O livro de Sheryl Sandberg, “Faça
Acontecer”, é muito bom. Carreguei-o por todos os lados, li nas minhas
viagens de ida e volta para casa, do Rio para Petrópolis, nos pequenos
intervalos de meu trabalho no consultório. Ela diz coisas que andavam esquecidas,
desde que o movimento feminista perdeu força. As mulheres acreditam que não precisam fazer mais nada, o feminismo fez
conquistas e se esgotou. Sandberg denuncia, e mostra com pesquisas,
bibliografia e depoimentos, que a
desigualdade de tratamento, percepção, salários e oportunidades de trabalho
continuam sob o jugo do preconceito e da discriminação, da desigualdade entre
os sexos. Mas há ainda dois aspectos extremamente positivos no livro: seu
depoimento pessoal sobre sua carreira e vida familiar – peculiar por ser ela “a
5ª mulher mais poderosa” do mundo (revista Fortune, em 2012) – e a
sua proposta de avanço necessário das conquistas psicológicas e sociais da
mulher.
Sandberg passa quase o livro todo
apontando as sutis — e não tão sutis — formas pelas quais as mulheres não
assumem seu poder de desenvolvimento e não “levantam a mão” para expressar o
que pensam no mundo das empresas e instituições. Gostei muito de ela escolher o
“levantar a mão” para mostrar a diferença entre homens e mulheres. Há anos vejo
em palestras, aulas e conferências — minhas e de outros — como são os homens
que mais levantam a mão para fazer perguntas, comentários, desafios. Sempre
lamentei isso e, algumas vezes, confesso, fiz perguntas só para “fazer número”,
para fazer acontecer. Incomodava-me a
“ausência” das mulheres. Devo ter falado muita bobagem, mas falei!
A temática principal do livro é o
estímulo, dado pela autora, para que as mulheres sejam cada vez mais donas de
sua história pessoal e profissional, para que não se deixem intimidar pelo
poder masculino que domina o mundo do trabalho e da família, para que não
abdiquem de se desenvolver e de conquistar lugares de destaque e poder social.
É uma “velha” mensagem, mas, como ela mesma diz, ainda falta muito para que exista igualdade entre os sexos e para que
possamos abrir mão desse tipo de mensagem. O grande trunfo de Sheryl
Sandberg é a enorme e crescente responsabilidade que há anos ela vive no
trabalho – atualmente é a segunda profissional na hierarquia do Facebook –,
combinada com uma rica vida familiar.
E aí?
Lá pelas tantas do livro lembrei-me de
uma experiência feminina que sempre me intrigou. E como ela não consta da
narrativa de Sandberg, pensei em falar dela aqui no meu blog.
Qual experiência?
A do enorme sentimento de poder vivido
por muitas mulheres na relação com os filhos, principalmente quando pequenos. O
menininho entra cauteloso pela primeira vez na escola. A mãe não contém as
lágrimas. A separação dói. Há um sentimento de perda, de abandono. Ele pode
fazer algo longe dela! Pode gostar e se ligar a outra mulher! O filho lhe
escapa!
Já ouvi muitas queixas de professoras:
seu trabalho de adaptação das crianças pequenas na escola às vezes é dificílimo
porque… as mães fazem “de tudo” para a criança relutar em se afastar dela e
entrar na sala.
Ou quando a adolescente começa a se
apegar às amigas ou inicia um namoro, um “ficar”, e a mãe, (muitas vezes também
o pai), aumenta o controle de saídas e horários. Sob a aparência de cuidado e
proteção (que incluí a famosa e onipresente preocupação), percebo a necessidade
de domínio, a enorme dificuldade de “deixar ir”, de “deixar ser” a filha ou
filho.
O fato é que há nessas situações o exercício vicário de poder.
E me pergunto até que ponto essa
experiência de poder sobre os filhos ocupa um lugar tão importante, tão
atraente e tão bem aceito socialmente na vida de uma mulher que ela abre mão da
conquista do poder social, financeiro, existencial, advindo da convivência (e
competição!) com os outros, sejam eles seus companheiros de vida ou de
trabalho.
Não tenho nenhuma resposta comprovada,
mas deixo aqui um estímulo (tomara!) para uma reflexão frutífera.


