sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Vulnerabilidade masculina e psicoterapia



Corneille é um jovem cantor nascido em Ruanda. Li seu depoimento* sobre o massacre de sua família na África, sua fuga para a Alemanha e depois para o Canadá, até se estabelecer na França, onde faz muito sucesso. Mas o que mais me tocou foi sua afirmação “É libertador admitir sua própria complexidade. Mesmo que isso seja extremamente doloroso.” Ele diz isto ao contar como passou muito tempo escondendo-se de si mesmo e de todos que o cercavam, acreditando que ele era um sobrevivente vitorioso, “bem sucedido”. Ao sentir-se confuso e perdido com a afirmação repetida de Sophie, a mulher por quem se apaixonou, de que ele negava sua experiência de sofrimento, Corneille procurou a psicoterapia. E foi neste processo que encontrou o valor do mergulho em si mesmo, no seu passado de perdas e luto. “Falando, buscando, enfrentando as coisas, mesmo quando isso era insuportável, eu recobrei a vida e descobri a liberdade”, diz ele.



Penso que o processo da psicoterapia como mergulho em si mesmo é bastante difícil para todos, mas particularmente para os homens. E um dos temas que me parece aí subjacente é o da vulnerabilidade. Há a crença generalizada entre os homens de que vulnerabilidade é sinônimo de fraqueza. E fraqueza é o fantasma super-perseguidor, antítese da masculinidade entendida como “força”, “resistência”, “dureza”, “autoridade”. O preço pago por atender a esta concepção de masculinidade é muito alto: não sentir. Porque ao suprimir os sentimentos de dor, tristeza, perda, “cansaço da vida”, desapontamento, medo de amar e tantos outros, os homens impedem o contato, (e a expressão), dos sentimentos bons, como a alegria e o prazer genuínos. Como disse Corneille a respeito de si mesmo, é provável que vivam sob máscaras, e eu digo: tornam-se os chamados “atletas do stress”.


Ser vulnerável, na realidade, significa encontrar a coragem de ser sincero, aberto e honesto.  Significa, muitas vezes, ser aberto ao que os outros lhe dizem e assim, pelo diálogo, pela troca, descobrir que pode mudar de comportamento, de opiniões, de atitudes que até então conduziram muito mais a conflitos do que à satisfação de necessidades ou ao desfrute de prazer e realização. Ser vulnerável ao outro, ao que a vida lhe traz de bom e de mal, às múltiplas experiências que ocorrem ao longo do tempo, não quer dizer de jeito nenhum que se vai viver à deriva, que os outros terão um poder desmedido sobre nós. Ser vulnerável é apenas deixar entrar o que vem do outro, permitir que isso soe internamente e, finalmente, se expresse para o mundo. Mas para isso, é preciso acreditar que o outro não é necessariamente um inimigo – e mesmo se for, que temos recursos para lidar com ele.



E há mesmo uma relação entre viver o processo psicoterápico e a experiência da vulnerabilidade? Sim, há. Ela é uma relação arriscada? Sim, como todas as relações que valem a pena. Mesmo sendo protegida pelo compromisso da confidencialidade, da ética profissional, da formação extensa da psicoterapeuta, essa relação não está isenta de riscos. Não apenas dos riscos do encontro profundo consigo mesmo como os advindos das limitações, (sempre possíveis), do profissional. E por que mesmo assim vale a pena? Pela conquista primordial possível na psicoterapia: a da liberdade, como disse Corneille. A saúde mental é, fundamentalmente, o exercício da liberdade. Na liberdade, as escolhas se desvelam com clareza e a vulnerabilidade vivida traz consigo a alegria destemida da entrega.



* Revista Psychologies, nº291, dec. 2009

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