, por médicos e psicólogos, evidenciam a influência negativa do distresse – o estresse prejudicial à saúde – na vida de trabalhadores. Participantes do Congresso Internacional de Ambiente de Trabalho e Doenças Cardiovasculares, na Califórnia, apresentaram pesquisas que indicam que estressores como pouca recompensa pelo esforço no trabalho, ambiente hostil e horário longo de tarefas podem determinar o risco dos trabalhadores para doenças cardiovasculares1.

Quando o trabalhador, operário ou gerente, não tem autoridade para tomar decisões, tampouco controle sobre seu processo de trabalho e muita insegurança quanto permanecer na função, é provável que viva um alto nível de distresse psicológico e, a partir dele, o risco de desenvolver uma doença cardiovascular .

Homens e mulheres vivem exigências relacionadas ao trabalho que muitas vezes superam seus recursos para lidar com elas. Horários rígidos, multiplicidade de tarefas, baixos salários, competição no mercado, são condições que poucos avaliam corretamente como drasticamente prejudiciais à saúde. Muitas vezes encontro pessoas que acreditam que podem trabalhar mais, esforçar-se mais, dedicar mais horas do lazer para preencher supostas lacunas da jornada de trabalho. Os filhos são quem mais reclamam e se ressentem deste super-empenho. Eles querem não apenas mais companhia e cuidados, mas temem pela vida dos pais. Intuitivamente sabem que as demandas excessivas afetam o corpo, e nele, sobretudo o coração.

Procurar formas de lidar com as pressões do trabalho que sejam preventivas de doenças cardiovasculares é um projeto de vida valioso. Criar pausas para relaxar durante o dia, entrar em contato com os próprios sentimentos, ter uma percepção de si como finito, valorizar sua vida afetiva – e, portanto buscar o apoio de colegas, amigos e familiares – são variedades do manejo de estresse indicadas por especialistas.

O trabalho e o salário são fundamentais na vida da maioria das pessoas, mas não merecem qualquer preço a pagar por eles. Os riscos de doenças coronarianas, já comprovados, advindos da ansiedade excessiva, do trabalho extenuante, da irritabilidade contínua, indicam a necessidade das pessoas refletirem sobre seus valores, prioridades e projetos de vida. Muitas vezes só se dão conta disso depois de um diagnóstico de hipertensão arterial ou de um evento cardíaco mais sério como o infarto do miocárdio. É quando a experiência de crise conduz a um questionamento de tudo que constitui a vida do indivíduo.

Por que não adiantar o relógio de uma tal crise e reavaliar logo seu mundo do trabalho?



[1] The Monitor on Psychology, vol.36,n.5, 2005.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

O cultivo da mesmice

Sempre me intriga observar como muitas pessoas discutem calorosamente sobre seu gosto por uma coisa ou outra e como isso acontece em relação às coisas mais banais da vida. Outro dia ouvi a conversa de duas amigas que gastaram minutos e minutos exaltando as qualidades de seu adoçante preferido e rejeitando o preferido pela outra. Se o tema é mais complexo, aí é que a discussão se prolonga, a emoção se intensifica e a preferência ou gosto torna-se uma arma de batalha.


O que me chama a atenção é o esforço que se faz para convencer o interlocutor, como se fosse necessário manter sua posição a qualquer preço, não importa o valor do que se discute. “Marcar a diferença” é sinônimo de forma sobre o outro? E é isso que faz sentir-se melhor?

O que será que está em questão?
Claro que há teorias que servem para tudo explicar. Por exemplo, a que afirma a necessidade humana de se sentir enraizado, ligado ao que lhe é familiar. Outra que aponta o sentimento de segurança advindo de o indivíduo se sentir “o mesmo” em todas as circunstâncias, para viver uma identidade, para não se desorganizar mentalmente. Algo que poderia se formular assim: “se eu digo e sinto sempre o mesmo em relação às coisas da vida, então sou um ‘eu’ firme e seguro” ou “se defendo com muita energia o que penso, então sou forte.”

Uma consequência devastadora desta atitude de cultivo da mesmice é a discriminação do que é diferente, do que não se “encaixa” nos modelos, opiniões e preferências de cada um. Certa vez um rapaz, entrevistado na televisão sobre o tema do homossexualismo, comentou com muito humor: “As pessoas discriminam tanto o que é diferente que até a tampa do pão de fôrma rejeitam.”


A aceitação do que lhe é diferente, a possibilidade de lidar com um comportamento distinto do seu, a abertura para o que lhe é desconhecido, constituem um desafio que poderá trazer uma diversidade de experiências que proporcionarão encantamento, surpresa, curiosidade ou até medo. Não há garantias. Mas se percebermos que o diferente pode se somar ao que somos, ou temos, e nos tornar menos existencialmente provincianos, aumentará muito o ganho de riqueza na vida e generosidade com os demais. Porque penso que provinciano não é próprio, necessariamente, dos indivíduos que moram na província, na cidade pequena. É um atributo que podemos dar àqueles que vivem encapsulados, limitados a um mundo estreito, plenos de certezas e opiniões imutáveis – essa é a conotação existencial do termo. E eles podem viver em metrópolis.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

Ta Máthema


Desde Galileu, bem no início do século XVI, nós começamos a ser orientados na busca do conhecimento pela ta Máthema – a Matemática, em grego.  Galileu foi um herói de nossa história ocidental.  Pela primeira vez houve um rompimento com as ideias da igreja cristã que quase lhe custou a vida. Como podia contestar que o sol não girava em torno da Terra? Como ousar dizer que o céu não era perfeito, que todos os astros não eram compostos pelo éter? Galileu construiu telescópios, mediu distâncias nunca antes exploradas, analisou o movimento da Terra e dos astros e... chegou à conclusão de que a verdadeira linguagem da natureza é a matemática.

O que isso tem a ver com nossa vida cotidiana, essa que tanto nos importa e tanto nos inquieta?

Duas reflexões nos aparecem: a primeira fala desta herança, radicalizada pelo filósofo francês Descartes, de que só é verdadeiro o que pode ser medido, o que é matematizável. Tudo que apreendemos pela imaginação, pelo sonho, pela percepção dos sentidos, é ilusório, porque muda no tempo e no espaço. Mas o que se traduz em uma fórmula ou equação é perene, portanto válido. Esta “verdade suprema” até hoje domina nossas vidas. Quando, por exemplo, alguém acredita que apenas tomando um remédio – uma fórmula química – encontrará a solução para seus males do corpo e da alma (mente? psique?) está sendo fiel à Galileu , à  Descartes e à ciência moderna que deles deriva. Quando os médicos lidam com seu paciente como se ele fosse uma máquina desarranjada, ou mesmo quando sendo um especialista no tratamento de uma parte do corpo físico desconsidera que esta parte pertence a um sujeito – estão reproduzindo, saibam ou não, os ensinamentos de Galileu e Descartes.

Quando o conhecimento se origina tão longe no tempo e se constitui como base de um poder social – como aconteceu na ciência e na medicina – é muito difícil mudar a visão de mundo de médicos e cientistas.  A abertura para o novo, a experimentação realizada segundo outros paradigmas, a apreensão do indivíduo humano como uma unidade de corporeidade e consciência (sem hierarquia do que é “superior” e “inferior”) é difícil, mas creio, inexorável. Assim como impérios dominam grande parte do planeta e, pouco a pouco, se desmoronam, outros se constituindo e ocupando seu lugar, também modelos de pensar e agir se transformam a partir da emergência de conhecimentos novos e da gradual obsolescência dos que até então prevalecem.

Galileu nunca será esquecido, sua rebeldia em relação aos teólogos da Inquisição, a afirmação da ta Máthema como método de conhecimento necessário para transcender os dogmas bíblicos, fazem dele um modelo para cientistas (como os da Física Quântica) e profissionais, (como os da Psicologia)  que afirmam contra o modelo de ciência vigente:

1.      a inclusão  da subjetividade em toda forma de investigação;
2.      o lugar de domínio da  matemática nas ciências naturais, mas não em todas as áreas do conhecimento e
3.      a consideração de que as emoções, os sentimentos, as percepções e os afetos dos seres humanos não são um estorvo, mas aspectos da realidade que enriquecem o conhecimento e ultrapassam as limitações da matemática e suas derivações, como a tecnologia.


Devemos gratidão eterna a Galileu e Descartes, mas não uma eterna submissão.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Como viver um momento difícil? A mítica do “isso passa”

Eu estava dirigindo o carro, na estrada União e Indústria, em Petrópolis, sexta-feira passada. Ia visitar uma pessoa muito querida em um dos hospitais da cidade. É meu amigo de longo tempo, está muito doente, precisa de um tratamento urgente. O caminho até o hospital era longo, demorado, porque impossível ultrapassar qualquer carro. Como sempre. Decidi falar sozinha. É meu jeito de me acalmar, de me dizer coisas que preciso ouvir para encontrar meu eixo. Falo alto, até grito quando preciso de ênfase.

E então me ouvi dizendo: vai passar, vai passar.

No instante seguinte: o que quer dizer “vai passar”? De que estou falando? O que eu sinto? Identifico que me percebo me consolando, me empurrando a ter fé, algum tipo de fé. Alguns instantes se passam.  Nada muda. Estou igual a quando a “conversa” começou. Encurto agora tudo que eu me disse, o tanto que falei da minha tristeza e preocupações, da raiva meio escondida, mas certamente presente. Sou prolixa, seria capaz de escrever muitos detalhes desinteressantes dessa longa conversa, mesmo que ela me seja importante.

O trânsito continuava infame, fiz uma pausa.
E aí me apareceu uma verdade que eu não conhecia, ou pelo menos, não que eu me lembre com essa formulação: “vai passar” é uma forma manca, distorcida, “otimista”, de uma realidade profunda: vai mudar. Claro! O velho Heráclito com seu panta rei (tudo flui) de volta pra mim! O budismo tibetano que me afirma incessantemente a impermanência! Fiquei contente. Como a verdade me faz bem. Então o verdadeiro sentido do “vai passar” é que o acontecimento de agora vai mudar, ele existe no presente, é assim que precisa ser vivido, em toda sua intensidade e eventual complexidade, mas só existe agora.

Claro que a mudança do que estou vivendo agora não traz consigo nenhuma outra certeza. Estou sofrendo, estou triste, meu amigo está muito doente. O que a mudança trará? Não sei. Não sei. Não quero e nem posso me apegar a antecipações positivas ou negativas. Imaginar agora que ele vai se tratar e logo ficar bom, ou que sua doença vai se agravar e vou perdê-lo – são falsas realidades, e por isso me fariam mal.

É difícil viver no presente. O cotidiano, na nossa cultura de urgências e controles, o onipresente medo, me pressionam a correr, ir adiante, prever, “me preparar”.

(Bem sei o quanto estes temas são recorrentes no meu trabalho como psicoterapeuta. O quanto preciso facilitar nas pessoas o aparecimento da chamada para viver o presente e, nesse mesmo processo, conseguir a compreensão e superação dos obstáculos para que isso aconteça ).

Chego ao pátio do hospital, me dou conta de como o dia está bonito, o céu tão azul nesse final de primavera. Estes momentos de auto-encontro me fazem bem, vejo que persisto na minha busca pela paz e grounding no momento presente.


Claro que até a próxima vez na estrada, até a próxima auto-conversa complicada... E tudo bem. A vida é assim, movimento, mudança, instabilidade, surpresas.


terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Este corpo que sou eu


A tradição científica nos diz que somos feitos de duas partes distintas: uma é material (o corpo) e a outra é imaterial (a psique ou mente ou espírito). Essa divisão permeia não apenas as investigações biológicas, médicas, psicológicas, como entranha nosso dia a dia. Falamos do fígado, do coração, da dor nas pernas, na “coluna”, como se fossem objetos, coisas que precisam ser consertadas para que possamos ter saúde e viver bem.

Embora o conhecimento científico tenha trazido muitos benefícios para o tratamento dos males que nos afligem, precisamos considerar que ele não é a única forma de apreender os fenômenos humanos, entre eles o da corporeidade. A fenomenologia existencial aponta para o fato de que a corporeidade é constitutiva da existência. Isto quer dizer que é própria do ser humano, não é “algo a mais”, uma coisa externa a ele. Eu sou meu corpo. Quais consequências decorrem  deste modo de olhar, de apreender o corpo? Uma delas é a de que a doença, o mal estar, um sintoma, falam de uma alteração no viver que podem ser tratados com medicações, mas que, além disso, são um chamado para que a pessoa se detenha e “escute” a si mesmo,  busque encontrar não apenas as “causas” da doença, mas aquilo do que a doença fala.


H. é uma mulher de quase 60 anos. Procurou-me para psicoterapia por indicação de seu médico clínico. Queixa-se de enjôos frequentes, dor no estômago e cansaço exagerado. Com frequência, convidando-a a vir até sua casa, na verdade H. faz contínuas críticas contundentes ao seu comportamento. Acha que a nora domina o marido - seu único filho - afasta-a da neta, não gosta dela. Aos poucos descobre e aceita a conexão entre seus sintomas corporais e a experiência de não ser ela mesma em uma área importante de sua vida.

A doença traz mudanças de vida, torna a pessoa “diferente”, usando-se a referência de que todo mundo é saudável. Sintomas fazem com que o indivíduo não mais permaneça mergulhado nos afazeres cotidianos, muitas vezes longe de si mesmo. Mas se os considerarmos como alterações no corpo que somos, e não no corpo que temos, eles podem ser vividos como limites, trazendo medo, sofrimento e revolta e, ao mesmo tempo, serem abertura para a aceitação profunda de que a existência é vulnerável, finita e, como tal, precisa ser vivida em consonância com o que realmente a pessoa acredita e almeja para si.   

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Diga sim às emoções


Há quem acredite que se deve controlar a raiva, evitar situações tristes ou que possam resultar em mágoa, substituir as emoções por atitudes bem pensadas, racionais, que o impedem de entrar em conflitos com os outros. Seria isso possível? Seria este o melhor que se pode fazer para si mesmo?  

Acreditamos que não, pois as emoções – ainda que muitas vezes intensamente perturbadoras – nos fazem sentir mais próximos de nós mesmos, mais vivos, agregam riqueza, profundidade e beleza à vida cotidiana. Todos, de alguma forma, sabemos disso, mas muitos de nós, inconscientemente, se recusam a sentir em consequência das defesas erigidas a partir da infância contra dores reais ou imaginárias. Por exemplo, o desconfortável desamparo provocado por um pai ausente pode levar uma criança a fechar-se em si mesma ou a ficar indiferente à pessoa que a magoa – e o que é pior, a levar para a vida adulta esse tipo de postura.  Ignora, no entanto, que um muro construído para refrear o avanço da dor acaba por impedir a ocorrência do prazer e dos pequenos ou grandes momentos de felicidade.

No entanto, é possível aproximar-se das emoções e retirar delas todos os seus benefícios, desde que se entenda que as autodefesas construídas no decurso da vida constituem um empecilho ao pleno sentir e que devem, portanto, ser revistas. De fato, as defesas necessárias à proteção de uma criança desamparada (devido à  pouca idade) acabam por limitar o adulto no qual ela se transforma.

Desafio: Decida qual defesa desafiar e aprenda o que esperar na medida em que você “coloca uma distância psicológica” de si mesmo. E aí jogue sua defesa fora. Procure encontrar o sentido das emoções que começarão a emergir. Identifique de onde elas vêm, com a ajuda de um diário, de um amigo ou de uma psicóloga.

Uma viagem de descoberta de si mesmo leva tempo e não é sempre fácil. Você estará desafiando a si mesmo de uma maneira que pode fazê-lo sentir-se desconfortável. Você precisará conduzir esta auto-exploração com justeza(?) e compaixão por si mesma. NUNCA adote uma posição de julgamento, de impaciência, de dureza (harsh) punitiva diante de suas limitações. NUNCA seja crítica de si mesma.


Você não é diferente ou pior do que ninguém. Todos nós sofremos com as limitações emocionais de nossa vida. Mas as emoções são preciosas bússolas no encontro de si mesmo, no auxílio às intuições, na ajuda a discriminar o que é realmente importante nas situações de vida.