quarta-feira, 16 de julho de 2014

Quero morar na Antártida

Moro em um lindo pedaço da cidade de Petrópolis: o Vale do Mata Porcos, no distrito de Correas. Vivo cercada por uma paisagem selvagem, a Mata Atlântica, e por grandes casas construídas há décadas atrás. Aqui encontro o silêncio que me ajuda a pensar, a criar projetos de trabalho, a juntar-me a mim mesma depois de alguns dias de vida no Rio de Janeiro.
Parece muito invejável, tudo isso. Mas não é tanto. Porque não tenho uma conexão de internet que possa assim ser chamada. Conto apenas com uma conexão discada – que me leva à loucura. Não funciona porque “cai” a todo instante e, pior ainda, não responde a meus “comandos” para abrir páginas ou emails. Em 90% das vezes que tento usá-la, desisto. Pego meu carro, desço para o centro do bairro, ou vou para Itaipava, em busca das papelarias onde posso usar a internet.
Estou eu nessa vida peregrina quando leio no jornal O Globo (13/3/13):
“A Oi montou para a Marinha na Antártida uma estação (de internet) ligada ao Leblon. A tarifa é a de uma ligação para o Rio.” (negritos meus)
Inacreditável! Da Antártida para o Leblon? E eu aqui do lado?
O que ou quem no Leblon “mereceu” esse privilégio absurdo?
A desigualdade, as mil faces da oligarquia no Brasil, são onipresentes. Mas minha revolta é apenas mais uma. Nos dias de agora há temas no país mais contundentes para ela.

Contudo, preciso falar.

sexta-feira, 11 de julho de 2014

Uma revisão histórica do encontro do Budismo com a Psicologia

Em agosto de 2011 estive na Convenção Anual da Associação Americana de Psicologia da qual sou membro internacional. Durante 5 dias assisti apresentações de inúmeros trabalhos acadêmicos, muitos dos quais relacionados ao tema da integração do pensamento e prática orientais com a psicologia.
A psicóloga Ana Popovska resumiu a história do encontro “leste-oeste” no seu trabalho “Buddhism and Psychology in a historical review”. Foi muito interessante ter uma visão geral de acontecimentos atualmente esquecidos ou subestimados, mas de suma importância histórica para nós, psicoterapeutas.
O foco da psicóloga foi a história vivida nos Estados Unidos, mas como quase tudo de nossa realidade brasileira, muitos dados são válidos aqui. Escolhi alguns tópicos para divulgar agora e acrescentei algumas observações (em itálico).
Na segunda metade do século XIX:
· » 1863-1869 : Construção da primeira ferrovia transcontinental (que abriu a “fronteira” entre o leste e o oeste dos EUA, estimulando a imigração de trabalhadores)
· » 1850: corrida do ouro na California.
· » Primeira onda de imigração asiática.
· » Introdução de novas práticas religiosas e de novos templos.
· » O foco científico no racionalismo, a corrente positivista, impulsionou movimentos como o espiritualismo, o misticismo e a teosofia. Estes buscaram idéias nas religiões orientais.
· » Em 1875 foi fundada a Sociedade Teosófica.
· » Em 1893 o mestre Zen Daisetz Teitaro Suzuki (n. 1870) foi participar do “World Parliament of Religions”, em Chicago, acompanhando seu mestre Zen.
· » Nesta mesma data o Dr. Paul Carus contrata Suzuki como tradutor de textos budistas. Suzuki introduz o estudo acadêmico do Budismo nos EUA.
· » Estabelece contato com Carl Jung.
· » 1952 – 1957: A Universidade de Columbia oferece seminários sobre Zen Budismo. Suzuki conhece Erich Fromm e Karen Horney.
Sobre o Zen Budismo:
· Caracteriza-se pela simplicidade, pela reclusão monástica, pelo trabalho doméstico, e pelos exercícios de meditação. Seu objetivo é conectar o homem com a natureza – o que é considerado a origem fundamental do bem estar físico e mental (Suzuki, 1960). “A abordagem Zen busca entrar direto no objeto e vê-lo, tal como é, a partir dele mesmo” (daí a proximidade com a Fenomenologia, contestadora da metodologia cientifica na construção do conhecimento)
· Na tentativa de conhecer objetivamente a realidade, o indivíduo se separa do objeto de seu estudo, enquanto que o Zen conduz o indivíduo a tornar-se o objeto, dando “permissão” para a experiência subjetiva do objeto.
· » 1933 – 1951: Jung participou ativamente dos seminários Eranos, criados com o objetivo de reunir professores interessados nas idéias orientais.
· » 1939 - Jung escreveu a introdução do livro de Suzuki “Introdução ao Zen Budismo” e outros textos relacionados às religiões orientais: “Yoga e o Ocidente” (1936), “Psychology of Eastern Meditation” (1943), Comentários ao Livro Tibetano dos Mortos (1953) e ao Livro Tibetano da Grande Liberação.
· » Na Europa o interesse nas tradições asiáticas está refletido nos escritos de Schopenhauer e Nietzsche, entre outros.
· » Em 1939 Jung escreve sobre a experiência da iluminação (satori): “Satori corresponde, na esfera cristã, à experiência de transformação religiosa… Ela é, sem dúvida, uma experiência mística…(cujos) primeiros estágios consistem em “deixar-se levar” (letting oneself go), em “esvaziar-se de imagens e idéias” (1960, p.547).
O Encontro de Suzuki com Erich Fromm e Karen Horney
· » 1952 – 1957: Seminários abertos sobre Zen Budismo na Universidade de Columbia, N.Y.
· » Em janeiro de 1957 a revista Vogue publica: “As pessoas estão comentando sobre… as aulas na Universidade Columbia do grande professor Zen Budista, Dr. Daisetz Suzuki. Ele se senta no meio de um monte de livros, balança seus óculos numa elegância cerimonial enquanto mistura abstrações filosóficas com o concreto familiar: “descobrir a si mesmo é uma grande conquista, descobrir o zero é um grande salto”; em outro momento: “não ter objetivo ulterior no trabalho – aí então você é livre”.
· » Em 1957 a revista New Yorker cita Suzuki : “Como você vê, neste ponto, zero se iguala a infinito e infinito se iguala a zero. O resultado é o vazio.” (zero equals infinity and infinity equals zero. The result is emptiness)
· » Agosto, 1957: E. Fromm organiza o Congresso ‘Zen e a Psicanálise’, em Cuernavaca, México. 50 proeminentes psicanalistas comparecem, incluindo Carl Jung. Suzuki foi o palestrante convidado.
· » 1960: publicação de Zen Buddhism and Psychoanalysis por D.T. Suzuki, Erich Fromm, Richard DeMartino.
· » Karen Horney (1885-1952): em 1952 viaja para o Japão. Horney descobriu no Japão que a vida pode ser muito diferente da que estamos acostumados. Escreve em 1952: “No ocidente, um paciente vive segundo a vida “deve ser”. A mera aceitação dos impulsos compulsivos não os faz desaparecer. Os “deves” têm que ser experienciados e elaborados, e rompida toda a estrutura neurótica para que os sentimentos genuínos possam surgir e forças construtivas possam ser mobilizadas. Isto parece ser menos significativo na terapia dos japoneses que parecem ser menos alienados e mais próximos da natureza. Abandonar o velho status quo neurótico significa encarar o vazio. Em suas meditações, os japoneses estão ávidos para encarar este vazio” (Horney, 1952, p.87)
· Horney morreu em 1952, Jung em 1961 e Suzuki em 1966.

A autora deste trabalho provavelmente não conhece a obra do psiquiatra suíço Medard Boss. Ele é o criador da Daseinanalyse, abordagem psicoterapêutica inspirada na obra dos filósofos Edmund Husserl e Martin Heidegger. Menciono-o aqui por conta de suas viagens à India e à influencia das experiencias lá vividas, nas três estadias não contínuas que fez. Tenho em mãos o livro, traduzido do alemão para o frances, no qual Boss narra estas experiencias: “Un psychiatre en Inde” (Um psiquiatra na Índia), Ed. Fayard. Infelizmente minha cópia não tem dados importantes da publicação. Mas provavelmente essas viagens aconteceram na década de 1960.

segunda-feira, 7 de julho de 2014

Um Adorável Piazzola

Graças a uma gentil amiga, consegui entradas para assistir ao show do conjunto Escalandrum, em Petrópolis. A noite estava fria, o inverno aqui é assim mesmo. (Uma chance de usar casaco de lã, gola alta, meias grossas). Eu não tinha muita expectativa, minha motivação principal era participar um pouco do Festival de Inverno da cidade de um modo prazeiroso, já que gosto muito de tangos, especialmente das composições de Astor Piazzola. E o líder do conjunto era nada menos que o neto de Piazzola, Daniel. Será que isso queria dizer alguma coisa? Hum… sei não, resmungava eu, desconfiada do “aproveitamento” do sobrenome famoso.
Chegamos ao teatro em cima da hora. O trânsito em Petrópolis está cada dia mais intenso e confuso. Mas encontrar a sala cheia de gente encasacada e elegante, muitas se cumprimentando animadas, como acontece em toda cidade pequena, é muito estimulante para mim, já que vivo bastante isolada, fora do centro.
Escalandrum é um conjunto de seis músicos argentinos: um sax baixo, dois saxofones, piano, um contrabaixo e Daniel Piazzola na bateria. Todas as músicas tocadas na noite eram da autoria del nono. È… uma maravilha. A proposta do conjunto é renovar os tangos dando-lhes um arranjo “jazzístico”. Assim escapam de ser “mais um” e escapam da crítica possível de mero usufruto do sobrenome.
Gostei muito. Vibrei com a intensidade de Oblivion, uma das músicas mais lindas e melancólicas que conheço, com a malícia de Verano porteño, com os arranjos que permitiram a criação de tangos renovados pela improvisação do jazz, sem perder a marca das batidas originais do criador.

Mais uma vez me dei conta de como é bom me sentir feliz, e que a felicidade mais uma vez se revela como um encontro – breve? – com algo ou alguém que me permite viver o melhor de mim mesma. Nessa noite, o prazer profundo do encontro com a música que me apaixona há muito tempo e com a criatividade de alguém que se arriscou.

quarta-feira, 2 de julho de 2014

Ser controlado não é ser forte

Só porque um jogador chora, não quer dizer que ele seja mais fraco que outro. 
Habilidades emocionais mesmo controladas, não deixam de existir.  

FOTO: AFP photo| Christopher Simon

A intensidade e frequência das críticas que os jornais e a TV estão fazendo ao nosso time na Copa me parecem revelar um viés político - o desastre na Copa é um meio de atacar a presidente e seu governo.

Se nosso time é medíocre e vai perder, a oposição é vencedora.  O gozo do poder é muito maior que o prazer da vitória esportiva. E ainda mais: os jogadores que tanto se emocionam são uns fracos descontrolados.

"Do alto" da minha experiência profissional como psicóloga e psicoterapeuta, discordo. Ser "controlado" não é ser forte. As emoções podem ser plenamente vividas, e só são perturbadoras quando consideradas um estorvo, um erro, uma fraqueza, e identificadas com o sexo feminino (portanto sinônimo de debilidade atávica). As mulheres no mundo todo cada vez mais revelam sua insatisfação com a aparente insensibilidade dos homens. Que nada mais é do que a onipresença do controle.


Seria muito bom se as pessoas lessem e ouvissem essas entrelinhas do discurso midiático... 

terça-feira, 1 de julho de 2014

Relações Perigosas

Quando eu dava aulas no curso de formação de psicoterapeutas do Movimento Aletheia – instituição fundada por um grupo de psicólogos e médicos e coordenada por mim –, os alunos costumavam me perguntar: “e depois de Heidegger, Husserl, Sartre, Merleau-Ponty, Wittgenstein, o que aconteceu com a filosofia?” Estávamos nos anos 1990 e eu costumava dizer que não havia mais filósofos com a mesma dimensão intelectual e social daqueles. Achava que não era apenas uma questão de não existir pessoas que pudessem pensar com o mesmo brilho e profundidade, mas que não havia mais lugar para elas. Como assim? Eu pensava então que a filosofia havia perdido o lugar de balizamento, de referência, para se pensar e agir no mundo.
[Nessas aulas eu me lembrava de minha adolescência e das conversas intermináveis com amigos na esquina da casa de minha avó, em Vassouras, sobre o que era viver, o que valia a pena fazer na vida, como era difícil viver o amor, o que era a liberdade e como aproveitá-la para mudar o mundo...]

Lembro-me de dizer que ainda podíamos falar do trabalho de Edgar Morin, das tentativas de Richard Rorty de “ventilar” o pensamento de Heidegger pelo pragmatismo, e de Althusser, de Deleuze e Derrida na França competindo por um lugar na academia e na mídia. Mas nada se comparava com os “grandes” do século. Com certa tristeza, dizia: “acho que a economia tomou o lugar da filosofia. Só se pensa a realidade em termos econômicos e até a política – tão indissolúvel da economia – agora se encontra em um ‘lugar menor’”.
De lá para cá me parece que houve uma aceleração do processo de prevalência do poder da ordem e da prática econômica, e bem próximo, o domínio extremo da sua “irmã menor”, a finança.
Mas por que estou eu a pensar nisso? Por causa do meu espanto quando leio as notícias sobre os países europeus e os EUA. O meu espanto por ler, com todas as letras, sobre a total falta de pudor (pudor? Esta expressão soa antiga, ultrapassada, mas é a que me ocorre) de presidentes, ministros, nomeados ou eleitos líderes, que explicitam em sua fala a submissão aos “mercados”. Se as consequências desse fato não fossem trágicas, seria visível a ênfase constante em comentários do tipo “o mercado estava de mau-humor”, o “mercado ficou satisfeito” com a medida tal do governo X. Ou o “alívio” do primeiro-ministro com a aceitação pelo mercado das medidas governamentais que implementou. Ou acompanhar o presidente francês, Nicolas Sarkozy, preocupado em fazer descer goela abaixo dos sindicatos e da população as medidas de contenção fiscal e assim neutralizar o golpe do rebaixamento da nota dada a seu país por uma agência de classificação. Países ricos de tudo, como Espanha e Itália, agora são liderados por tecnocratas para melhor atender às tais agências. A epítome da preocupação do primeiro-ministro espanhol, diz O Globo, é “a aprovação do novo tratado (de estabilização econômica da União Europeia) que se tornou sua prioridade política” .
E em O Estado de S. Paulo de 16/01/2012 está: “A sucessão de declarações e de anúncios dos líderes políticos no fim de semana foi uma tentativa de tranquilizar os mercados financeiros”.
Isso pode?
Como minha visão de mundo é muito impregnada por meu trabalho como psicóloga e psicoterapeuta, logo faço uma relação dessa realidade com a vida das pessoas. Os governos dos países da Europa e dos Estados Unidos (e o Brasil e a América Latina não estão de todo excluídos) perderam a autonomia. No limite, até podemos dizer que perderam uma parte de sua soberania – não de modo formal, mas olhando da perspectiva individual, talvez da perspectiva do povo, e da minha própria perspectiva. Se “a gente” vê o nosso governo submisso a uma entidade sem rosto, discutindo incessantemente as finanças, as dívidas, os pagamentos a serem feitos, as estatísticas de produção e vendas, a competição entre as moedas, et caterva, não é possível respeitá-lo. Mais ainda: se o governo de um país não tem autonomia, independência e liberdade para tomar decisões quanto à sua trajetória, acontece o mesmo que ocorre com uma pessoa: ele é frágil porque dependente, porque a base de sua ação está fora dele – não só fora, como até alienada dele.
Às vezes a família de um paciente o oprime sob o pretexto de que ele, (ou ela), é doente e não pode tomar decisões por conta própria. Não é o que acontece agora com alguns países europeus? Na verdade, tanto as pessoas quanto os países só florescem, só se desenvolvem, a partir de um caminho próprio, construído a partir de suas próprias possibilidades, das trocas autênticas que realizam com os demais. E solidariedade não é tutela.
Este momento do mundo me (nos?) suscita raiva e tristeza.

Mas é a partir desse mesmo lugar de psicoterapeuta que não posso deixar de pensar: a mudança é possível. Nada permanece. Panta rei, disse Heráclito 2500 anos atrás. Pela via da revolta? Da indignação? Do voto? Ou quem sabe a partir de um movimento nas camadas profundas do psiquismo – como muitos têm buscado nos últimos anos: para alguns pelo caminho da reflexão, para outros pelo da espiritualidade?