Quando me mostro aborrecida ou triste, alguns amigos me dizem: “olha,
não esqueça do quanto você é privilegiada…” É um comentário para me ajudar,
para que eu não me perca das tantas coisas boas que tenho na vida. Moro num
lugar belíssimo, cercada de árvores, plantas, flores e montanhas. Próxima da
cidade de Petrópolis — com seus casarões antigos e sua imponência imperial — e
do distrito de Itaipava, cheio de comidinhas gostosas, de pessoas calorosas, de
calma. Vivo com um homem inteligente e amoroso, muitas vezes difícil de me
relacionar, mas sempre solidário e criativo nas suas ideias.
E aí?
Estou vivendo um momento no qual é bem claro uma coisa que muitas vezes aponto
para meus clientes de psicoterapia: não adianta estar vivendo uma vida
privilegiada — sejam quais forem os critérios que se use para essa avaliação —
se você não tem algo que muito deseja ou necessite. Penso sempre em Marilyn
Monroe, uma linda mulher, desejada por tantos homens no planeta, admirada e
mesmo invejada pelas mulheres, rica, talentosa como personagem de cinema. E que
se suicidou. Ou o estilista inglês Alexander McQueen, tão pleno do
reconhecimento profissional, milionário e que se suicidou. Como pode, pensamos
nós?
Bom, eu sei como pode: não adianta ter tantos bens materiais, ou mesmo afeto de
família e amigos, amor do ente amado. Quando
a pessoa não vive o que deseja, o vazio que se instala é enorme. O objeto
do desejo passa a ocupar um lugar enorme na vida. Mas não me refiro aqui ao
desejo de algo material, de algo que se pode comprar.
Marilyn Monroe desejava amor, McQueen eu não sei. E eu? Sentia falta de
um grupo de pessoas com as quais poderia trocar experiências e passar adiante a
bagagem de conhecimentos que venho juntando ao longo do tempo.
Qual a solução?
Há dois caminhos:
- desistir do desejo e viver o
luto, a tristeza pelo que não tem ou não vive. Contudo essa desistência tem
de ser verdadeira, do fundo do coração. Muitos de meus pacientes afirmam que
“não querem mais”, “chega de querer e esperar”, e na verdade, lá no cantinho de
si mesmos, continuam com a esperança de que estejam enganados, o que querem
ainda vai acontecer.
- agir, empenhar-se, correr
riscos. Tomar a decisão de “ir atrás” do desejado não quer dizer que se vai
obtê-lo. Acredito que a coragem de arriscar, agir “no escuro”, é proporcional à
força do interesse, ao valor do que é desejado. Se eu acho que mudar de emprego
não vai melhorar mesmo a minha vida, se terminar um casamento é bobagem porque
“toda mulher (ou homem) é igual”, escolho ficar onde estou. Correr riscos também implica na valorização
de si mesmo. É muito difícil querer algo, continuar a busca pelo desejado,
se a pessoa não acredita que, de fato, tem o direito natural de conseguir.
Muitas vezes as pessoas dizem querer muito o objeto do desejo, mas…
contando com a sorte, com Deus, com o Universo, com a força de espíritos. Tudo
bem, contanto que os considere como uma ajuda, um estímulo. E não abram mão de
seu empenho e ação pessoais. A ajuda é pedida, mas não é garantida.
Nenhum desses dois caminhos é certo ou errado. O importante é consultar o coração, fazer um contato profundo com o
desejo em questão, sem medo. E escolher um caminho.
Sei que não é fácil. Embora tenha descoberto que quero realizar
trabalhos em grupo, a concretização deste desejo depende da superação de muitos
obstáculos – entre estes obstáculos está obter a ajuda de colegas e de outros
profissionais. O fundamental nesse processo é você – assim como aconteceu
comigo – ter consciência do seu desejo, ter contato com os sentimentos nele
envolvidos e escolher o caminho de ação.

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