sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Faça acontecer

O livro de Sheryl Sandberg, “Faça Acontecer”, é muito bom. Carreguei-o por todos os lados, li nas minhas viagens de ida e volta para casa, do Rio para Petrópolis, nos pequenos intervalos de meu trabalho no consultório. Ela diz coisas que andavam esquecidas, desde que o movimento feminista perdeu força. As mulheres acreditam que não precisam fazer mais nada, o feminismo fez conquistas e se esgotou. Sandberg denuncia, e mostra com pesquisas, bibliografia e depoimentos, que a desigualdade de tratamento, percepção, salários e oportunidades de trabalho continuam sob o jugo do preconceito e da discriminação, da desigualdade entre os sexos. Mas há ainda dois aspectos extremamente positivos no livro: seu depoimento pessoal sobre sua carreira e vida familiar – peculiar por ser ela “a 5ª mulher mais poderosa” do mundo (revista Fortune, em 2012) – e a sua proposta de avanço necessário das conquistas psicológicas e sociais da mulher.
Sandberg passa quase o livro todo apontando as sutis — e não tão sutis — formas pelas quais as mulheres não assumem seu poder de desenvolvimento e não “levantam a mão” para expressar o que pensam no mundo das empresas e instituições. Gostei muito de ela escolher o “levantar a mão” para mostrar a diferença entre homens e mulheres. Há anos vejo em palestras, aulas e conferências — minhas e de outros — como são os homens que mais levantam a mão para fazer perguntas, comentários, desafios. Sempre lamentei isso e, algumas vezes, confesso, fiz perguntas só para “fazer número”, para fazer acontecer. Incomodava-me a “ausência” das mulheres. Devo ter falado muita bobagem, mas falei!
A temática principal do livro é o estímulo, dado pela autora, para que as mulheres sejam cada vez mais donas de sua história pessoal e profissional, para que não se deixem intimidar pelo poder masculino que domina o mundo do trabalho e da família, para que não abdiquem de se desenvolver e de conquistar lugares de destaque e poder social. É uma “velha” mensagem, mas, como ela mesma diz, ainda falta muito para que exista igualdade entre os sexos e para que possamos abrir mão desse tipo de mensagem.  O grande trunfo de Sheryl Sandberg é a enorme e crescente responsabilidade que há anos ela vive no trabalho – atualmente é a segunda profissional na hierarquia do Facebook –, combinada com uma rica vida familiar.
E aí?
Lá pelas tantas do livro lembrei-me de uma experiência feminina que sempre me intrigou. E como ela não consta da narrativa de Sandberg, pensei em falar dela aqui no meu blog.
Qual experiência?
A do enorme sentimento de poder vivido por muitas mulheres na relação com os filhos, principalmente quando pequenos. O menininho entra cauteloso pela primeira vez na escola. A mãe não contém as lágrimas. A separação dói. Há um sentimento de perda, de abandono. Ele pode fazer algo longe dela! Pode gostar e se ligar a outra mulher! O filho lhe escapa!
Já ouvi muitas queixas de professoras: seu trabalho de adaptação das crianças pequenas na escola às vezes é dificílimo porque… as mães fazem “de tudo” para a criança relutar em se afastar dela e entrar na sala.
Ou quando a adolescente começa a se apegar às amigas ou inicia um namoro, um “ficar”, e a mãe, (muitas vezes também o pai), aumenta o controle de saídas e horários. Sob a aparência de cuidado e proteção (que incluí a famosa e onipresente preocupação), percebo a necessidade de domínio, a enorme dificuldade de “deixar ir”, de “deixar ser” a filha ou filho.
O fato é que há nessas situações o exercício vicário de poder.
E me pergunto até que ponto essa experiência de poder sobre os filhos ocupa um lugar tão importante, tão atraente e tão bem aceito socialmente na vida de uma mulher que ela abre mão da conquista do poder social, financeiro, existencial, advindo da convivência (e competição!) com os outros, sejam eles seus companheiros de vida ou de trabalho.

Não tenho nenhuma resposta comprovada, mas deixo aqui um estímulo (tomara!) para uma reflexão frutífera.

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Uma Notícia em Psicologia: A PSICOTERAPIA TAO

Participei da Convenção Anual da American Psychological Association da qual sou um membro internacional. Mais uma vez me surpreendi com a grandiosidade de tudo que lá acontece e aparece: o número de apresentações de trabalhos, a variedade de temas, a exibição de publicações, DVDs, testes de vários tipos de avaliação psicológica, filmes com temas de interesse específico para os profissionais, encontros informais para network, sessões de posters feitos principalmente por jovens psicólogos doutorandos de todo o país. De um tudo.
Entre tantas palestras e painéis, fui assistir ao que chamava “Conversation hour: Intersubjectivity and Human Existence – a Dialogue of Emotional Worlds and Dasein.
Como minha formação em psicoterapia é baseada na filosofia existencial, fui correndo procurar o local – o que não era fácil empreitada. O edifício para convenções era gigantesco, enormes corredores atapetados, salas de teto altíssimo, alas “embutidas” nos corredores.
Conheci então um dos trabalhos que mais me intrigou: a palestra do psicólogo Dr. Erik Craig (nos EUA só recebem a denominação de psicólogo os que têm doutorado). Ao final de sua apresentação fui cumprimentá-lo. Disse que eu era brasileira e gostaria de receber uma cópia de seu trabalho. Seu tema era muito original e pouco conhecido em meu país. Na mesma hora entregou-me um exemplar do artigo já publicado, em 2007, na revista The Humanistic Psychologist:

Tao Psychotherapy: Introducing a New Approach to Humanistic Practice.
O texto narra como Craig conheceu o psiquiatra coreano Dr. Rhee Dongshick e a abordagem psicoterápica que Dongshick denominou Psicoterapia Tao. E o que é Psicoterapia Tao?
Transcrevo o resumo oferecido por Craig:
“A Psicoterapia Tao é fundamentalmente uma abordagem humanista profunda na psicoterapia. Ela é psicodinâmica e interessada com os conflitos e sofrimentos humanos, e ao mesmo tempo é essencialmente transcendental, transpessoal, ou espiritual. Como a Daseinanalyse no ocidente, a Psicoterapia Tao oferece um fundamento filosófico (i.e., ético, epistemológico e ontológico) para a psicologia e psicoterapia.” (p.124)
Embora tenha influência da Daseinanalytic de Martin Heidegger e de várias abordagens da psicoterapia profunda do ocidente, principalmente da Daseinanalyse de Medard Boss e da Psicanálise – ela busca sua fonte originária no Taoísmo e no Budismo Mahayana.

As quatro principais ênfases da Psicoterapia Tao são:
1. O desenvolvimento da personalidade do psicoterapeuta a partir tanto da psicoterapia profunda ocidental quanto do pensamento e prática oriental que têm como foco o esvaziamento e purificação da mente. Craig identifica aqui uma aproximação com a prática da redução fenomenológica de Husserl.
2. A afinação empática (este termo é muito próximo àstimmung de Heidegger e, por aí, minha afinação com a proposta de Craig e Rhee) e a compaixão do terapeuta com o paciente e suas vivências.
3. A ênfase nas “emoções nucleares” – denominação dada por Rhee Dongshick – que, resumidamente, abrangem os complexos afetivos e emocionais originados na infância e que constituem uma influência motivacional por toda a vida.
4. O valor insubstituível na psicoterapia da experiência vivida (Erlebnis). Isto significa que o terapeuta deliberadamente evita interpretações intelectuais em favor da apreensão direta do vivido pelo paciente (este também é um ponto central na abordagem terapêutica fenomenológica-existencial).

A psicoterapia Tao privilegia a utilização de mitos culturais e alegorias e não acredita que o terapeuta deve dar especial importância a específicos métodos e técnicas. “Ser”, e não “fazer”, é o centro/coração desta terapia.

Finalizando este breve resumo, assinalo a correspondência que Craig faz da noção de nada ou vazio, aspecto central tanto do Taoísmo e Budismo, com a do nada em Heidegger. “O Tao é um vazio em espiral”, “o eterno não-ser” diz o Tao Te Ching (Chen, 1989).

Mas isso não indica um nihilismo filosófico. Ao contrário. O vazio ou o nada é a experiência mais pregnante. Dele co-nascem (expressão usada por Thich Nhat Hanh) o mundo e todos os entes nele. O vazio é a experiência fundamental, grávida da possibilidade do indivíduo alcançar o Satori, a iluminação. Em termos existenciais, a autenticidade e o “deixar ser” de todas as coisas, a “abertura para o mistério” (expressão usada por Heidegger no texto “Gelassenheit”,1959).


Enfim, meu contato com este texto sobre a Psicoterapia Tao me faz apreciar, uma vez mais, a beleza e importância da integração do mundo oriental com o nosso e a aceitação da diferença como abertura para a ampliação de nossa visão de mundo. Tudo isso reforça minha convicção de que um bom terapeuta “traz a Primavera para a terra gelada do paciente”, como disse o Dr. Rhee em feitio de koan.

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Meu choro bom

Vi um espetáculo na TV Cultura: a apresentação na Sala São Paulo da Orquestra de Metais Lyra-Tatuí. E aí?… Chorei e ri quase uma hora. Não conseguia parar, a emoção mudou meu estar-no-mundo de tal maneira que fiquei assim, boba e alegre. Pouca gente deve saber dessa Orquestra: as coisas boas do Brasil são muito pouco divulgadas. Somos bombardeados pela mídia por notícias de violência, de corrupção, de desastres naturais absurdos nas suas consequências, de ameaças de guerras. Pouco tempo e espaço são dados a algumas maravilhas que existem no mundo. Mas hoje vivi uma exceção: assistir, em casa, partilhando com meu marido estrangeiro, à apresentação de crianças e adolescentes, brasileiros de Tatuí, SP, tocando instrumentos de sopro e percussão, dançando em coreografia original, cantando ou cantarolando lindamente. Um grupo grande e diversificado na cor de suas peles, na escolha de suas músicas, nos instrumentos complexos ou simples.

Lá pelas tantas houve um pequeno intervalo no programa e o maestro e professor do grupo, Adalto Soares, contou sua experiência de ensino e regência na pequena cidade, com essas crianças e jovens. Falou da alegria e medo deles por se apresentarem na Sala São Paulo, tão cheia de prestígio que é. E das apresentações, bem recebidas, em outras cidades, inclusive européias, como na Alemanha. Logo descreve como a formação musical do grupo começa cedo e apresenta uma menininha linda, de quatro anos. Pede a ela que toque, diante do enorme público, uma nota em seu pequeno instrumento. E lá continuava eu chorando. Quando, ao final do espetáculo, o grupo apresentou um pot-pourri de músicas brasileiras clássicas, populares, um baião dançado com alegria e sensualidade e… o hino nacional – pronto. Nunca consegui ouvir o hino sem chorar muito. As lágrimas correm, a adrenalina corre solta. Emociono-me como se a música estivesse salvando o Brasil, ali, agora. Nem adianta raciocinar, chamar uma lógica ou a vergonha. É assim. Mas felizmente o choro se misturava à minha alegria por sentir orgulho daquelas crianças, daquele jovem maestro dedicado que me faziam ver meu país com olhos mais generosos do que o cotidiano me favorece.