segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Viver na contramão

Aconteceu no Café Psicológico, realizado no Armazém Digital de Itaipava: após os debates e troca de experiências, as pessoas presentes concluíram que é difícil mudar a vivência do tempo que todos temos – e que tanto nos angustia –, mas vale a pena fazermos uma tentativa nesse sentido.

“Estamos sempre apressados, correndo contra o tempo”, todos admitiram, confessando, ainda, ter vivências de perdas relacionadas ao tempo “mal vivido”. “Deixamos de lado aspectos importantes da vida". Sentimos falta de estar com a família, de encontrar os amigos para um café ou um chopp sem compromisso, de saber o que pensam nossos filhos, de ler um livro que nos aguarda há muito tempo na estante. Mas não conseguimos fazer nada disso.”

Viva e estimulante, a conversa apontou exemplos de como “o viver no abismo do tempo” torna a vida tingida pela angústia, faz com que a gente se sinta culpado pelo que deixamos de lado e pela percepção de que adiamos experiências importantes. Sobretudo, revelou como o prazer possível nos escapa e, no limite, nos parece até inalcançável.

Acredito que a atração do Ocidente pelo pensamento budista surge, em parte, da necessidade de superação desses sentimentos e angústias. O onipresente ensinamento budista de que é fundamental permanecermos no presente, com atenção relaxada, calma concentração e consciência alerta – o que está sendo denominado no campo das psicoterapias como mindfulness  –  é uma resposta possível, um recurso de coping para a nossa experiência sofrida do tempo. Conseguir situar-se no presente conduz à libertação daquilo que, verdadeiramente, não é. Todos sabemos que o que está no passado não existe mais e o futuro, na maior parte das vezes, só existe enquanto expectativa – e expectativa ansiosa, muito mais do que projeto norteador de uma trajetória pessoal.

Contudo, creio que há uma decisão importante a ser feita para podermos utilizar esse recurso de coping, a mindfulness: a vontade, a determinação, de nos mantermos próximo a nós mesmos. Sim, é verdade que as condições sociais e culturais nos “empurram” a viver apressadamente, a nos ocupar de infinitas tarefas e cuidados; mas também é verdade que esse modo de vida é facilmente instrumentalizado, tornando-se uma fuga de nós mesmos. Construímos, desta forma, um círculo vicioso: nos submetemos à pressão sócio-cultural que exige que nos ocupemos de inúmeras obrigações e de múltiplas e trabalhosas tarefas – alternadas com um lazer afobado e febril – e que resulta, com freqüência, em um sentimento de culpa, de dívida. E para minorar os consequentes sofrimento e angústia provocados por essa atitude, emerge um movimento de fuga, de escape de si mesmo – este ser tão “pequeno”, quase esmagado  por esses movimentos externos e internos.


Mesmo partindo de um tema questionador, o Café Psicológico desse dia terminou com muito entusiasmo. Todos, ou quase todos, concordaram que precisamos mudar e que esta mudança significa viver na contramão da corrente no qual estamos inseridos. Concordamos que não é fácil, que estabelecer prioridades e valores é fundamental e, mais ainda, que não podemos esquecer a brevidade do tempo que nos é dado viver; Concordamos que é possível viver na contramão, mas que isso não se dá pelo caminho do consumismo, do apelo inexaurível da tecnologia atual. Concordamos que é difícil olharmos para nós mesmos com compaixão, mas sem complacência. Concordamos, ainda, que não há como eliminar, de uma vez por todas, o sofrimento, a tristeza e as frustrações, mas somos capazes, sim, de buscar um caminho próprio de vida no qual haja lugar para a felicidade pessoal (concebida como alegria) combinada com a solidariedade não apenas pelos desvalidos e desamparados de nossa sociedade, mas pelas pessoas que nos cercam, que valorizam a doação de gestos, palavras e atos que podemos lhes oferecer.

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