sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Amor de beira do túmulo

O que leva as pessoas a descobrirem que amam muito um companheiro(a) que já não está mais disponível para elas? Falando em uma linguagem mais simples: como é que pode alguém se descobrir apaixonado, sofrendo muitíssimo a perda de alguém que não era tão amado assim quando estavam juntos?

Este fenômeno sempre me intrigou, não creio que possamos chegar à uma resposta única, à uma teoria que, de um só golpe, torne compreensível esta experiência humana tão frequente quanto complexa.

Conheço um homem que está vivendo, pela segunda vez, esta situação. Está em seu segundo casamento e começa a acreditar que vai repetir tudinho que viveu no anterior: admirava a mulher por várias de suas qualidades: ela era inteligente, amorosa, bonita. Mas… não lhe satisfazia em tantos outros aspectos.  Ele vivia criticando-a pelo que ela não fazia. Por exemplo: não se vestia com apuro, ficava sempre calada no contato com os outros, não progredia na profissão como ele achava que devia. No fundo o que acontecia é que ela não era o modelo de mulher que ele queria, não respondia a seus apelos de ser outra pessoa diferente do que ela era.

Separaram-se. Pouco tempo depois ele tentou reatar o casamento. Ela se cansou de suas cobranças. Não aceitou uma volta. Ele passou anos desesperado, achando que nunca foi verdadeiramente amado mas que tinha perdido a mulher mais maravilhosa, leal e companheira que conheceu na vida. Atualmente, ele está novamente vivendo a mesmíssima situação. Queixa-se da segunda mulher, não nos mesmos termos, mas com a mesma insatisfação. Agora teme estar repetindo o mesmo padrão de relacionamento amoroso: a mulher é amada incondicionalmente quando não mais está a seu lado. É o que chamam amor de beira do túmulo.

Podemos falar aqui de uma valorização “do que não é meu”: o outro é desejado e apreciado quando está inacessível, porque o que “é meu” não presta. A pouca auto-estima estaria na origem desta experiência. Ou, colocando de uma outra forma: quem gosta de mim não presta muito, pois não sou gostável, como alguem de real valor poderia me querer? Esta vivência pode remeter, ou não, à infância, quando pai, ou mãe, era real ou fantasiadamente inacessível.

Uma outra compreensão é a da dificuldade de estabelecer um vínculo afetivo estável e, assim, o outro é desejado e apreciado se está longe, não disponível. Nessa situação é possível perceber inúmeras qualidades no outro que pareciam não existir, ou pelo menos não eram percebidas, e muito menos expressadas aberta e diretamente para este outro.

O que fica destes poucos exemplos e tentativas de compreensão? Creio que é importante para as pessoas que se encontram nela começarem a se questionar, em vez de acusar o outro de ingratidão e desamor. Quem sou eu amando? O que procuro no relacionamento amoroso? O que não quis ouvir quando estávamos juntos? Quais emoções e comportamentos tenho repetido?

E começar de novo…

Amaryllis Schvinger
Doutora em Psicologia