terça-feira, 3 de junho de 2014

Desejo e Reflexão

Quando me mostro aborrecida ou triste, alguns amigos me dizem: “olha, não esqueça do quanto você é privilegiada…” É um comentário para me ajudar, para que eu não me perca das tantas coisas boas que tenho na vida. Moro num lugar belíssimo, cercada de árvores, plantas, flores e montanhas. Próxima da cidade de Petrópolis — com seus casarões antigos e sua imponência imperial — e do distrito de Itaipava, cheio de comidinhas gostosas, de pessoas calorosas, de calma. Vivo com um homem inteligente e amoroso, muitas vezes difícil de me relacionar, mas sempre solidário e criativo nas suas ideias.
E aí?
Estou vivendo um momento no qual é bem claro uma coisa que muitas vezes aponto para meus clientes de psicoterapia: não adianta estar vivendo uma vida privilegiada — sejam quais forem os critérios que se use para essa avaliação — se você não tem algo que muito deseja ou necessite. Penso sempre em Marilyn Monroe, uma linda mulher, desejada por tantos homens no planeta, admirada e mesmo invejada pelas mulheres, rica, talentosa como personagem de cinema. E que se suicidou. Ou o estilista inglês Alexander McQueen, tão pleno do reconhecimento profissional, milionário e que se suicidou. Como pode, pensamos nós?

Bom, eu sei como pode: não adianta ter tantos bens materiais, ou mesmo afeto de família e amigos, amor do ente amado. Quando a pessoa não vive o que deseja, o vazio que se instala é enorme. O objeto do desejo passa a ocupar um lugar enorme na vida. Mas não me refiro aqui ao desejo de algo material, de algo que se pode comprar.

Marilyn Monroe desejava amor, McQueen eu não sei. E eu? Sentia falta de um grupo de pessoas com as quais poderia trocar experiências e passar adiante a bagagem de conhecimentos que venho juntando ao longo do tempo.
Qual a solução?
Há dois caminhos:
- desistir do desejo e viver o luto, a tristeza pelo que não tem ou não vive. Contudo essa desistência tem de ser verdadeira, do fundo do coração. Muitos de meus pacientes afirmam que “não querem mais”, “chega de querer e esperar”, e na verdade, lá no cantinho de si mesmos, continuam com a esperança de que estejam enganados, o que querem ainda vai acontecer.
- agir, empenhar-se, correr riscos. Tomar a decisão de “ir atrás” do desejado não quer dizer que se vai obtê-lo. Acredito que a coragem de arriscar, agir “no escuro”, é proporcional à força do interesse, ao valor do que é desejado. Se eu acho que mudar de emprego não vai melhorar mesmo a minha vida, se terminar um casamento é bobagem porque “toda mulher (ou homem) é igual”, escolho ficar onde estou. Correr riscos também implica na valorização de si mesmo. É muito difícil querer algo, continuar a busca pelo desejado, se a pessoa não acredita que, de fato, tem o direito natural de conseguir.
Muitas vezes as pessoas dizem querer muito o objeto do desejo, mas… contando com a sorte, com Deus, com o Universo, com a força de espíritos. Tudo bem, contanto que os considere como uma ajuda, um estímulo. E não abram mão de seu empenho e ação pessoais. A ajuda é pedida, mas não é garantida.
Nenhum desses dois caminhos é certo ou errado. O importante é consultar o coração, fazer um contato profundo com o desejo em questão, sem medo. E escolher um caminho.
Sei que não é fácil. Embora tenha descoberto que quero realizar trabalhos em grupo, a concretização deste desejo depende da superação de muitos obstáculos – entre estes obstáculos está obter a ajuda de colegas e de outros profissionais. O fundamental nesse processo é você – assim como aconteceu comigo – ter consciência do seu desejo, ter contato com os sentimentos nele envolvidos e escolher o caminho de ação.

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