Casamento é uma coisa difícil. Conviver diariamente com alguém,
adaptando-se, revoltando-se, encantando-se às vezes, sentindo-se acompanhado.
Tantas experiências diversas e desafiadoras! Vale a pena? A maioria dos casais
acha que sim. Uma leitora escreveu contando sua dificuldade para lidar com um
comportamento constante de seu marido: a reação agressiva e intolerante quando
é contrariado. Diz ela: “Brigamos muito
quando eu digo alguma coisa diferente do que ele espera. Tenho a impressão que
ele gostaria que eu concordasse com tudo que diz: suas sugestões, suas regras
para fazer as coisas, suas opiniões sobre nossos filhos, seu modo de conduzir o
trabalho, tudo enfim que me diz. Quando eu discordo, sugiro uma alternativa, argumento
algo contrário, pronto – começamos uma discussão, muitas vezes idiota (me dou
conta mais tarde).” E me pergunta: “Há
alguma coisa que eu poderia fazer pra melhorar nosso relacionamento nessas
ocasiões? Eu amo meu marido, mas nestas horas difíceis tenho vontade de fugir,
sumir do casamento e procurar uma vida mais fácil.”
Todo comportamento humano é multifacetado e com motivações
de apreensão inesgotável. Contudo, nesse caso da leitora, arrisco-me a mencionar uma compreensão do que
ela vive: a dificuldade de conviver com
um homem adulto com a reação emocional de uma criança de três anos. A
criança nessa idade não gosta de ser contrariada. Ela está experimentando ser “alguém”,
descobrindo sua identidade como alguém separado da mãe e que pode fazer coisas
por conta própria. Mas isso se dá em uma base ainda muito precária, por ser
conquista recente. Então quando é contrariada essa autonomia fica ameaçada, sua
segurança na conquista recém-realizada vai “por água abaixo”. É nessa época que os meninos são mais
encorajados (sutil e nem sempre conscientemente) a expressarem sua
contrariedade de modo agressivo, exuberante. E assim se estabelece um padrão de
comportamento duradouro.
Os homens recebem esse estímulo e, simultaneamente, uma
cobrança para que sejam assertivos e dominadores. São características que afirmam a masculinidade, dizem. Mas, como todo
ser humano, experimentam dúvidas e inseguranças. Pode acontecer então que
diante da contestação da mulher a suas posições, todo esse “edifício” de
dominação fique ameaçado e uma reação já construída na infância irrompa
vigorosa. O que antes aparecia como
raiva diante da contrariedade, agora toma o feitio de ódio e prepotência. Todos
sofrem. Os homens e as mulheres que partilham suas vidas.
Penso que uma mudança nesse contexto pode advir da
aceitação da mulher ao seu direito de pensar diferente do outro, viver experiências diferentes do outro.
Afirmar essa diferença a partir da confiança em si mesma, da autoestima. E ao
homem aceitar a possibilidade de que seu valor e sua masculinidade não estão em
jogo em cada afirmação que fazem. Conviver
com seus limites, entender que manifestações de amor não se identificam com
submissão e aceitação incondicional de tudo que ele expressa.
A diferença e a diversidade em uma relação conjugal são
tão enriquecedoras quanto aquelas que existem em uma sociedade.


