segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Como viver um momento difícil? A mítica do “isso passa”

Eu estava dirigindo o carro, na estrada União e Indústria, em Petrópolis, sexta-feira passada. Ia visitar uma pessoa muito querida em um dos hospitais da cidade. É meu amigo de longo tempo, está muito doente, precisa de um tratamento urgente. O caminho até o hospital era longo, demorado, porque impossível ultrapassar qualquer carro. Como sempre. Decidi falar sozinha. É meu jeito de me acalmar, de me dizer coisas que preciso ouvir para encontrar meu eixo. Falo alto, até grito quando preciso de ênfase.

E então me ouvi dizendo: vai passar, vai passar.

No instante seguinte: o que quer dizer “vai passar”? De que estou falando? O que eu sinto? Identifico que me percebo me consolando, me empurrando a ter fé, algum tipo de fé. Alguns instantes se passam.  Nada muda. Estou igual a quando a “conversa” começou. Encurto agora tudo que eu me disse, o tanto que falei da minha tristeza e preocupações, da raiva meio escondida, mas certamente presente. Sou prolixa, seria capaz de escrever muitos detalhes desinteressantes dessa longa conversa, mesmo que ela me seja importante.

O trânsito continuava infame, fiz uma pausa.
E aí me apareceu uma verdade que eu não conhecia, ou pelo menos, não que eu me lembre com essa formulação: “vai passar” é uma forma manca, distorcida, “otimista”, de uma realidade profunda: vai mudar. Claro! O velho Heráclito com seu panta rei (tudo flui) de volta pra mim! O budismo tibetano que me afirma incessantemente a impermanência! Fiquei contente. Como a verdade me faz bem. Então o verdadeiro sentido do “vai passar” é que o acontecimento de agora vai mudar, ele existe no presente, é assim que precisa ser vivido, em toda sua intensidade e eventual complexidade, mas só existe agora.

Claro que a mudança do que estou vivendo agora não traz consigo nenhuma outra certeza. Estou sofrendo, estou triste, meu amigo está muito doente. O que a mudança trará? Não sei. Não sei. Não quero e nem posso me apegar a antecipações positivas ou negativas. Imaginar agora que ele vai se tratar e logo ficar bom, ou que sua doença vai se agravar e vou perdê-lo – são falsas realidades, e por isso me fariam mal.

É difícil viver no presente. O cotidiano, na nossa cultura de urgências e controles, o onipresente medo, me pressionam a correr, ir adiante, prever, “me preparar”.

(Bem sei o quanto estes temas são recorrentes no meu trabalho como psicoterapeuta. O quanto preciso facilitar nas pessoas o aparecimento da chamada para viver o presente e, nesse mesmo processo, conseguir a compreensão e superação dos obstáculos para que isso aconteça ).

Chego ao pátio do hospital, me dou conta de como o dia está bonito, o céu tão azul nesse final de primavera. Estes momentos de auto-encontro me fazem bem, vejo que persisto na minha busca pela paz e grounding no momento presente.


Claro que até a próxima vez na estrada, até a próxima auto-conversa complicada... E tudo bem. A vida é assim, movimento, mudança, instabilidade, surpresas.


terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Este corpo que sou eu


A tradição científica nos diz que somos feitos de duas partes distintas: uma é material (o corpo) e a outra é imaterial (a psique ou mente ou espírito). Essa divisão permeia não apenas as investigações biológicas, médicas, psicológicas, como entranha nosso dia a dia. Falamos do fígado, do coração, da dor nas pernas, na “coluna”, como se fossem objetos, coisas que precisam ser consertadas para que possamos ter saúde e viver bem.

Embora o conhecimento científico tenha trazido muitos benefícios para o tratamento dos males que nos afligem, precisamos considerar que ele não é a única forma de apreender os fenômenos humanos, entre eles o da corporeidade. A fenomenologia existencial aponta para o fato de que a corporeidade é constitutiva da existência. Isto quer dizer que é própria do ser humano, não é “algo a mais”, uma coisa externa a ele. Eu sou meu corpo. Quais consequências decorrem  deste modo de olhar, de apreender o corpo? Uma delas é a de que a doença, o mal estar, um sintoma, falam de uma alteração no viver que podem ser tratados com medicações, mas que, além disso, são um chamado para que a pessoa se detenha e “escute” a si mesmo,  busque encontrar não apenas as “causas” da doença, mas aquilo do que a doença fala.


H. é uma mulher de quase 60 anos. Procurou-me para psicoterapia por indicação de seu médico clínico. Queixa-se de enjôos frequentes, dor no estômago e cansaço exagerado. Com frequência, convidando-a a vir até sua casa, na verdade H. faz contínuas críticas contundentes ao seu comportamento. Acha que a nora domina o marido - seu único filho - afasta-a da neta, não gosta dela. Aos poucos descobre e aceita a conexão entre seus sintomas corporais e a experiência de não ser ela mesma em uma área importante de sua vida.

A doença traz mudanças de vida, torna a pessoa “diferente”, usando-se a referência de que todo mundo é saudável. Sintomas fazem com que o indivíduo não mais permaneça mergulhado nos afazeres cotidianos, muitas vezes longe de si mesmo. Mas se os considerarmos como alterações no corpo que somos, e não no corpo que temos, eles podem ser vividos como limites, trazendo medo, sofrimento e revolta e, ao mesmo tempo, serem abertura para a aceitação profunda de que a existência é vulnerável, finita e, como tal, precisa ser vivida em consonância com o que realmente a pessoa acredita e almeja para si.   

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Diga sim às emoções


Há quem acredite que se deve controlar a raiva, evitar situações tristes ou que possam resultar em mágoa, substituir as emoções por atitudes bem pensadas, racionais, que o impedem de entrar em conflitos com os outros. Seria isso possível? Seria este o melhor que se pode fazer para si mesmo?  

Acreditamos que não, pois as emoções – ainda que muitas vezes intensamente perturbadoras – nos fazem sentir mais próximos de nós mesmos, mais vivos, agregam riqueza, profundidade e beleza à vida cotidiana. Todos, de alguma forma, sabemos disso, mas muitos de nós, inconscientemente, se recusam a sentir em consequência das defesas erigidas a partir da infância contra dores reais ou imaginárias. Por exemplo, o desconfortável desamparo provocado por um pai ausente pode levar uma criança a fechar-se em si mesma ou a ficar indiferente à pessoa que a magoa – e o que é pior, a levar para a vida adulta esse tipo de postura.  Ignora, no entanto, que um muro construído para refrear o avanço da dor acaba por impedir a ocorrência do prazer e dos pequenos ou grandes momentos de felicidade.

No entanto, é possível aproximar-se das emoções e retirar delas todos os seus benefícios, desde que se entenda que as autodefesas construídas no decurso da vida constituem um empecilho ao pleno sentir e que devem, portanto, ser revistas. De fato, as defesas necessárias à proteção de uma criança desamparada (devido à  pouca idade) acabam por limitar o adulto no qual ela se transforma.

Desafio: Decida qual defesa desafiar e aprenda o que esperar na medida em que você “coloca uma distância psicológica” de si mesmo. E aí jogue sua defesa fora. Procure encontrar o sentido das emoções que começarão a emergir. Identifique de onde elas vêm, com a ajuda de um diário, de um amigo ou de uma psicóloga.

Uma viagem de descoberta de si mesmo leva tempo e não é sempre fácil. Você estará desafiando a si mesmo de uma maneira que pode fazê-lo sentir-se desconfortável. Você precisará conduzir esta auto-exploração com justeza(?) e compaixão por si mesma. NUNCA adote uma posição de julgamento, de impaciência, de dureza (harsh) punitiva diante de suas limitações. NUNCA seja crítica de si mesma.


Você não é diferente ou pior do que ninguém. Todos nós sofremos com as limitações emocionais de nossa vida. Mas as emoções são preciosas bússolas no encontro de si mesmo, no auxílio às intuições, na ajuda a discriminar o que é realmente importante nas situações de vida. 

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Casamento é uma coisa difícil

Casamento é uma coisa difícil. Conviver diariamente com alguém, adaptando-se, revoltando-se, encantando-se às vezes, sentindo-se acompanhado. Tantas experiências diversas e desafiadoras! Vale a pena? A maioria dos casais acha que sim. Uma leitora escreveu contando sua dificuldade para lidar com um comportamento constante de seu marido: a reação agressiva e intolerante quando é contrariado. Diz ela: “Brigamos muito quando eu digo alguma coisa diferente do que ele espera. Tenho a impressão que ele gostaria que eu concordasse com tudo que diz: suas sugestões, suas regras para fazer as coisas, suas opiniões sobre nossos filhos, seu modo de conduzir o trabalho, tudo enfim que me diz. Quando eu discordo, sugiro uma alternativa, argumento algo contrário, pronto – começamos uma discussão, muitas vezes idiota (me dou conta mais tarde).” E me pergunta: “Há alguma coisa que eu poderia fazer pra melhorar nosso relacionamento nessas ocasiões? Eu amo meu marido, mas nestas horas difíceis tenho vontade de fugir, sumir do casamento e procurar uma vida mais fácil.”


Todo comportamento humano é multifacetado e com motivações de apreensão inesgotável. Contudo, nesse caso da leitora,  arrisco-me a mencionar uma compreensão do que ela vive: a dificuldade de conviver com um homem adulto com a reação emocional de uma criança de três anos. A criança nessa idade não gosta de ser contrariada. Ela está experimentando ser “alguém”, descobrindo sua identidade como alguém separado da mãe e que pode fazer coisas por conta própria. Mas isso se dá em uma base ainda muito precária, por ser conquista recente. Então quando é contrariada essa autonomia fica ameaçada, sua segurança na conquista recém-realizada vai “por água abaixo”. É nessa época que os meninos são mais encorajados (sutil e nem sempre conscientemente) a expressarem sua contrariedade de modo agressivo, exuberante. E assim se estabelece um padrão de comportamento duradouro.

Os homens recebem esse estímulo e, simultaneamente, uma cobrança para que sejam assertivos e dominadores. São características que afirmam a masculinidade, dizem. Mas, como todo ser humano, experimentam dúvidas e inseguranças. Pode acontecer então que diante da contestação da mulher a suas posições, todo esse “edifício” de dominação fique ameaçado e uma reação já construída na infância irrompa vigorosa. O que antes aparecia como raiva diante da contrariedade, agora toma o feitio de ódio e prepotência. Todos sofrem. Os homens e as mulheres que partilham suas vidas.

Penso que uma mudança nesse contexto pode advir da aceitação da mulher ao seu direito de pensar diferente do outro, viver experiências diferentes do outro. Afirmar essa diferença a partir da confiança em si mesma, da autoestima. E ao homem aceitar a possibilidade de que seu valor e sua masculinidade não estão em jogo em cada afirmação que fazem. Conviver com seus limites, entender que manifestações de amor não se identificam com submissão e aceitação incondicional de tudo que ele expressa.


A diferença e a diversidade em uma relação conjugal são tão enriquecedoras quanto aquelas que existem em uma sociedade. 

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

O homem e a dor

-          Eu estava trabalhando muito. Não senti dor nenhuma. Comecei a suar, fiquei enjoado. Achei que tinha comido alguma coisa estragada no almoço. Os colegas me disseram que eu estava pálido, seria bom ir ao serviço médico. Eu disse que não era nada, logo ficaria melhor. Mas não fiquei. Esse foi o começo do meu infarto no coração.

Ouvi essa história para uma pesquisa que iria apresentar em um Congresso de Cardiologia Preventiva. Já não era o primeiro que me dizia coisas semelhantes: o início de um episódio cardíaco patológico no qual o homem não identificava as mudanças em seu corpo com uma perturbação séria do organismo.

Por que isso tanto acontece?
Creio que, em geral, os homens têm um condicionamento cultural, vindo lá da infância, no qual lhes é interditado sentirem qualquer coisa que os tornem vulneráveis. A vulnerabilidade, própria da condição humana, é, para eles (mais do que para as mulheres), sinônimo de fraqueza. E esta é abominada, considerada como “coisa de mulher”. Na ânsia de se diferenciar da mulher, de afirmar sua diferença dela e, portanto sua masculinidade, o homem acaba por negar sensações corporais e sentimentos que lhe trazem enorme prejuízo na saúde.

A conexão do corpo com o psiquismo foi negada, principalmente pela ciência, durante séculos. Atualmente inúmeras pesquisas apontam que emoções como a raiva, a constante irritação, a ansiedade intensa e contínua, o estresse, a depressão, são fatores que podem influenciar no aparecimento ou agravamento de doenças, sobretudo as cardiovasculares. Nesse sentido, além da necessidade de cuidar da vida, isto é, do modo como se leva a vida, é muito importante estar “afinado” com as experiências corporais e emocionais que podem indicar que algo “não vai bem” com o indivíduo.

Para que aconteça essa afinação – o termo empregado pelo filósofo alemão Martin Heidegger – é fundamental não ter pre-conceitos quanto ao sentir, quanto à vulnerabilidade, quanto à dor. A dor e o medo que sempre os acompanha são partes de ser gente, e os homens que erradamente acreditam que os sentimentos são barreiras à sua masculinidade acabam por terem problemas sérios, como aconteceu com o homem que me contou e, cotidianamente, acontece com tantos outros homens.

Ao lado da dificuldade de contatar-se com o corpo próprio e dar-se conta que não está se sentindo bem, existe a barreira de um passo seguinte e necessário: pedir ajuda. E, novamente, são os homens que mais relutam, adiam, evitam, pedir ajuda. É todo um modelo de masculinidade que torna-se necessário re-avaliar. Porque não são mais apenas papéis sociais que estão em jogo: é a própria vida dos homens.

Se a ciência está mostrando o entrelaçamento das funções fisiológicas com o vivido psicologicamente, o padrão masculino de comportamentos relacionado a estes aspectos que mencionamos torna-se uma ameaça à sua sobrevivência no mundo.


Tudo muda, dizia Heráclito. Tomara em breve os homens possam sentir a dor no corpo e na alma, considerá-las com seriedade, desejar delas, cuidar e buscar ajuda onde acreditarem ela melhor exista.

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Paulo Coelho: líder espiritual global

A revista inglesa MindBodySpirit publicou, uma lista das 100 pessoas vivas mais influentes espiritualmente no mundo. (edição nº33, Spring 2013),
Recebi essa revista por engano de uma amiga. Nem sabia de sua existência. Por que falar dela? Pela minha surpresa e por meus pensamentos dela decorrentes. O fato desencadeante: Paulo Coelho ocupa o 7º lugar da lista! Considerando que o Dalai Lama está no 1º, Thich Nhat Hanh no 2º e EckhartTolle no 3º, imagine meu espanto. 
A lista foi elaborada a partir de mais de 600 candidatos e tem o objetivo de “servir como um guia positivo dos professores líderes” que podem inspirar as pessoas por seu impacto.
Não quero falar da qualidade literária dos livros de Paulo Coelho. Já escreveram demais sobre isso. Eu mesma o conheço muito pouco. Mas, sem dúvida, o que a mim causa impacto é esse reconhecimento por um lugar que ele ocupa no mundo. Pelo contraste entre o pouco caso e até diria, desprezo, que recebe no Brasil, e a repercussão “global” do que ele diz e escreve.
Creio que o que me toca, particularmente, é a constatação reiterada de como nós, brasileiros, temos pouca consideração com todas as nossas formas de produção: da literatura, ao açaí. Acho incrível como os norte-americanos, por exemplo, valorizam qualquer expressão sua e como, por contraste, nós fazemos o oposto. Muitas vezes me emocionei com a intensidade e quantidade de aplausos que os artistas recebem quando se apresentam em público nas cidades norte-americanas. A aprovação entusiasmada das atuações nem sempre admiráveis, mas sempre reconhecidas com calor.
Creio que minha emoção está relacionada com a compaixão por nós, brasileiros. Nosso abandono e “solidão” no mundo. Sempre volto a pensar no bordão de Lula: como povo, não temos auto-estima. Se algo é feito aqui, não presta. Se alguém escreve aqui, há outros na Europa, nos Estados Unidos, no Japão – que são muito melhores. E por aí vai.
Intervalo: enquanto pensava em escrever esse texto aqui, ouvi um dia o programa Observatório de Imprensa, na rádio MEC. O tema do dia: o “complexo de vira-lata” dos brasileiros. Por que “o complexo” aparece agora? Pela euforia, na mídia, com a exploração do xisto, (fonte energética), nos EUA e assim, mais uma vez, diz ela, nós ficamos para trás na corrida pelo desenvolvimento econômico. Mas o Observatório denunciava os riscos ambientais da sua produção e o fato de que o Brasil é um grande produtor mundial do tal xisto.
Minha história continua…
Depois de ter começado a escrever meu texto, leio o artigo do físico José Goldemberg no jornal Estado de S. Paulo. Relacionado ao meu interesse imediato, disse ele: - na França foi proibida a exploração do xisto; - a empresa russa que é a maior produtora mundial do xisto declarou recentemente que “a revolução energética (trazida pelo xisto) é talvez (o “talvez” deve ser uma sutileza diplomática, digo eu…) uma bem organizada campanha de relações públicas”.
Como não é a primeira vez que falo alguma coisa sobre o tema, me pergunto o que anda acontecendo comigo… Provavelmente o relaciono com outro, bem próximo, sobre o qual desejo pesquisar e escrever: o quanto as pessoas consideram que os outros, e elas mesmas, se importam com quem são. Como o “importar-se” com si mesmo é imprescindível nas escolhas e decisões na vida, como o importar-se com os outros está na base da compaixão e como a percepção de que “eu conto” para os outros contribui significativamente para a felicidade (palavra perigosa nesse momento…) e saúde mental (outro perigo…).

Fui muito longe. Divago. É melhor voltar outro dia para escrever sobre “contar”, “ser importante para”, “valorizar”.

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Faça acontecer

O livro de Sheryl Sandberg, “Faça Acontecer”, é muito bom. Carreguei-o por todos os lados, li nas minhas viagens de ida e volta para casa, do Rio para Petrópolis, nos pequenos intervalos de meu trabalho no consultório. Ela diz coisas que andavam esquecidas, desde que o movimento feminista perdeu força. As mulheres acreditam que não precisam fazer mais nada, o feminismo fez conquistas e se esgotou. Sandberg denuncia, e mostra com pesquisas, bibliografia e depoimentos, que a desigualdade de tratamento, percepção, salários e oportunidades de trabalho continuam sob o jugo do preconceito e da discriminação, da desigualdade entre os sexos. Mas há ainda dois aspectos extremamente positivos no livro: seu depoimento pessoal sobre sua carreira e vida familiar – peculiar por ser ela “a 5ª mulher mais poderosa” do mundo (revista Fortune, em 2012) – e a sua proposta de avanço necessário das conquistas psicológicas e sociais da mulher.
Sandberg passa quase o livro todo apontando as sutis — e não tão sutis — formas pelas quais as mulheres não assumem seu poder de desenvolvimento e não “levantam a mão” para expressar o que pensam no mundo das empresas e instituições. Gostei muito de ela escolher o “levantar a mão” para mostrar a diferença entre homens e mulheres. Há anos vejo em palestras, aulas e conferências — minhas e de outros — como são os homens que mais levantam a mão para fazer perguntas, comentários, desafios. Sempre lamentei isso e, algumas vezes, confesso, fiz perguntas só para “fazer número”, para fazer acontecer. Incomodava-me a “ausência” das mulheres. Devo ter falado muita bobagem, mas falei!
A temática principal do livro é o estímulo, dado pela autora, para que as mulheres sejam cada vez mais donas de sua história pessoal e profissional, para que não se deixem intimidar pelo poder masculino que domina o mundo do trabalho e da família, para que não abdiquem de se desenvolver e de conquistar lugares de destaque e poder social. É uma “velha” mensagem, mas, como ela mesma diz, ainda falta muito para que exista igualdade entre os sexos e para que possamos abrir mão desse tipo de mensagem.  O grande trunfo de Sheryl Sandberg é a enorme e crescente responsabilidade que há anos ela vive no trabalho – atualmente é a segunda profissional na hierarquia do Facebook –, combinada com uma rica vida familiar.
E aí?
Lá pelas tantas do livro lembrei-me de uma experiência feminina que sempre me intrigou. E como ela não consta da narrativa de Sandberg, pensei em falar dela aqui no meu blog.
Qual experiência?
A do enorme sentimento de poder vivido por muitas mulheres na relação com os filhos, principalmente quando pequenos. O menininho entra cauteloso pela primeira vez na escola. A mãe não contém as lágrimas. A separação dói. Há um sentimento de perda, de abandono. Ele pode fazer algo longe dela! Pode gostar e se ligar a outra mulher! O filho lhe escapa!
Já ouvi muitas queixas de professoras: seu trabalho de adaptação das crianças pequenas na escola às vezes é dificílimo porque… as mães fazem “de tudo” para a criança relutar em se afastar dela e entrar na sala.
Ou quando a adolescente começa a se apegar às amigas ou inicia um namoro, um “ficar”, e a mãe, (muitas vezes também o pai), aumenta o controle de saídas e horários. Sob a aparência de cuidado e proteção (que incluí a famosa e onipresente preocupação), percebo a necessidade de domínio, a enorme dificuldade de “deixar ir”, de “deixar ser” a filha ou filho.
O fato é que há nessas situações o exercício vicário de poder.
E me pergunto até que ponto essa experiência de poder sobre os filhos ocupa um lugar tão importante, tão atraente e tão bem aceito socialmente na vida de uma mulher que ela abre mão da conquista do poder social, financeiro, existencial, advindo da convivência (e competição!) com os outros, sejam eles seus companheiros de vida ou de trabalho.

Não tenho nenhuma resposta comprovada, mas deixo aqui um estímulo (tomara!) para uma reflexão frutífera.

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Uma Notícia em Psicologia: A PSICOTERAPIA TAO

Participei da Convenção Anual da American Psychological Association da qual sou um membro internacional. Mais uma vez me surpreendi com a grandiosidade de tudo que lá acontece e aparece: o número de apresentações de trabalhos, a variedade de temas, a exibição de publicações, DVDs, testes de vários tipos de avaliação psicológica, filmes com temas de interesse específico para os profissionais, encontros informais para network, sessões de posters feitos principalmente por jovens psicólogos doutorandos de todo o país. De um tudo.
Entre tantas palestras e painéis, fui assistir ao que chamava “Conversation hour: Intersubjectivity and Human Existence – a Dialogue of Emotional Worlds and Dasein.
Como minha formação em psicoterapia é baseada na filosofia existencial, fui correndo procurar o local – o que não era fácil empreitada. O edifício para convenções era gigantesco, enormes corredores atapetados, salas de teto altíssimo, alas “embutidas” nos corredores.
Conheci então um dos trabalhos que mais me intrigou: a palestra do psicólogo Dr. Erik Craig (nos EUA só recebem a denominação de psicólogo os que têm doutorado). Ao final de sua apresentação fui cumprimentá-lo. Disse que eu era brasileira e gostaria de receber uma cópia de seu trabalho. Seu tema era muito original e pouco conhecido em meu país. Na mesma hora entregou-me um exemplar do artigo já publicado, em 2007, na revista The Humanistic Psychologist:

Tao Psychotherapy: Introducing a New Approach to Humanistic Practice.
O texto narra como Craig conheceu o psiquiatra coreano Dr. Rhee Dongshick e a abordagem psicoterápica que Dongshick denominou Psicoterapia Tao. E o que é Psicoterapia Tao?
Transcrevo o resumo oferecido por Craig:
“A Psicoterapia Tao é fundamentalmente uma abordagem humanista profunda na psicoterapia. Ela é psicodinâmica e interessada com os conflitos e sofrimentos humanos, e ao mesmo tempo é essencialmente transcendental, transpessoal, ou espiritual. Como a Daseinanalyse no ocidente, a Psicoterapia Tao oferece um fundamento filosófico (i.e., ético, epistemológico e ontológico) para a psicologia e psicoterapia.” (p.124)
Embora tenha influência da Daseinanalytic de Martin Heidegger e de várias abordagens da psicoterapia profunda do ocidente, principalmente da Daseinanalyse de Medard Boss e da Psicanálise – ela busca sua fonte originária no Taoísmo e no Budismo Mahayana.

As quatro principais ênfases da Psicoterapia Tao são:
1. O desenvolvimento da personalidade do psicoterapeuta a partir tanto da psicoterapia profunda ocidental quanto do pensamento e prática oriental que têm como foco o esvaziamento e purificação da mente. Craig identifica aqui uma aproximação com a prática da redução fenomenológica de Husserl.
2. A afinação empática (este termo é muito próximo àstimmung de Heidegger e, por aí, minha afinação com a proposta de Craig e Rhee) e a compaixão do terapeuta com o paciente e suas vivências.
3. A ênfase nas “emoções nucleares” – denominação dada por Rhee Dongshick – que, resumidamente, abrangem os complexos afetivos e emocionais originados na infância e que constituem uma influência motivacional por toda a vida.
4. O valor insubstituível na psicoterapia da experiência vivida (Erlebnis). Isto significa que o terapeuta deliberadamente evita interpretações intelectuais em favor da apreensão direta do vivido pelo paciente (este também é um ponto central na abordagem terapêutica fenomenológica-existencial).

A psicoterapia Tao privilegia a utilização de mitos culturais e alegorias e não acredita que o terapeuta deve dar especial importância a específicos métodos e técnicas. “Ser”, e não “fazer”, é o centro/coração desta terapia.

Finalizando este breve resumo, assinalo a correspondência que Craig faz da noção de nada ou vazio, aspecto central tanto do Taoísmo e Budismo, com a do nada em Heidegger. “O Tao é um vazio em espiral”, “o eterno não-ser” diz o Tao Te Ching (Chen, 1989).

Mas isso não indica um nihilismo filosófico. Ao contrário. O vazio ou o nada é a experiência mais pregnante. Dele co-nascem (expressão usada por Thich Nhat Hanh) o mundo e todos os entes nele. O vazio é a experiência fundamental, grávida da possibilidade do indivíduo alcançar o Satori, a iluminação. Em termos existenciais, a autenticidade e o “deixar ser” de todas as coisas, a “abertura para o mistério” (expressão usada por Heidegger no texto “Gelassenheit”,1959).


Enfim, meu contato com este texto sobre a Psicoterapia Tao me faz apreciar, uma vez mais, a beleza e importância da integração do mundo oriental com o nosso e a aceitação da diferença como abertura para a ampliação de nossa visão de mundo. Tudo isso reforça minha convicção de que um bom terapeuta “traz a Primavera para a terra gelada do paciente”, como disse o Dr. Rhee em feitio de koan.

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Meu choro bom

Vi um espetáculo na TV Cultura: a apresentação na Sala São Paulo da Orquestra de Metais Lyra-Tatuí. E aí?… Chorei e ri quase uma hora. Não conseguia parar, a emoção mudou meu estar-no-mundo de tal maneira que fiquei assim, boba e alegre. Pouca gente deve saber dessa Orquestra: as coisas boas do Brasil são muito pouco divulgadas. Somos bombardeados pela mídia por notícias de violência, de corrupção, de desastres naturais absurdos nas suas consequências, de ameaças de guerras. Pouco tempo e espaço são dados a algumas maravilhas que existem no mundo. Mas hoje vivi uma exceção: assistir, em casa, partilhando com meu marido estrangeiro, à apresentação de crianças e adolescentes, brasileiros de Tatuí, SP, tocando instrumentos de sopro e percussão, dançando em coreografia original, cantando ou cantarolando lindamente. Um grupo grande e diversificado na cor de suas peles, na escolha de suas músicas, nos instrumentos complexos ou simples.

Lá pelas tantas houve um pequeno intervalo no programa e o maestro e professor do grupo, Adalto Soares, contou sua experiência de ensino e regência na pequena cidade, com essas crianças e jovens. Falou da alegria e medo deles por se apresentarem na Sala São Paulo, tão cheia de prestígio que é. E das apresentações, bem recebidas, em outras cidades, inclusive européias, como na Alemanha. Logo descreve como a formação musical do grupo começa cedo e apresenta uma menininha linda, de quatro anos. Pede a ela que toque, diante do enorme público, uma nota em seu pequeno instrumento. E lá continuava eu chorando. Quando, ao final do espetáculo, o grupo apresentou um pot-pourri de músicas brasileiras clássicas, populares, um baião dançado com alegria e sensualidade e… o hino nacional – pronto. Nunca consegui ouvir o hino sem chorar muito. As lágrimas correm, a adrenalina corre solta. Emociono-me como se a música estivesse salvando o Brasil, ali, agora. Nem adianta raciocinar, chamar uma lógica ou a vergonha. É assim. Mas felizmente o choro se misturava à minha alegria por sentir orgulho daquelas crianças, daquele jovem maestro dedicado que me faziam ver meu país com olhos mais generosos do que o cotidiano me favorece.

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

Surpresas

Gosto de viver experiências que me surpreendem. De preferência boas, claro. Viajar para além de minha cidade costuma favorecê-las.

Ontem fui assistir ao concerto de dois mestres, no incrível teatro Colón, em Buenos Aires: Martha Argerich e Daniel Barenboim “tomados de la mano, puro afecto y complicidad”, como descreveu o jornal La Nación. Gente por todos os lados, sete níveis de poltronas, mais um montão em pé nas laterais da platéia. Confesso que me emocionei tanto com a beleza da música, o apuro das interpretações, dois pianos em harmonia perfeita, como com a alegria das pessoas, o entusiasmo pelo prazer renovado de ter os dois artistas de volta à sua cidade natal, eles que vivem há décadas em países europeus.

Pois bem, no dia seguinte, uma quarta-feira, estou em uma fila na calçada procurando seguir as instruções de meu amigo portenho que insistia para eu carregar um cartão que me permitiria andar nos ônibus sem me preocupar com moedas (necessárias sempre, porque não aceitam fazer troco). Eu tinha que inserir o tal cartão em uma máquina e fazer a operação de carregamento. Eis que o homem à minha frente começa a reclamar que a máquina não funciona. Repete a operação mais de uma vez. Nada. A velhinha atrás dele desiste. Eu continuo ali, não desisto fácil de nada... Faço, em voz alta, aquelas perguntas vazias: o que será que aconteceu? Tem jeito? Não dá mesmo? E eu que não tenho moedas, não dá pra pegar um ônibus, não é? E é assim que recebo, do senhor atrás de mim, o comentário convicto que não só me surpreendeu como, decididamente, me encantou: “Não se preocupe, não precisa de moeda nenhuma. As pessoas aqui são gentis e de boa vontade. Pode ir sem problema, o motorista não vai lhe cobrar nada.”


(E eu que nem precisava pegar ônibus. Estava apenas sendo obediente. Os táxis em Buenos Aires são baratíssimos). Duas surpresas distintas no seu significado e importância cultural, mas igualadas na minha admiração pelo humano deste mundo...

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Uma falsa compreensão do que acontece

Trabalho como psicoterapeuta há muitos anos. Não canso de me surpreender com o que acontece no processo de psicoterapia e o contraste com o que descubro ser a percepção da maioria das pessoas sobre ele.
Sinto-me agora motivada a escrever sobre o tema depois de minha leitura da entrevista de Marian Salzman para o jornal O Estado de São Paulo, no dia 11 de março de 2013. Ela é considerada “a mulher que vê o futuro”. Marian Salzman é “especialista em prever tendências de comportamento”. Na sua contestação de que tal atividade não é exatamente a de futuróloga, Ms. Salzman diz que não tem poderes especiais para prever o futuro e revela algo que também é verdadeiro para o meu trabalho de psicoterapia: a origem de suas “adivinhações”.
Algumas vezes as pessoas que me procuram profissionalmente, ou se aproximam de mim em encontros sociais, comentam: a psicoterapia não é apenas uma conversa? Não é um bate-papo mais sofisticado? Ou ainda: “ah, minha terapia é fazer exercícios”, ou “minha terapia é conversar com meu filho” e tantas e tantas outras atividades. Todas ótimas, sem dúvida. Mas…
O que há em comum entre a fala e experiência de Marian Salzman e a minha de psicoterapeuta? A resposta que ela deu a seu entrevistador:
 “Para fazer o que eu faço é preciso ter uma boa formação em estatística, saber identificar e analisar padrões, determinar sua densidade e sua velocidade. Também é preciso acompanhar as notícias, ter boa formação em sociologia, antropologia e economia.”

Foi muito bom encontrar alguém que desvela o que tão pouco as pessoas sabem sobre um trabalho que parece “mágico” ou banal por sua aparente simplicidade. Porque o trabalho de psicoterapia é assim: o que parece uma simples conversa, na verdade é um encontro incomparável entre duas pessoas e requer, da psicoterapeuta, uma formação complexa envolvendo não apenas o conhecimento de técnicas, de psicopatologia, de teorias – mas a integração criteriosa de aportes da ciência, do desvelar próprio da filosofia e da literatura, do que diz a antropologia e, mais recentemente, o que a neurociência e a sabedoria do oriente nos trouxe – para só então poder fundamentar o diálogo psicoterápico.

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Robin Williams no Congresso de Análise Existencial e Psicomaiêutica

Em 1992 uma Sociedade para Formação de Psicoterapeutas com a abordagem fenomenológica-existencial, SAEP, no Rio de Janeiro, organizou um Congresso. Eu era a coordenadora da instituição e, junto com colegas e alunos, decidimos apresentar algumas cenas do filme “Sociedade dos Poetas Mortos” como uma bela ilustração de algumas idéias do pensamento existencial, duas das quais me são caras no meu viver e no trabalho como psicoterapeuta: a liberdade de escolha na tomada de decisões e a autenticidade como modo de vida e “motor” da criatividade.

O principal personagem do filme era, sem dúvida, o professor de uma escola secundária ultra conservadora americana que propunha, por  um método de ensino de literatura criativo e iconoclasta, uma visão de mundo na qual a experiência cotidiana fosse colorida pela liberdade e pela fruição de cada momento. Carpe diem, repetia ele. O professor era Robin Williams.

Nunca mais esqueci esse personagem, e acredito que uma parte significativa de sua força expressiva estava na interpretação do ator. A partir desse filme, e da intensidade que Robin Williams me transmitiu, passei a assistir quase todos os seus filmes.

Saber agora de seu sofrimento e desilusão, do ato radical de seu suicídio, me deixou muito triste e, mais uma vez, comprovando a verdade banal, mas complexa, de que a materialidade na vida – o ter e fazer – não são suficientes na busca da harmonia e da felicidade.


Quanto ao seu comentário agressivo sobre a escolha do Brasil como sede dos Jogos Olímpicos, reproduzido nos jornais, acredito que foi a manifestação de um sintoma da depressão e que se expressa por "se minha vida está toda errada, o mundo à minha volta também está e tudo isso me suscita raiva e desprezo”. 

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Una vez más

Agosto de 2014

Estou de volta à Buenos Aires.
É inverno, mas não parece. Estou contente porque assim posso caminhar prazerosamente, sem me sentir congelada, como outras vezes me aconteceu. Foi uma surpresa para turistas e argentinos. Temperaturas de primavera? Hum.. tudo pode acontecer nesse país turbulento e instável.



Hoje pensei que Buenos Aires e Rio de Janeiro são parecidas, usando parâmetros distintos pra dizer a mesma coisa. Ambas cidades são lindas. O Rio com suas praias, montanhas tão perto, sua “floresta interna”, seu sol que cotidianamente nos deixa boquiabertos pelo brilho absurdo e pelo impacto dos raios no mar, no contorno das pedras que envolvem as tantas praias. Buenos Aires não é nada disso. Sua beleza está na arquitetura de muitos bairros, com seus edifícios antigos de portas douradas, as madeiras e balcões desenhados em ferro por toda parte, a “reprodução” encantadora de Paris no fim do mundo... O Rio atrai por sua intensidade e exuberância, exageros por todos os lados. Buenos Aires é sóbria e melancólica, convida à introspecção, ao degustar os acontecimentos no tempo. Ela é nova, porque América. Mas antiga porque lembra sempre a Europa, não só pela arquitetura (que me apaixona), mas pelo chamado das coisas de sua cultura.

Os cariocas adoram estar nos bares, com amigos, colegas, amantes e namorados. Por horas falam alto, riem muito, trocam entre si sua vitalidade e desespero. Os portenhos lotam as confiterías, tomam chás, chocolates e cafés. E cervejas. Conversam muito, até tarde da noite. (Gosto de observar grupos de senhoras, bem idosas, com seus casacos de lã, papeando animadas na mesa do café). Ou, sozinhos, lêem um livro ou o jornal.

Dessa vez descubro mais uma coisa: há outra “identidade” entre as duas cidades: a experiência desgastante e frequente do “nada funciona”. Nem vale a pena agora enumerar. Penso nos amigos portenhos e em meus clientes estrangeiros – todos enlouquecidos com as dificuldades para resolver inúmeros assuntos, desde um bombeiro que marca sua vinda e não aparece nem deixa qualquer recado, até o burocrata que exige comprovantes de tudo que é besteira (ou assim nos parece quando comparada com a importância do trâmite).

Não sei o quanto tenho razão, não sei quem concordaria comigo agora. Penso, também una vez más, que fundamental é estar onde se escolhe estar, julgamentos pouco valem.

E é fácil perceber que o que muito me une às duas cidades é meu amor por elas...


sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Novo período das interações Ocidente-Oriente: Sua Santidade, Dalai Lama

Continuação do post sobre a palestra da psicóloga Ana Popovska na Convenção Anual da Associação Americana de Psicologia.


Minha contribuição:
 » 1983: É criado o The Mind-Life Institute.
(esta informação está incorreta.O instituto foi criado em 1990).
Os encontros bi-anuais do Dalai Lama com psicólogos, biólogos, neurocientistas e filósofos começaram em outubro de 1987, em Dharamsala, Índia.

Estes encontros resultaram na publicação, em livros, dos diálogos e reflexões emergentes nas reuniões (ora em Dharamsala, ora nos Estados Unidos) e que explicitam o interesse do Dalai Lama pela ciência e pensamentos ocidentais e a busca, por todos, de uma integração do budismo com a ciência, dos fenômenos físicos com os “mentais”.

Mas em 1979, no Instituto Naropa, no Colorado, criado pelo mestre Chogyam Trungpa, já tinha acontecido um evento buscando uma base comum para as tradições ocidentais e os estudos contemplativos budistas. Tiveram muitos problemas que serviram de “guia” para os encontros com o Dalai Lama. O neurobiólogo chileno Francisco Varela participou da organização dos dois eventos e tornou-se amigo próximo ao Dalai Lama.

Recentemente estes encontros foram ampliados para uma participação ampla de pessoas e, neste ano de 2012 aconteceu o 10º encontro, sem a presença do Dalai Lama e aberto ao público.

Ana Popovska terminou sua apresentação apontando o desenvolvimento atual de novos tratamentos baseados nas idéias e práticas budistas.


Penso que a descrição destes novos tratamentos, ou tipos possíveis de intervenções terapêuticas, constitui um outro trabalho que convido colegas brasileiros a escreverem.

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Buenos Aires, novamente

Abril é um mês lindo, tanto no Rio quanto em Buenos Aires. Gosto de celebrar meu aniversário, sem me importar (muito) com idade e velhice. Em 2011 decidi comemorar em Buenos Aires, dessa vez alugando um estúdio e sem curtir a muvuca da proximidade com a Calle Florida, a Paraguay, Santa Fé ou Esmeralda. O impecável apartamento ficava na Recoleta, região que reúne os edifícios mais glamorosos que conheço. Passear pelas ruas, entrar numa das muitas bonitas cafeterias para um capuccino com medialuna é o programa turístico mais simples e delicioso que conheço. A luz dos dias era brilhante, o ar transparente. A poluição do centro de Buenos Aires é tão intensa que, em certas estações do ano sinto a garganta dolorida e a respiração alterada. Mas o outono e a região da Recoleta foram uma combinação inédita das tantas vezes que visitei a Argentina.
Também pela primeira vez eu carregava uma máquina fotográfica, emprestada por minha prima. Eu estava decidida a registrar em fotos as portas dos edifícios – uma das coisas que admiro na cidade. Elas me falam da beleza e sobriedade que só a madeira confere aos objetos. São portas antigas, com aldravas douradas. Não sei quase nada de arquitetura, mas suponho que a maioria delas, como os prédios que anunciam data da primeira metade do século XX. Não há porteiros nesses prédios. Para uma carioca que vive cercada de entradas de vidro e porteiros vigilantes por toda parte – há um ar de mistério nesses prédios de entradas herméticas.
Vivi muitas coisas boas nessa viagem: assisti a um ballet no teatro Colón, agora remodelado, depois de tantos anos enrolado em obras e disputas; visitei a Feira Internacional de Livros na qual me perdi do meu marido. Muito tempo depois ele me encontrou, enfurnada no stand árabe, interessada nas publicações do Centro Cultural Islâmico e… nas tâmaras incrivelmente doces e macias, vindas da Arábia Saudita, à disposição do público visitante. Por uma incrível coincidência de datas, pude assistir ao workshop de Prem Rawat, (do qual já comentei). Eu tinha recebido suas Técnicas do Conhecimento poucos meses antes. Como gosto de estar junto de multidões, a experiência teve uma conotação existencial tão intensa quanto a espiritual. Centenas de pessoas se reuniram para ouvi-lo, uma oportunidade e tanto. Creio que um dos momentos mais sensorialmente prazerosos dessa estadia em Buenos Aires foi o pequeno passeio por ruas que ligam a avenida Libertador com a Figueroa Alcorta. Íamos visitar o MALBA – Museu da América Latina de Buenos Aires – mas o dia estava tão luminoso que decidimos caminhar até lá. Foi então que conheci essas ruas com suas imensas árvores e suas folhas douradas do outono, de mansões antigas, várias inteiramente cobertas de hera, belíssimos jardins, portões de ferro e… guaritas na porta. São muitas das embaixadas na cidade. As fotos estão neste post.
Não é à toa que ao perguntarem a um velho morador da cidade que visitava o Calafate:
- E então, como está Buenos Aires? Ele respondeu, irônico: “Falta pouco para que todos falem português…”

quarta-feira, 16 de julho de 2014

Quero morar na Antártida

Moro em um lindo pedaço da cidade de Petrópolis: o Vale do Mata Porcos, no distrito de Correas. Vivo cercada por uma paisagem selvagem, a Mata Atlântica, e por grandes casas construídas há décadas atrás. Aqui encontro o silêncio que me ajuda a pensar, a criar projetos de trabalho, a juntar-me a mim mesma depois de alguns dias de vida no Rio de Janeiro.
Parece muito invejável, tudo isso. Mas não é tanto. Porque não tenho uma conexão de internet que possa assim ser chamada. Conto apenas com uma conexão discada – que me leva à loucura. Não funciona porque “cai” a todo instante e, pior ainda, não responde a meus “comandos” para abrir páginas ou emails. Em 90% das vezes que tento usá-la, desisto. Pego meu carro, desço para o centro do bairro, ou vou para Itaipava, em busca das papelarias onde posso usar a internet.
Estou eu nessa vida peregrina quando leio no jornal O Globo (13/3/13):
“A Oi montou para a Marinha na Antártida uma estação (de internet) ligada ao Leblon. A tarifa é a de uma ligação para o Rio.” (negritos meus)
Inacreditável! Da Antártida para o Leblon? E eu aqui do lado?
O que ou quem no Leblon “mereceu” esse privilégio absurdo?
A desigualdade, as mil faces da oligarquia no Brasil, são onipresentes. Mas minha revolta é apenas mais uma. Nos dias de agora há temas no país mais contundentes para ela.

Contudo, preciso falar.

sexta-feira, 11 de julho de 2014

Uma revisão histórica do encontro do Budismo com a Psicologia

Em agosto de 2011 estive na Convenção Anual da Associação Americana de Psicologia da qual sou membro internacional. Durante 5 dias assisti apresentações de inúmeros trabalhos acadêmicos, muitos dos quais relacionados ao tema da integração do pensamento e prática orientais com a psicologia.
A psicóloga Ana Popovska resumiu a história do encontro “leste-oeste” no seu trabalho “Buddhism and Psychology in a historical review”. Foi muito interessante ter uma visão geral de acontecimentos atualmente esquecidos ou subestimados, mas de suma importância histórica para nós, psicoterapeutas.
O foco da psicóloga foi a história vivida nos Estados Unidos, mas como quase tudo de nossa realidade brasileira, muitos dados são válidos aqui. Escolhi alguns tópicos para divulgar agora e acrescentei algumas observações (em itálico).
Na segunda metade do século XIX:
· » 1863-1869 : Construção da primeira ferrovia transcontinental (que abriu a “fronteira” entre o leste e o oeste dos EUA, estimulando a imigração de trabalhadores)
· » 1850: corrida do ouro na California.
· » Primeira onda de imigração asiática.
· » Introdução de novas práticas religiosas e de novos templos.
· » O foco científico no racionalismo, a corrente positivista, impulsionou movimentos como o espiritualismo, o misticismo e a teosofia. Estes buscaram idéias nas religiões orientais.
· » Em 1875 foi fundada a Sociedade Teosófica.
· » Em 1893 o mestre Zen Daisetz Teitaro Suzuki (n. 1870) foi participar do “World Parliament of Religions”, em Chicago, acompanhando seu mestre Zen.
· » Nesta mesma data o Dr. Paul Carus contrata Suzuki como tradutor de textos budistas. Suzuki introduz o estudo acadêmico do Budismo nos EUA.
· » Estabelece contato com Carl Jung.
· » 1952 – 1957: A Universidade de Columbia oferece seminários sobre Zen Budismo. Suzuki conhece Erich Fromm e Karen Horney.
Sobre o Zen Budismo:
· Caracteriza-se pela simplicidade, pela reclusão monástica, pelo trabalho doméstico, e pelos exercícios de meditação. Seu objetivo é conectar o homem com a natureza – o que é considerado a origem fundamental do bem estar físico e mental (Suzuki, 1960). “A abordagem Zen busca entrar direto no objeto e vê-lo, tal como é, a partir dele mesmo” (daí a proximidade com a Fenomenologia, contestadora da metodologia cientifica na construção do conhecimento)
· Na tentativa de conhecer objetivamente a realidade, o indivíduo se separa do objeto de seu estudo, enquanto que o Zen conduz o indivíduo a tornar-se o objeto, dando “permissão” para a experiência subjetiva do objeto.
· » 1933 – 1951: Jung participou ativamente dos seminários Eranos, criados com o objetivo de reunir professores interessados nas idéias orientais.
· » 1939 - Jung escreveu a introdução do livro de Suzuki “Introdução ao Zen Budismo” e outros textos relacionados às religiões orientais: “Yoga e o Ocidente” (1936), “Psychology of Eastern Meditation” (1943), Comentários ao Livro Tibetano dos Mortos (1953) e ao Livro Tibetano da Grande Liberação.
· » Na Europa o interesse nas tradições asiáticas está refletido nos escritos de Schopenhauer e Nietzsche, entre outros.
· » Em 1939 Jung escreve sobre a experiência da iluminação (satori): “Satori corresponde, na esfera cristã, à experiência de transformação religiosa… Ela é, sem dúvida, uma experiência mística…(cujos) primeiros estágios consistem em “deixar-se levar” (letting oneself go), em “esvaziar-se de imagens e idéias” (1960, p.547).
O Encontro de Suzuki com Erich Fromm e Karen Horney
· » 1952 – 1957: Seminários abertos sobre Zen Budismo na Universidade de Columbia, N.Y.
· » Em janeiro de 1957 a revista Vogue publica: “As pessoas estão comentando sobre… as aulas na Universidade Columbia do grande professor Zen Budista, Dr. Daisetz Suzuki. Ele se senta no meio de um monte de livros, balança seus óculos numa elegância cerimonial enquanto mistura abstrações filosóficas com o concreto familiar: “descobrir a si mesmo é uma grande conquista, descobrir o zero é um grande salto”; em outro momento: “não ter objetivo ulterior no trabalho – aí então você é livre”.
· » Em 1957 a revista New Yorker cita Suzuki : “Como você vê, neste ponto, zero se iguala a infinito e infinito se iguala a zero. O resultado é o vazio.” (zero equals infinity and infinity equals zero. The result is emptiness)
· » Agosto, 1957: E. Fromm organiza o Congresso ‘Zen e a Psicanálise’, em Cuernavaca, México. 50 proeminentes psicanalistas comparecem, incluindo Carl Jung. Suzuki foi o palestrante convidado.
· » 1960: publicação de Zen Buddhism and Psychoanalysis por D.T. Suzuki, Erich Fromm, Richard DeMartino.
· » Karen Horney (1885-1952): em 1952 viaja para o Japão. Horney descobriu no Japão que a vida pode ser muito diferente da que estamos acostumados. Escreve em 1952: “No ocidente, um paciente vive segundo a vida “deve ser”. A mera aceitação dos impulsos compulsivos não os faz desaparecer. Os “deves” têm que ser experienciados e elaborados, e rompida toda a estrutura neurótica para que os sentimentos genuínos possam surgir e forças construtivas possam ser mobilizadas. Isto parece ser menos significativo na terapia dos japoneses que parecem ser menos alienados e mais próximos da natureza. Abandonar o velho status quo neurótico significa encarar o vazio. Em suas meditações, os japoneses estão ávidos para encarar este vazio” (Horney, 1952, p.87)
· Horney morreu em 1952, Jung em 1961 e Suzuki em 1966.

A autora deste trabalho provavelmente não conhece a obra do psiquiatra suíço Medard Boss. Ele é o criador da Daseinanalyse, abordagem psicoterapêutica inspirada na obra dos filósofos Edmund Husserl e Martin Heidegger. Menciono-o aqui por conta de suas viagens à India e à influencia das experiencias lá vividas, nas três estadias não contínuas que fez. Tenho em mãos o livro, traduzido do alemão para o frances, no qual Boss narra estas experiencias: “Un psychiatre en Inde” (Um psiquiatra na Índia), Ed. Fayard. Infelizmente minha cópia não tem dados importantes da publicação. Mas provavelmente essas viagens aconteceram na década de 1960.