segunda-feira, 10 de novembro de 2014

O homem e a dor

-          Eu estava trabalhando muito. Não senti dor nenhuma. Comecei a suar, fiquei enjoado. Achei que tinha comido alguma coisa estragada no almoço. Os colegas me disseram que eu estava pálido, seria bom ir ao serviço médico. Eu disse que não era nada, logo ficaria melhor. Mas não fiquei. Esse foi o começo do meu infarto no coração.

Ouvi essa história para uma pesquisa que iria apresentar em um Congresso de Cardiologia Preventiva. Já não era o primeiro que me dizia coisas semelhantes: o início de um episódio cardíaco patológico no qual o homem não identificava as mudanças em seu corpo com uma perturbação séria do organismo.

Por que isso tanto acontece?
Creio que, em geral, os homens têm um condicionamento cultural, vindo lá da infância, no qual lhes é interditado sentirem qualquer coisa que os tornem vulneráveis. A vulnerabilidade, própria da condição humana, é, para eles (mais do que para as mulheres), sinônimo de fraqueza. E esta é abominada, considerada como “coisa de mulher”. Na ânsia de se diferenciar da mulher, de afirmar sua diferença dela e, portanto sua masculinidade, o homem acaba por negar sensações corporais e sentimentos que lhe trazem enorme prejuízo na saúde.

A conexão do corpo com o psiquismo foi negada, principalmente pela ciência, durante séculos. Atualmente inúmeras pesquisas apontam que emoções como a raiva, a constante irritação, a ansiedade intensa e contínua, o estresse, a depressão, são fatores que podem influenciar no aparecimento ou agravamento de doenças, sobretudo as cardiovasculares. Nesse sentido, além da necessidade de cuidar da vida, isto é, do modo como se leva a vida, é muito importante estar “afinado” com as experiências corporais e emocionais que podem indicar que algo “não vai bem” com o indivíduo.

Para que aconteça essa afinação – o termo empregado pelo filósofo alemão Martin Heidegger – é fundamental não ter pre-conceitos quanto ao sentir, quanto à vulnerabilidade, quanto à dor. A dor e o medo que sempre os acompanha são partes de ser gente, e os homens que erradamente acreditam que os sentimentos são barreiras à sua masculinidade acabam por terem problemas sérios, como aconteceu com o homem que me contou e, cotidianamente, acontece com tantos outros homens.

Ao lado da dificuldade de contatar-se com o corpo próprio e dar-se conta que não está se sentindo bem, existe a barreira de um passo seguinte e necessário: pedir ajuda. E, novamente, são os homens que mais relutam, adiam, evitam, pedir ajuda. É todo um modelo de masculinidade que torna-se necessário re-avaliar. Porque não são mais apenas papéis sociais que estão em jogo: é a própria vida dos homens.

Se a ciência está mostrando o entrelaçamento das funções fisiológicas com o vivido psicologicamente, o padrão masculino de comportamentos relacionado a estes aspectos que mencionamos torna-se uma ameaça à sua sobrevivência no mundo.


Tudo muda, dizia Heráclito. Tomara em breve os homens possam sentir a dor no corpo e na alma, considerá-las com seriedade, desejar delas, cuidar e buscar ajuda onde acreditarem ela melhor exista.

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