Aconteceu no Café Psicológico, realizado no Armazém Digital
de Itaipava: após os debates e troca de experiências, as pessoas presentes
concluíram que é difícil mudar a vivência do tempo que todos temos – e que
tanto nos angustia –, mas vale a pena fazermos uma tentativa nesse sentido.
“Estamos sempre apressados, correndo contra o tempo”, todos admitiram,
confessando, ainda, ter vivências de perdas relacionadas ao tempo “mal vivido”.
“Deixamos de lado aspectos importantes da vida". Sentimos falta de estar com a
família, de encontrar os amigos para um café ou um chopp sem compromisso, de
saber o que pensam nossos filhos, de ler um livro que nos aguarda há muito
tempo na estante. Mas não conseguimos fazer nada disso.”
Viva e estimulante, a conversa apontou exemplos de como “o viver no
abismo do tempo” torna a vida tingida pela angústia, faz com que a gente se
sinta culpado pelo que deixamos de lado e pela percepção de que adiamos
experiências importantes. Sobretudo, revelou como o prazer possível nos escapa
e, no limite, nos parece até inalcançável.
Acredito que a atração do Ocidente pelo pensamento budista surge, em
parte, da necessidade de superação desses sentimentos e angústias. O
onipresente ensinamento budista de que é fundamental permanecermos no presente,
com atenção relaxada, calma concentração e consciência alerta – o que está
sendo denominado no campo das psicoterapias como mindfulness – é
uma resposta possível, um recurso de coping para a nossa experiência sofrida do
tempo. Conseguir situar-se no presente conduz à libertação daquilo que,
verdadeiramente, não é. Todos sabemos que o que está no passado não existe mais
e o futuro, na maior parte das vezes, só existe enquanto expectativa – e
expectativa ansiosa, muito mais do que projeto norteador de uma trajetória
pessoal.
Contudo, creio que há uma decisão importante a ser feita para podermos
utilizar esse recurso de coping, a mindfulness: a vontade, a determinação, de
nos mantermos próximo a nós mesmos. Sim, é verdade que as condições sociais e
culturais nos “empurram” a viver apressadamente, a nos ocupar de infinitas
tarefas e cuidados; mas também é verdade que esse modo de vida é facilmente
instrumentalizado, tornando-se uma fuga de nós mesmos. Construímos, desta
forma, um círculo vicioso: nos submetemos à pressão sócio-cultural que exige
que nos ocupemos de inúmeras obrigações e de múltiplas e trabalhosas tarefas –
alternadas com um lazer afobado e febril – e que resulta, com freqüência, em um
sentimento de culpa, de dívida. E para minorar os consequentes sofrimento e
angústia provocados por essa atitude, emerge um movimento de fuga, de escape de
si mesmo – este ser tão “pequeno”, quase esmagado por esses movimentos
externos e internos.
Mesmo partindo de um tema questionador, o Café Psicológico desse dia
terminou com muito entusiasmo. Todos, ou quase todos, concordaram que
precisamos mudar e que esta mudança significa viver na contramão da corrente no
qual estamos inseridos. Concordamos que não é fácil, que estabelecer
prioridades e valores é fundamental e, mais ainda, que não podemos esquecer a
brevidade do tempo que nos é dado viver; Concordamos que é possível viver na
contramão, mas que isso não se dá pelo caminho do consumismo, do apelo
inexaurível da tecnologia atual. Concordamos que é difícil olharmos para nós
mesmos com compaixão, mas sem complacência. Concordamos, ainda, que não há como
eliminar, de uma vez por todas, o sofrimento, a tristeza e as frustrações, mas
somos capazes, sim, de buscar um caminho próprio de vida no qual haja lugar
para a felicidade pessoal (concebida como alegria) combinada com a
solidariedade não apenas pelos desvalidos e desamparados de nossa sociedade,
mas pelas pessoas que nos cercam, que valorizam a doação de gestos, palavras e
atos que podemos lhes oferecer.
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