terça-feira, 27 de maio de 2014
sexta-feira, 16 de maio de 2014
É bom ter consciência das coisas? Pra que serve?
Eu trabalho com isso:
estimular as pessoas, no processo psicoterapêutico, a ter consciência do que
vivem e, desse modo, fazer escolhas de vida que respondam a seus desejos ou
necessidades.
E mais: os “processos
mentais”, conscientes e inconscientes, têm um lugar relevante na nossa saúde.
Fazer com que os pensamentos e sentimentos negativos – como medo, hostilidade,
ressentimento, culpa – surjam na consciência, é parte do tratamento eficaz de
doenças. Daniel Siegel, diretor do Mindsight Institute, na Universidade da
Califórnia, afirma que esses pensamentos e sentimentos influenciam a saúde da
mente, sua flexibilidade e fluidez, sua alegria e a experiência da gratidão.
Eles causam impacto nos relacionamentos e no próprio corpo, sobretudo nos
sistemas nervoso, imunológico e cardiovascular.
Recentemente o campo
da psicoterapia recebeu uma contribuição valiosa da tradição oriental: a mindfulness
meditation. Resumidamente podemos dizer que é um modo de ser-no-mundo no qual o
foco da consciência e das sensações corporais estão no que acontece, ou se
apresenta, no tempo presente. É a concentração da “atenção plena” (uma tradução
possível de mindfulness) que permite a clareza, o discernimento, a consciência,
do que é vivido – para além da ansiedade, da distração, da dor física, do medo.
Este modo de
meditação está sendo utilizado tanto como parte de um processo de psicoterapia
como uma experiência de aprendizado em si mesma.
terça-feira, 13 de maio de 2014
BARRA DA TIJUCA
Few months ago, returning from a dreaming trip to
France, I wrote in this blog about “the Africa in Paris”, described my
amazement about the gap between the white and prosperous population and the
black poor one from the outskirts of the city of Paris.
I lived a similar experience…in Barra da
Tijuca! Taking advantage of a free rare afternoon, I decided to do by bus, the
Ipanema - Barra da Tijuca route - something I’d wished doing for quite some
time, simply for the pleasure of looking around without worry about driving. It
was fine, easy and quick: in less than half an hour I arrived to the big
shopping mall. Arriving in Barra I was surprised (one more time) with the
rising number of new luxurious buildings, and with the fact that there weren’t
people walking on the avenue. I decided to visit the shopping mall before
taking back the same bus, at the same bus stop which I had got out and, go back
to Ipanema.
I walked into two very good bookstores, set down on
an armchair of the first one and read an American article, without buying the
magazine… I had a great cup of coffee, walked a lot, my right foot started to
hurt - showing that it was time to stop.
I walked back to the bus stop I was recommended to choose, waiting for the bus coming from Ipanema. It would certainly be emptier, I was told. It would go to the last bus stop and then make the turn back to Ipanema.
I walked back to the bus stop I was recommended to choose, waiting for the bus coming from Ipanema. It would certainly be emptier, I was told. It would go to the last bus stop and then make the turn back to Ipanema.
Fifty minutes later and no bus! What to do? Keep on
waiting or cross five lanes at the traffic light that was about 60 meters
distant, to take the bus on the opposite side? The sun was still scorching, my
feet hurting from walking in the mall, and the watch showing 5 o’clock… It was
then that I witnessed an unexpected scene (at least for me) in this part of the
town: dozens of people (few hours before there weren’t anybody around!) running
from one side to another, chasing their buses, dozens of them, with signals
indicating neighborhoods from the west side, the north side of the city:
Taquara, Campo Grande, Madureira, Cidade de Deus, São Cristovão, Vila Kennedy,
Tanque, Méier. They would make triple lines because there wasn’t enough room
for them to park by the sidewalk. And people were running back and forth after
their buses, wherever they would park. Bus stop! Not even think of it. I stood
there, dizzy from the heat and astonishment. Is this also Barra? Hundreds of
men and women modestly dressed, from all ages, sweating and breathless. I
suppose they were employees from the shops, offices, clinics and schools. Was
that the end of a working shift? Could be.
Living, once again, the contrast and all that it
implies (the social inequalities, the political neglectfulness, the absurd
sharing of privileges), so close – it was good. Good, doesn’t mean pleasurable.
But it made me think: I’m part of this world, just like it is. I’m in it, and I
don’t want to leave it.
Barra da Tijuca
Alguns meses atrás,
voltando de uma sonhada viagem à França, escrevi neste blog sobre “a África em
Paris”, narrando minha perplexidade diante do fosso existente entre a população
branca e próspera e a negra e pobre da periferia da cidade de Paris.
Vivi uma experiência
semelhante há algum tempo… na Barra da Tijuca! Aproveitando uma tarde rara de
folga, decidi fazer de ônibus o percurso Ipanema - Barra da Tijuca – há muito
desejava fazer isso, simplesmente pelo prazer de olhar em volta sem me
preocupar em dirigir. Tudo bem, foi fácil e rápido: em menos de meia hora
cheguei ao grande shopping. Entrando na Barra me surpreendi (mais uma vez) com o
crescente número de prédios novos e luxuosos, e com o fato de que havia pouca
gente caminhando pela avenida. Decidi visitar o shopping antes de pegar o mesmo
ônibus, no mesmo ponto em que desci (instruções da cobradora) para voltar a
Ipanema.
Entrei em duas
livrarias muito boas, sentei na poltrona da primeira delas e li um artigo
americano, sem comprar a revista. Tomei um ótimo café, andei muito, meu pé
direito começou a doer — sinal de que era hora de parar. Cinquenta minutos
depois e nenhum ônibus! O que fazer? Continuar esperando ou atravessar cinco
pistas no sinal que estava a uns 60 metros de distância, para pegar um ônibus
no sentido contrário? O sol ainda estava de rachar, os pés doiam da caminhada
pelo shopping e o relógio marcava 17 horas… E foi então que assisti a uma cena
inesperada, (pelo menos para mim), nessa parte da cidade: dezenas de pessoas
(poucas horas antes não havia ninguém por ali!) correndo de um lado para o
outro, à “caça” de seu ônibus, dezenas deles, com placas que indicavam bairros da
zona oeste, da zona norte: Taquara, Campo Grande, Madureira, Cidade de Deus,
São Cristóvão, Vila Kennedy, Tanque, Méier. Eles faziam filas triplas porque
não havia espaço e tempo para estacionarem junto à calçada. E assim as pessoas
ficavam como baratas tontas, correndo atrás do seu ônibus, onde quer que eles
parassem. Ponto de ônibus? Nem pensar. Eu, parada ali, tonta de calor e de
espanto. Isso também é a Barra? Centenas de homens e mulheres modestamente
vestidos, de todas as idades, suando esbaforidos. Suponho que eram
trabalhadores das lojas, dos escritórios, clínicas e colégios. Um primeiro
turno de trabalho que àquela hora terminava? Podia ser.
Viver, mais uma vez,
o contraste e tudo nele implícito (a desigualdade social, o descaso político, a
distribuição absurda de privilégios), assim tão perto, foi bom. Bom não quer
dizer prazeroso. Mas me fez dizer: eu sou parte desse mundo, assim mesmo como
ele é. Estou dentro dele, e não quero sair.
sexta-feira, 9 de maio de 2014
Em defesa das psicoterapias psicodinâmicas
Há tempos venho escrevendo e
conversando com colegas sobre as mudanças que estão acontecendo no campo da
Psicoterapia. Uma delas é a ênfase que a sociedade e a mídia dão a
diagnósticos, distúrbios e síndromes relacionados à saúde mental: depressão,
transtorno obsessivo-compulsivo (TOC), stress pós-traumático e outros. Eu me
sinto “estrangeira” — mesmo sem estar sozinha nisso — por considerar que, como
psicoterapeuta, não trato de diagnósticos, síndromes ou de sintomas. Trato pessoas, que são muito mais complexas
do que isso.
E eis que encontro um instigante artigo
na revista norte-americanaScientific American Mind (nov./dec.2010) que veio ao encontro de algumas coisas que penso, relacionadas às
psicoterapias identificadas como “psicodinâmicas” ou “profundas”, como as
vertentes da psicanálise e da fenomenologia-existencial. O autor do artigo,
Jonathan Shedler,[1] enumera algumas características que
distinguem essas psicoterapias e descreve resultados de pesquisas que
demonstram como elas são mais eficazes do que outras formas de tratamentos que
ele denomina de “vapt-vupt” (minha versão para “quick-fix”), i.e., são de curto prazo e voltadas a eliminar sintomas (e que, by the way, atendem aos interesses de planos de
saúde que querem pagar o mínimo possível para atendimentos de saúde mental).
Diz ele que a grande aceitação da terapia cognitivo-comportamental reside na
sua proposta de cura rápida — o que é considerada uma vantagem pela maioria das
pessoas que buscam alguma forma de tratamento de suas aflições. E para os
psicoterapeutas (psicólogos e médicos), esta aceitação é justificada pelo fato
de que as terapias cognitivo-comportamentais encontraram acolhida nas
universidades, que recebem fundos governamentais e privados para realização de
pesquisas — o que constitui fonte de trabalho e de renda para muitos
professores universitários, sobretudo nos EUA.
Creio que as descrições e comparações
feitas por Shedler podem também ser aplicadas em relação às chamadas “terapias
complementares”,[2] como Florais de Bach, Reiki,
Cromoterapia, Massoterapia, e tantas outras que florescem a cada dia. Mesmo
sendo realizadas por profissionais sérios e dedicados, elas se distinguem
radicalmente das psicoterapias psicodinâmicas. Mas como respondem ao chamado do tempo breve de empenho da sociedade atual —
e seu corolário significativo, ou seja, a economia de gastos financeiros — e à
exigência de também menor tempo e complexidade na formação do profissional,
estas terapias, não deliberadamente, acabam por obscurecer a qualidade
transformadora e profunda da Fenomenologia-Existencial e da Psicanálise.
Com precisão, Shedler descreve algumas
das características distintivas da psicoterapia psicodinâmica:
- O encorajamento,
por parte dos psicoterapeutas, para que seus pacientes explorem suas
emoções em profundidade, não importa o quão contraditórias, ameaçadoras ou
perturbadoras elas sejam. Neste sentido, diferenciam-se das TCC, que
colocam o foco do trabalho terapêutico em pensamentos.
- A investigação dos
padrões recorrentes de comportamentos e reações, como, por exemplo, quando
um homem ou uma mulher se envolve repetidamente com pessoas casadas ou
comprometidas; ou quando sabotam oportunidades de trabalho; ou quando
repetem com os filhos — e se condenam por isso — comportamentos que seus
pais tiveram com eles.
- O reconhecimento
de que experiências passadas afetam a vida presente. É pela exploração do
que foi vivido na infância, ou em tempos bastante anteriores ao atual, que
é possível ajudar as pessoas a se libertarem das amarras desse passado,
evidentes no sofrimento presente, permitindo a elas viver mais plenamente.
- A exploração dos
padrões de relacionamento críticos. Muitas pessoas não reconhecem estes
padrões e o quanto eles influenciam, de modo problemático, sua vida
amorosa e profissional. Por exemplo, algumas pessoas não expressam suas
necessidades emocionais por medo de uma rejeição e, como consequência, não
preenchem essas necessidades — uma via para a vulnerabilidade à depressão.
- A valorização da
vida de fantasia. A psicoterapeuta estimula e facilita a expressão de
sonhos e fantasias que muitas vezes revelam os desejos, esperanças e medos
que ocupam um lugar importante na vida das pessoas.
- A atenção
cuidadosa das diferentes facetas da relação paciente-psicoterapeuta. Esta
relação é um elemento fundamental do processo terapêutico e no estabelecimento
da chamada “aliança terapêutica”, indispensável para se obter um resultado
positivo. Graças a ela, é possível analisar os modos como o paciente
reproduz, nesta relação, seus padrões habituais de relacionamentos com
pessoas significativas de sua vida e que, por sua vez, são origens de
distorções e sofrimento. Por exemplo, uma pessoa que tem dificuldade em
viver a intimidade evitará se revelar para o terapeuta, enquanto outra que
teme a rejeição insistirá em se mostrar uma “boa” paciente.
Para Shedler, “todas as psicoterapias
devem aliviar sintomas, como ansiedade ou depressão. Mas os tratamentos
psicodinâmicos ambicionam mais do que isso: a construção de forças psicológicas
profundas — como a capacidade de estabelecer relacionamentos plenos, a capacidade de fazer bom uso dos próprios talentos, e a possibilidade
de encarar os desafios da vida com maior liberdade e
flexibilidade.”
Por que este empenho todo para falar de
algo que nós, analistas existenciais e psicanalistas, sabemos todos?
Creio que Jonathan Shedler quis trazer
à tona as especificidades das psicoterapias psicodinâmicas, mostrar que há
inúmeras pesquisas que apontam seus benefícios e resultados positivos,
mencionar quanto estes aspectos andam “escondidos” por causa da divulgação extensiva
das “vantagens” de uma terapia breve e pragmática. Eu acrescento que há ainda o
nosso contexto sócio-cultural no qual a rapidez e o pragmatismo têm um lugar
privilegiado e, mais ainda, no qual acontece a grande influência da academia e
das instituições americanas que tanto privilegiam estes aspectos e tanto
desqualificam a subjetividade e a complexidade do entrelaçamento sujeito-mundo.
Shedler afirma ainda — algo inédito e
polêmico — que sua procura pelas pesquisas que apoiam a terapia psicodinâmica aconteceu
a partir do encontro com inúmeros pacientes que passaram de um tratamento
“vapt-vupt” para outro, com pouco ou breve aproveitamento. Ele afirma que a
tentativa de mudar pensamentos negativos — um aspecto fundamental da terapia
cognitivo-comportamental — não atinge a raiz dos problemas. Os pacientes podem
se sentir melhor por algum tempo, mas depois voltam a repetir os padrões que
causam sofrimento.
Finalizando, muito me tocou uma
conclusão deste artigo: os resultados benéficos da psicoterapia
psicodinâmica continuam mesmo depois de seu término. Porque esta é uma
parte importante de minha vida: a Psicomaiêutica, uma modalidade da abordagem
fenomenológica-existencial criada por Miguel Callile Jr.. Esta abordagem é o
fundamento da minha formação profissional, da minha experiência como paciente,
de minha conquista do bem viver e da minha contínua aprendizagem do viver com
os outros. Graças e ela, estou segura disso, pude recentemente receber
carinhosas palavras de despedida de uma jovem cliente:
“Obrigada por plantar
em mim essa semente que me fez buscar ser uma pessoa melhor, mais em contato
com os meus sentimentos, mais sincera e honesta comigo mesma. Obrigada por me dar a mão nos momentos em que esse caminho
pareceu tão escuro e assustador.” [3]
[1] Professor
de psiquiatria na Escola de Medicina da Universidade do Colorado e diretor de
psicologia do Serviço de Psiquiatria no hospital da mesma Universidade.
[2] Prefiro
usar “complementar” a “alternativo”.
[3] Frase
reproduzida com a autorização da sua autora.
quinta-feira, 8 de maio de 2014
A TRIP TO FRANCE IV
I remembered this incredible word while traveling around France.
Serendipity. In Portuguese, serendipitismo – weird, isn’t it? Even in English
it is not a familiar word. Its meaning? “Something interesting or pleasant
which happens by chance”, a “serendipitous discovery”, according to the
Webster. I end up deciding to use the English noun to describe a unique
experience in Arles, the Provence charming old town.
We had visited the historical city center. Tired of walking we decided to stop
for dinner, even though it was a little early. In a picturesque square, we
found a very simple restaurant. We sat on the porch with its tables barely
covered, and cold aluminum chairs. Hanging on a canvas in front of us, the name
of the place. It mentioned Van Gogh (I don’t remember now the full name). So,
we thought: Yes, he was around here, around these streets and alleys. Soon the
recognition! That lantern right there on the top, isn’t it like the one in Van
Gogh’s painting? Omar, my companion, answered: I guess that in Van Gogh’s
painting there are many lanterns. Everything around looks like the painting we
know, however in a very deteriorating way…
While we were dining we heard some enthusiastic screams from somewhere nearby,
on the same side of the big square we were in. Then a pause, and more louder
screaming. It sounded like people cheering at a soccer match.
After we paid the bill, another “wave” of screams was heard. Irresistible.
Let’s go see it? It was really a group of smiling men, excited, crammed at
small tables inside of what we could call a “botequim” (the brazilian typical
tavern). And there it was: a TV hanging from the ceiling, just like we have
here in Brazil. We entered there exactly when one of the men was shouting:
Messí! Messí! Accenting the last syllable, as the French do with all foreign
proper names. Trois gols! Trois gols! (three goals). Being Omar Argentinean, we
smiled. We decided to sit among the overjoyed people. It was the Barcelona
soccer team game, of course. They talked among themselves - shouted, rather-
motivated by the performance of the Argentinean striker Messi.
I felt so involved by the cheering atmosphere, so happy to share an authentic
experience with people living in a historical city, so different from the
ones in my country…. A combination of foreignness with the absolute familiarity
of the situation made me feel euphoric. I was cheering and yelling, until Messi
scored the fourth goal of the match. Phew! How incredible ! And I’m not even a
classic soccer supporter, I don’t have a team that I cheer for, but when
I’m watching a soccer match on TV I like to choose one. I have a very personal
way of doing it.
We left the “botequim” very happy. Serendipity, I thought.
How good it is to experience something so unexpected, very much by chance, and
so special.
On the next day, already on the road, I flipped through a small book bought at
a museum in Arles. And there it was: a picture of Van Gogh’s painting “The café
at night”. It was it! It was really the same sad restaurant, where we had
dinner the night before! Serendipity.
segunda-feira, 5 de maio de 2014
Uma Viagem IV - Serendipity
Lembrei dessa palavra incrível enquanto
viajava pela França. Serendipity. Em português,
serendipitismo – esquisita, não? Mas é o que consta no dicionário
inglês-português. Teria sentido usá-la? Mesmo em inglês, ela não é familiar.
Seu significado? “Alguma coisa interessante ou agradável que acontece por
acaso”, a “serendipitous discovery”, segundo o Webster.
Acabo me decidindo a seu favor para descrever uma experiência única em Arles,
na Provence...
Tínhamos visitado o centro histórico da
cidade. Cansados de muito caminhar decidimos parar para jantar, mesmo sendo um
pouco cedo. Encontramos uma pracinha pitoresca, um restaurante bem simples.
Sentamos na varanda, as mesas mal cobertas, as cadeiras frias de alumínio.
Pendurado em uma lona, na nossa frente, o nome do lugar. Falava em Van Gogh
(não me lembro do nome completo). Logo pensamos: É, ele andou por aqui, por
essas ruas, por essas vielas. E a seguir, o reconhecimento! Aquela lanterna ali
em cima não é igual ao do quadro do Van Gogh? Omar, meu companheiro, respondeu:
acho que no quadro há várias lanternas. Digo que tudo em volta é bem parecido
ao quadro, mas com um jeito tão decadente…
No meio de nosso jantar começamos a
ouvir gritos de entusiasmo vindos de um lugar próximo ao restaurante, do mesmo
lado da praça. Uma pausa, mais outros gritos fortes. Imaginamos logo: parece os
gritos de quem está torcendo em uma partida de futebol. Quando pagamos a conta
no restaurante, outra “onda” de gritos. Irresistível. Vamos ver? Realmente, era
um grupo de homens risonhos, eufóricos, amontoados em pequenas mesas dentro do
que poderíamos chamar de um botequim. A televisão pendurada no teto, igualzinho
ao que temos aqui no Brasil. Entramos no momento exato em que um dos homens
gritava : Messí! Messí!, acentuando a última sílaba como habitualmente fazem os franceses com
todos os nomes próprios estrangeiros. Trois gols!
Trois gols! (Três gols). Sendo Omar argentino, ficamos nós também MUITO sorridentes.
Decidimos nos sentar entre os animados frequentadores. Era um jogo do
Barcelona, claro. Todos falavam entre si – gritavam, melhor dizendo –,
empolgados com a atuação do artilheiro argentino Messi. Eu me sentia tão
envolvida pelo clima de torcida, tão contente por partilhar uma experiência
autêntica de pessoas dessa cidade, cuja história é tão diferente da de meu
país… A combinação de estrangeirice com a de absoluta familiaridade da situação
me deixou eufórica. Também eu torcia aos gritos, até que Messí fez o quarto gol da partida . Ufa! Que
coisa incrível! E olha que eu nem sou torcedora clássica de futebol, “não
tenho” um time, nada. Gosto de torcer por um time quando assisto à partidas
pela TV. Escolho na hora por quem vou torcer. Tenho uma lógica muito pessoal
para fazer isso.
Como é bom viver algo inesperado,
muitíssimo por acaso, e tão especial. Viajar turisticamente também é isso?
No dia seguinte, já na estrada, folheei
um livrinho que havia comprado em um museu de Arles. E lá estava a fotografia
do quadro de Van Gogh “O Café à Noite”. Era ele! Era mesmo o restaurante triste
no qual jantamos na véspera! Serendipity.
About Myself
I am a psychologist, Ph.D., graduated from the Federal University of Rio
de Janeiro, Brazil, psychotherapist within the existential – phenomenological
approach. My first and longest training as a psychotherapist, apart from the
University studies, was taken at the Society of Existential Analysis and
Psychomaieutic, an institution created and oriented by dr. Miguel Callile Jr in
1983.
Few years ago, I included in my practice the experience of training and co-coordination in groups of Body Therapy and Transformational Energetics, under the guidance of Ann Case Bowman, in the USA.
At the Institute of Psychoneuroimmunology, Psychosomatic and Stress, São
Paulo, I came to study, during two years and a half, in the nineties, mostly
the areas of psychoneuroimmunology and stress. This was an important moment of
my career when then I tried to integrate areas of study and current researches
that seek the view which rejects the dichotomy between the body and
psychological phenomena.
The assertion that the emotional, the cognitive and the existential
experiences have an intrinsic correspondence with what happens in the organism,
in the physical body, has three important consequences:
1)The need of knowing and exploring the correlation between what an individual feels and thinks, and what happens with his body when he is in an unstable state, suffering or ill – and vice-versa.
2)The need of therapeutic interventions that include these knowledges and so
3)The importance of the integration between psychological and medical care, as well as the consideration of the social and cultural context in which the individual is inserted.
1)The need of knowing and exploring the correlation between what an individual feels and thinks, and what happens with his body when he is in an unstable state, suffering or ill – and vice-versa.
2)The need of therapeutic interventions that include these knowledges and so
3)The importance of the integration between psychological and medical care, as well as the consideration of the social and cultural context in which the individual is inserted.
A specific area of my work related to this integration is the caring of
people with heart diseases. It is now evident that they do need to reduce
stress and change their lifestyles. It is also evident that the process of
brief psychotherapy is helpful for those individuals in the way that it
clarifies values and behaviors, and makes choices easier and more compatible
with the consequences of a heart disease.
From my philosophical concept of the human being as fundamentally a
being-in-the-world, and as a unity of body and mind (or spirit, or psyche – any
name for the non-material), it was natural for me to approach the new findings
of neuroscience and some notions and practices of the Tibetan Buddhism, both of
which also consider this unity, no matter how distinctive they are in
principles and methodology.
I consider my work as a psychotherapist as being more than the result of
a collection of trainings and studies. It is also a form of art; since it
demands creativity, improvisation, trust in the richness of intuition, and
clarity. It is also an art (not just a technique or an academic subject) if one
considers that the work with each individual is unique and must remain so
throughout the whole process.
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