quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Casamento é uma coisa difícil

Casamento é uma coisa difícil. Conviver diariamente com alguém, adaptando-se, revoltando-se, encantando-se às vezes, sentindo-se acompanhado. Tantas experiências diversas e desafiadoras! Vale a pena? A maioria dos casais acha que sim. Uma leitora escreveu contando sua dificuldade para lidar com um comportamento constante de seu marido: a reação agressiva e intolerante quando é contrariado. Diz ela: “Brigamos muito quando eu digo alguma coisa diferente do que ele espera. Tenho a impressão que ele gostaria que eu concordasse com tudo que diz: suas sugestões, suas regras para fazer as coisas, suas opiniões sobre nossos filhos, seu modo de conduzir o trabalho, tudo enfim que me diz. Quando eu discordo, sugiro uma alternativa, argumento algo contrário, pronto – começamos uma discussão, muitas vezes idiota (me dou conta mais tarde).” E me pergunta: “Há alguma coisa que eu poderia fazer pra melhorar nosso relacionamento nessas ocasiões? Eu amo meu marido, mas nestas horas difíceis tenho vontade de fugir, sumir do casamento e procurar uma vida mais fácil.”


Todo comportamento humano é multifacetado e com motivações de apreensão inesgotável. Contudo, nesse caso da leitora,  arrisco-me a mencionar uma compreensão do que ela vive: a dificuldade de conviver com um homem adulto com a reação emocional de uma criança de três anos. A criança nessa idade não gosta de ser contrariada. Ela está experimentando ser “alguém”, descobrindo sua identidade como alguém separado da mãe e que pode fazer coisas por conta própria. Mas isso se dá em uma base ainda muito precária, por ser conquista recente. Então quando é contrariada essa autonomia fica ameaçada, sua segurança na conquista recém-realizada vai “por água abaixo”. É nessa época que os meninos são mais encorajados (sutil e nem sempre conscientemente) a expressarem sua contrariedade de modo agressivo, exuberante. E assim se estabelece um padrão de comportamento duradouro.

Os homens recebem esse estímulo e, simultaneamente, uma cobrança para que sejam assertivos e dominadores. São características que afirmam a masculinidade, dizem. Mas, como todo ser humano, experimentam dúvidas e inseguranças. Pode acontecer então que diante da contestação da mulher a suas posições, todo esse “edifício” de dominação fique ameaçado e uma reação já construída na infância irrompa vigorosa. O que antes aparecia como raiva diante da contrariedade, agora toma o feitio de ódio e prepotência. Todos sofrem. Os homens e as mulheres que partilham suas vidas.

Penso que uma mudança nesse contexto pode advir da aceitação da mulher ao seu direito de pensar diferente do outro, viver experiências diferentes do outro. Afirmar essa diferença a partir da confiança em si mesma, da autoestima. E ao homem aceitar a possibilidade de que seu valor e sua masculinidade não estão em jogo em cada afirmação que fazem. Conviver com seus limites, entender que manifestações de amor não se identificam com submissão e aceitação incondicional de tudo que ele expressa.


A diferença e a diversidade em uma relação conjugal são tão enriquecedoras quanto aquelas que existem em uma sociedade. 

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

O homem e a dor

-          Eu estava trabalhando muito. Não senti dor nenhuma. Comecei a suar, fiquei enjoado. Achei que tinha comido alguma coisa estragada no almoço. Os colegas me disseram que eu estava pálido, seria bom ir ao serviço médico. Eu disse que não era nada, logo ficaria melhor. Mas não fiquei. Esse foi o começo do meu infarto no coração.

Ouvi essa história para uma pesquisa que iria apresentar em um Congresso de Cardiologia Preventiva. Já não era o primeiro que me dizia coisas semelhantes: o início de um episódio cardíaco patológico no qual o homem não identificava as mudanças em seu corpo com uma perturbação séria do organismo.

Por que isso tanto acontece?
Creio que, em geral, os homens têm um condicionamento cultural, vindo lá da infância, no qual lhes é interditado sentirem qualquer coisa que os tornem vulneráveis. A vulnerabilidade, própria da condição humana, é, para eles (mais do que para as mulheres), sinônimo de fraqueza. E esta é abominada, considerada como “coisa de mulher”. Na ânsia de se diferenciar da mulher, de afirmar sua diferença dela e, portanto sua masculinidade, o homem acaba por negar sensações corporais e sentimentos que lhe trazem enorme prejuízo na saúde.

A conexão do corpo com o psiquismo foi negada, principalmente pela ciência, durante séculos. Atualmente inúmeras pesquisas apontam que emoções como a raiva, a constante irritação, a ansiedade intensa e contínua, o estresse, a depressão, são fatores que podem influenciar no aparecimento ou agravamento de doenças, sobretudo as cardiovasculares. Nesse sentido, além da necessidade de cuidar da vida, isto é, do modo como se leva a vida, é muito importante estar “afinado” com as experiências corporais e emocionais que podem indicar que algo “não vai bem” com o indivíduo.

Para que aconteça essa afinação – o termo empregado pelo filósofo alemão Martin Heidegger – é fundamental não ter pre-conceitos quanto ao sentir, quanto à vulnerabilidade, quanto à dor. A dor e o medo que sempre os acompanha são partes de ser gente, e os homens que erradamente acreditam que os sentimentos são barreiras à sua masculinidade acabam por terem problemas sérios, como aconteceu com o homem que me contou e, cotidianamente, acontece com tantos outros homens.

Ao lado da dificuldade de contatar-se com o corpo próprio e dar-se conta que não está se sentindo bem, existe a barreira de um passo seguinte e necessário: pedir ajuda. E, novamente, são os homens que mais relutam, adiam, evitam, pedir ajuda. É todo um modelo de masculinidade que torna-se necessário re-avaliar. Porque não são mais apenas papéis sociais que estão em jogo: é a própria vida dos homens.

Se a ciência está mostrando o entrelaçamento das funções fisiológicas com o vivido psicologicamente, o padrão masculino de comportamentos relacionado a estes aspectos que mencionamos torna-se uma ameaça à sua sobrevivência no mundo.


Tudo muda, dizia Heráclito. Tomara em breve os homens possam sentir a dor no corpo e na alma, considerá-las com seriedade, desejar delas, cuidar e buscar ajuda onde acreditarem ela melhor exista.

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Paulo Coelho: líder espiritual global

A revista inglesa MindBodySpirit publicou, uma lista das 100 pessoas vivas mais influentes espiritualmente no mundo. (edição nº33, Spring 2013),
Recebi essa revista por engano de uma amiga. Nem sabia de sua existência. Por que falar dela? Pela minha surpresa e por meus pensamentos dela decorrentes. O fato desencadeante: Paulo Coelho ocupa o 7º lugar da lista! Considerando que o Dalai Lama está no 1º, Thich Nhat Hanh no 2º e EckhartTolle no 3º, imagine meu espanto. 
A lista foi elaborada a partir de mais de 600 candidatos e tem o objetivo de “servir como um guia positivo dos professores líderes” que podem inspirar as pessoas por seu impacto.
Não quero falar da qualidade literária dos livros de Paulo Coelho. Já escreveram demais sobre isso. Eu mesma o conheço muito pouco. Mas, sem dúvida, o que a mim causa impacto é esse reconhecimento por um lugar que ele ocupa no mundo. Pelo contraste entre o pouco caso e até diria, desprezo, que recebe no Brasil, e a repercussão “global” do que ele diz e escreve.
Creio que o que me toca, particularmente, é a constatação reiterada de como nós, brasileiros, temos pouca consideração com todas as nossas formas de produção: da literatura, ao açaí. Acho incrível como os norte-americanos, por exemplo, valorizam qualquer expressão sua e como, por contraste, nós fazemos o oposto. Muitas vezes me emocionei com a intensidade e quantidade de aplausos que os artistas recebem quando se apresentam em público nas cidades norte-americanas. A aprovação entusiasmada das atuações nem sempre admiráveis, mas sempre reconhecidas com calor.
Creio que minha emoção está relacionada com a compaixão por nós, brasileiros. Nosso abandono e “solidão” no mundo. Sempre volto a pensar no bordão de Lula: como povo, não temos auto-estima. Se algo é feito aqui, não presta. Se alguém escreve aqui, há outros na Europa, nos Estados Unidos, no Japão – que são muito melhores. E por aí vai.
Intervalo: enquanto pensava em escrever esse texto aqui, ouvi um dia o programa Observatório de Imprensa, na rádio MEC. O tema do dia: o “complexo de vira-lata” dos brasileiros. Por que “o complexo” aparece agora? Pela euforia, na mídia, com a exploração do xisto, (fonte energética), nos EUA e assim, mais uma vez, diz ela, nós ficamos para trás na corrida pelo desenvolvimento econômico. Mas o Observatório denunciava os riscos ambientais da sua produção e o fato de que o Brasil é um grande produtor mundial do tal xisto.
Minha história continua…
Depois de ter começado a escrever meu texto, leio o artigo do físico José Goldemberg no jornal Estado de S. Paulo. Relacionado ao meu interesse imediato, disse ele: - na França foi proibida a exploração do xisto; - a empresa russa que é a maior produtora mundial do xisto declarou recentemente que “a revolução energética (trazida pelo xisto) é talvez (o “talvez” deve ser uma sutileza diplomática, digo eu…) uma bem organizada campanha de relações públicas”.
Como não é a primeira vez que falo alguma coisa sobre o tema, me pergunto o que anda acontecendo comigo… Provavelmente o relaciono com outro, bem próximo, sobre o qual desejo pesquisar e escrever: o quanto as pessoas consideram que os outros, e elas mesmas, se importam com quem são. Como o “importar-se” com si mesmo é imprescindível nas escolhas e decisões na vida, como o importar-se com os outros está na base da compaixão e como a percepção de que “eu conto” para os outros contribui significativamente para a felicidade (palavra perigosa nesse momento…) e saúde mental (outro perigo…).

Fui muito longe. Divago. É melhor voltar outro dia para escrever sobre “contar”, “ser importante para”, “valorizar”.