Em agosto de 2011
estive na Convenção Anual da Associação Americana de Psicologia da qual sou
membro internacional. Durante 5 dias assisti apresentações de inúmeros
trabalhos acadêmicos, muitos dos quais relacionados ao tema da integração do
pensamento e prática orientais com a psicologia.
A psicóloga Ana
Popovska resumiu a história do encontro “leste-oeste” no seu trabalho “Buddhism and Psychology in a historical
review”. Foi muito interessante ter uma visão geral de acontecimentos
atualmente esquecidos ou subestimados, mas de suma importância histórica para
nós, psicoterapeutas.
O foco da psicóloga
foi a história vivida nos Estados Unidos, mas como quase tudo de nossa
realidade brasileira, muitos dados são válidos aqui. Escolhi alguns
tópicos para divulgar agora e acrescentei algumas observações (em itálico).
Na segunda metade do
século XIX:
· » 1863-1869 :
Construção da primeira ferrovia transcontinental (que abriu a “fronteira”
entre o leste e o oeste dos EUA, estimulando a imigração de trabalhadores)
· » 1850: corrida do ouro na California.
· » Primeira onda de
imigração asiática.
· » Introdução de novas práticas
religiosas e de novos templos.
· » O foco científico no
racionalismo, a corrente positivista, impulsionou movimentos como o
espiritualismo, o misticismo e a teosofia. Estes buscaram idéias nas religiões
orientais.
· » Em 1875 foi fundada a Sociedade
Teosófica.
· » Em 1893 o mestre Zen
Daisetz Teitaro Suzuki (n. 1870) foi participar do “World Parliament of
Religions”, em Chicago, acompanhando seu mestre Zen.
· » Nesta mesma data o Dr.
Paul Carus contrata Suzuki como tradutor de textos budistas. Suzuki introduz o
estudo acadêmico do Budismo nos EUA.
· » Estabelece contato com Carl
Jung.
· » 1952 – 1957: A Universidade de
Columbia oferece seminários sobre Zen Budismo. Suzuki conhece Erich Fromm e
Karen Horney.
Sobre o Zen Budismo:
· Caracteriza-se pela simplicidade, pela
reclusão monástica, pelo trabalho doméstico, e pelos exercícios de meditação.
Seu objetivo é conectar o homem com a natureza – o que é considerado a origem
fundamental do bem estar físico e mental (Suzuki, 1960). “A abordagem Zen busca
entrar direto no objeto e vê-lo, tal como é, a partir dele mesmo” (daí a
proximidade com a Fenomenologia, contestadora da metodologia cientifica na
construção do conhecimento)
· Na tentativa de conhecer objetivamente
a realidade, o indivíduo se separa do objeto de seu estudo, enquanto que o Zen
conduz o indivíduo a tornar-se o objeto, dando “permissão” para a experiência
subjetiva do objeto.
· » 1933 – 1951: Jung participou ativamente
dos seminários Eranos, criados com o objetivo de reunir professores
interessados nas idéias orientais.
· » 1939 - Jung escreveu
a introdução do livro de Suzuki “Introdução ao Zen Budismo” e outros textos
relacionados às religiões orientais: “Yoga e o Ocidente” (1936), “Psychology of
Eastern Meditation” (1943), Comentários ao Livro Tibetano dos Mortos (1953) e
ao Livro Tibetano da Grande Liberação.
· » Na Europa o interesse nas tradições
asiáticas está refletido nos escritos de Schopenhauer e Nietzsche, entre
outros.
· » Em 1939 Jung escreve
sobre a experiência da iluminação (satori): “Satori corresponde, na
esfera cristã, à experiência de transformação religiosa… Ela é, sem dúvida, uma
experiência mística…(cujos) primeiros estágios consistem em “deixar-se levar” (letting
oneself go), em “esvaziar-se de imagens e idéias” (1960, p.547).
O Encontro de Suzuki com Erich Fromm e Karen Horney
· » 1952 – 1957:
Seminários abertos sobre Zen Budismo na Universidade de Columbia, N.Y.
· » Em janeiro de 1957 a
revista Vogue publica: “As pessoas estão comentando sobre… as aulas na
Universidade Columbia do grande professor Zen Budista, Dr. Daisetz Suzuki. Ele
se senta no meio de um monte de livros, balança seus óculos numa elegância cerimonial
enquanto mistura abstrações filosóficas com o concreto familiar: “descobrir a
si mesmo é uma grande conquista, descobrir o zero é um grande salto”; em outro
momento: “não ter objetivo ulterior no trabalho – aí então você é livre”.
· » Em 1957 a revista New Yorker cita
Suzuki : “Como você vê, neste ponto, zero se iguala a infinito e
infinito se iguala a zero. O resultado é o vazio.” (zero equals infinity
and infinity equals zero. The result is emptiness)
· » Agosto, 1957: E.
Fromm organiza o Congresso ‘Zen e a Psicanálise’, em Cuernavaca, México. 50
proeminentes psicanalistas comparecem, incluindo Carl Jung. Suzuki foi o
palestrante convidado.
· » 1960:
publicação de Zen Buddhism and Psychoanalysis por D.T. Suzuki,
Erich Fromm, Richard DeMartino.
· » Karen Horney
(1885-1952): em 1952 viaja para o Japão. Horney descobriu no Japão que a vida
pode ser muito diferente da que estamos acostumados. Escreve em 1952: “No
ocidente, um paciente vive segundo a vida “deve ser”. A mera aceitação dos
impulsos compulsivos não os faz desaparecer. Os “deves” têm que ser
experienciados e elaborados, e rompida toda a estrutura neurótica para que os
sentimentos genuínos possam surgir e forças construtivas possam ser
mobilizadas. Isto parece ser menos significativo na terapia dos japoneses que
parecem ser menos alienados e mais próximos da natureza. Abandonar o velho
status quo neurótico significa encarar o vazio. Em suas meditações, os
japoneses estão ávidos para encarar este vazio” (Horney, 1952, p.87)
· Horney morreu em 1952, Jung em 1961 e
Suzuki em 1966.
A autora deste trabalho provavelmente não conhece a obra do psiquiatra
suíço Medard Boss. Ele é o criador da Daseinanalyse, abordagem psicoterapêutica
inspirada na obra dos filósofos Edmund Husserl e Martin Heidegger. Menciono-o
aqui por conta de suas viagens à India e à influencia das experiencias lá
vividas, nas três estadias não contínuas que fez. Tenho em mãos o livro,
traduzido do alemão para o frances, no qual Boss narra estas experiencias: “Un
psychiatre en Inde” (Um psiquiatra na Índia), Ed. Fayard. Infelizmente minha
cópia não tem dados importantes da publicação. Mas provavelmente essas viagens
aconteceram na década de 1960.