Corneille é um jovem cantor nascido em
Ruanda. Li seu depoimento* sobre o massacre de
sua família na África, sua fuga para a Alemanha e depois para o Canadá, até se
estabelecer na França, onde faz muito sucesso. Mas o que mais me tocou foi sua
afirmação “É libertador admitir sua
própria complexidade. Mesmo que isso seja extremamente doloroso.” Ele diz
isto ao contar como passou muito tempo escondendo-se de si mesmo e de todos que
o cercavam, acreditando que ele era um sobrevivente vitorioso, “bem sucedido”.
Ao sentir-se confuso e perdido com a afirmação repetida de Sophie, a mulher por
quem se apaixonou, de que ele negava sua experiência de sofrimento, Corneille
procurou a psicoterapia. E foi neste processo que encontrou o valor do mergulho
em si mesmo, no seu passado de perdas e luto. “Falando, buscando, enfrentando
as coisas, mesmo quando isso era insuportável, eu recobrei a vida e descobri a
liberdade”, diz ele.
Penso que o processo da psicoterapia
como mergulho em si mesmo é bastante difícil para todos, mas particularmente
para os homens. E um dos temas que me parece aí subjacente é o da
vulnerabilidade. Há a crença generalizada entre os homens de que
vulnerabilidade é sinônimo de fraqueza. E fraqueza é o fantasma
super-perseguidor, antítese da masculinidade entendida como “força”,
“resistência”, “dureza”, “autoridade”. O
preço pago por atender a esta concepção de masculinidade é muito alto: não
sentir. Porque ao suprimir os sentimentos de dor, tristeza, perda, “cansaço
da vida”, desapontamento, medo de amar e tantos outros, os homens impedem o
contato, (e a expressão), dos sentimentos bons, como a alegria e o prazer
genuínos. Como disse Corneille a respeito de si mesmo, é provável que vivam sob
máscaras, e eu digo: tornam-se os chamados “atletas do stress”.
Ser vulnerável, na realidade, significa encontrar a coragem de ser sincero, aberto e honesto. Significa, muitas vezes, ser aberto ao que os outros lhe dizem e assim, pelo diálogo, pela troca, descobrir que pode mudar de comportamento, de opiniões, de atitudes que até então conduziram muito mais a conflitos do que à satisfação de necessidades ou ao desfrute de prazer e realização. Ser vulnerável ao outro, ao que a vida lhe traz de bom e de mal, às múltiplas experiências que ocorrem ao longo do tempo, não quer dizer de jeito nenhum que se vai viver à deriva, que os outros terão um poder desmedido sobre nós. Ser vulnerável é apenas deixar entrar o que vem do outro, permitir que isso soe internamente e, finalmente, se expresse para o mundo. Mas para isso, é preciso acreditar que o outro não é necessariamente um inimigo – e mesmo se for, que temos recursos para lidar com ele.
E há mesmo uma relação entre viver o
processo psicoterápico e a experiência da vulnerabilidade? Sim, há. Ela é uma
relação arriscada? Sim, como todas as relações que valem a pena. Mesmo sendo
protegida pelo compromisso da confidencialidade, da ética profissional, da
formação extensa da psicoterapeuta, essa relação não está isenta de riscos. Não
apenas dos riscos do encontro profundo consigo mesmo como os advindos das
limitações, (sempre possíveis), do profissional. E por que mesmo assim vale a
pena? Pela conquista primordial possível na psicoterapia: a da liberdade, como
disse Corneille. A saúde mental é,
fundamentalmente, o exercício da liberdade. Na liberdade, as escolhas se
desvelam com clareza e a vulnerabilidade vivida traz consigo a alegria
destemida da entrega.
* Revista Psychologies, nº291, dec. 2009

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