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Eu estava trabalhando muito. Não senti dor
nenhuma. Comecei a suar, fiquei enjoado. Achei que tinha comido alguma coisa
estragada no almoço. Os colegas me disseram que eu estava pálido, seria bom ir ao
serviço médico. Eu disse que não era nada, logo ficaria melhor. Mas não fiquei.
Esse foi o começo do meu infarto no coração.
Ouvi essa história para uma pesquisa que
iria apresentar em um Congresso de Cardiologia Preventiva. Já não era o
primeiro que me dizia coisas semelhantes: o início de um episódio cardíaco
patológico no qual o homem não identificava as mudanças em seu corpo com uma
perturbação séria do organismo.
Por que isso tanto acontece?
Creio que, em geral, os homens têm um
condicionamento cultural, vindo lá da infância, no qual lhes é interditado
sentirem qualquer coisa que os tornem vulneráveis. A vulnerabilidade, própria
da condição humana, é, para eles (mais do que para as mulheres), sinônimo de
fraqueza. E esta é abominada, considerada como “coisa de mulher”. Na ânsia de
se diferenciar da mulher, de afirmar sua diferença dela e, portanto sua
masculinidade, o homem acaba por negar sensações corporais e sentimentos que
lhe trazem enorme prejuízo na saúde.
A conexão do corpo com o psiquismo foi
negada, principalmente pela ciência, durante séculos. Atualmente inúmeras
pesquisas apontam que emoções como a raiva, a constante irritação, a ansiedade
intensa e contínua, o estresse, a depressão, são fatores que podem influenciar
no aparecimento ou agravamento de doenças, sobretudo as cardiovasculares. Nesse
sentido, além da necessidade de cuidar da vida, isto é, do modo como se leva a
vida, é muito importante estar “afinado” com as experiências corporais e emocionais
que podem indicar que algo “não vai bem” com o indivíduo.
Para que aconteça essa afinação – o
termo empregado pelo filósofo alemão Martin Heidegger – é fundamental não ter
pre-conceitos quanto ao sentir, quanto à vulnerabilidade, quanto à dor. A dor e
o medo que sempre os acompanha são partes de ser gente, e os homens que
erradamente acreditam que os sentimentos são barreiras à sua masculinidade
acabam por terem problemas sérios, como aconteceu com o homem que me contou e,
cotidianamente, acontece com tantos outros homens.
Ao lado da dificuldade de contatar-se
com o corpo próprio e dar-se conta que não está se sentindo bem, existe a
barreira de um passo seguinte e necessário: pedir ajuda. E, novamente, são os
homens que mais relutam, adiam, evitam, pedir ajuda. É todo um modelo de
masculinidade que torna-se necessário re-avaliar. Porque não são mais apenas
papéis sociais que estão em jogo: é a própria vida dos homens.
Se a ciência está mostrando o
entrelaçamento das funções fisiológicas com o vivido psicologicamente, o padrão
masculino de comportamentos relacionado a estes aspectos que mencionamos
torna-se uma ameaça à sua sobrevivência no mundo.
Tudo muda, dizia Heráclito. Tomara em
breve os homens possam sentir a dor no corpo e na alma, considerá-las com
seriedade, desejar delas, cuidar e buscar ajuda onde acreditarem ela melhor
exista.

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