A aposentadoria sempre levanta várias questões que merecem ser pensadas:
como lidar com as mudanças na vida? Como lidar consigo mesmo? O que fazer para
não ficar isolado? É possível manter os relacionamentos construídos em sua
instituição de trabalho ou em sua clínica?
A decisão e o processo de
aposentar-se são sempre difíceis, em qualquer lugar do mundo.
Em 2012 eu estava na Convenção
Anual da American Psychological Association e assisti a inúmeras
apresentações de trabalhos relacionados à Psicologia. Tudo lá acontece em
dimensões que surpreendem uma profissional brasileira como eu: dezenas de
palestras, diversidade de temas, psicólogos de vários estados e, mesmo membros
(como eu) de diferentes países.
Pois bem, a palestra que até hoje
me lembro bem, me faz pensar, me inspira para a realização de um trabalho
específico, foi a da Dra. Nancy K. Schlossberg sobre aposentadorias. E foi a de
maior audiência entre todas que assisti. Seus cabelos naturalmente brancos, seu
senso de humor, a facilidade de expressão, os depoimentos sobre seu próprio
processo de aposentadoria criaram uma atmosfera de interesse e calor na enorme
platéia.
Sempre pensei que um dia iria
morrer sentada em minha poltrona, conversando com a paciente do momento,
tamanha a minha paixão por meu trabalho como psicóloga e psicoterapeuta. Agora
me vejo mudando: será mesmo? Será que é bom descobrir novas vias para o talento
que acredito ter?
Penso que os médicos, sejam quais
forem suas especialidades, o estágio profissional que alcançaram, a poupança
que fizeram – vivem o mesmo dilema que eu: qual o melhor momento para se
aposentar? Vale a pena pensar no tema? Quando? Ou é melhor nem pensar nisso,
apenas ir vivendo o dia-a-dia da profissão?
Não há uma “melhor resposta”
teórica ou científica. Cada médico tem uma experiência própria e, sobretudo,
valores próprios. São os valores que irão orientar a escolha, mesmo que outros
fatores sejam importantes.
Se o médico (ou médica) tem uma
família que o absorve e a qual dedica um afeto intenso, ele vai optar por logo,
logo, buscar os meios e estratégias para se aposentar. O mesmo se seu sonho de
sempre é viajar, conhecer lugares novos ou voltar com mais tempo para apreciar
aqueles que amou.
Mas se o trabalho ocupa um lugar
primordial em sua vida, aí as dificuldades aparecem. Afinal quer a
aposentadoria aconteça como um evento único, ou uma sucessão de eventos, ela
muda a vida de modo muito significativo. Quanto mais a identidade é vinculada
ao papel profissional, mais difícil é a aposentadoria. Nesses casos, o
profissional sente que deixará de ser quem é, acha que perderá suas referências
e, pior, antecipa que não mais terá a apreciação e o reconhecimento social que
sempre teve.
E viver sem isso é quase como
morrer. Morrer socialmente é tão penoso quanto morrer fisicamente.
A aposentadoria levanta várias
questões: Como lidar com as mudanças na vida de casal? Algumas vezes elas são
positivas, outras não. Como lidar consigo mesmo? O que fazer para não ficar
isolado? É possível manter os relacionamentos construídos em sua instituição de
trabalho ou em sua clínica?
De qualquer modo as mudanças
pedem um movimento de adaptação, uma avaliação profunda do que lhe é importante
ou não.
É claro que também é possível
buscar um trabalho de tempo parcial no qual o médico use sua formação e
habilidades para continuar conectado com sua profissão, mas sem o stress e as
exigências costumeiras. Esse caminho pode ser muito satisfatório, pode
facilitar a manutenção do status financeiro e a manutenção de relações sociais,
em geral aspectos preciosos na profissão.
Algumas pessoas amam os riscos.
Não os riscos financeiros que a mídia tanto prestigia. Mas refiro-me aos riscos
existenciais, aqueles nos quais buscamos experiências que podem nos enriquecer
como pessoas, que podem acrescentar uma dimensão em nós nunca antes
experimentadas.
É preciso ter consciência que a
aposentadoria significa mudança, re-estruturação da vida, uma certa “bagunça”
que requerem tempo e invocam a clássica pergunta: O que eu quero da vida
? Afinal o trabalho nos dá não apenas uma identidade, mas um estilo de vida e
de relacionamentos. Deixar um trabalho é muito mais do que deixar de trabalhar.
Contudo, aposentar não é um fim, mas uma transição na vida.
Algumas dicas para este tempo,
tais como sugeridas pela Dra. Nancy Schlossberg :
1. Sinta-se
confiante de que você “conta” para algumas pessoas, que é reconhecido,
apreciado. Se isso não acontece, comece a pensar em como “mexer” com sua vida,
de tal forma que esta sua avaliação mude.
2. Descubra
o que tem significado para você. A espiritualidade é um componente importante
na vida de muitas pessoas e ela ajuda nessa fase. Ela pode ter diferentes
formas: yoga, leitura, participação em uma religião organizada.
3. Substitua
as relações que tem (ou tinha) no trabalho. É importante ter um papel ativo na
construção de um novo network de amigos e conhecidos.
4. Comece
ou aumente as atividades físicas. Entre para uma academia, um grupo de
caminhadas, contrate um treinador pessoal para você.
5. Mantenha
sua vida financeira organizada. Se necessário, contrate um contador ou um
assessor financeiro para lhe ajudar.
6. Olhe
para dentro de si mesmo. Examinar sua vida é uma tarefa desafiadora, mas que
lhe ajuda a lidar com os problemas que surgem continuamente ao longo dos anos
de aposentadoria.
Os planos, angústias, desafios e
alegrias da aposentadoria são um tema fascinante da experiência humana. Nela se
desvelam aspectos insuspeitados que podem contribuir para anos de bem estar e
felicidade.
Como isso se dá?
Ah!... cada um tem (ou terá) sua
própria história...
Bibliografia:
Retire smart, Retire happy
(2009, APA Life Tools)
Autora: Dra Amaryllis
Schvinger - Psicóloga graduada pela PUC-RJ e Doutora em Psicologia pela
UFRJ.







