quinta-feira, 19 de junho de 2014

Arrumando velhas caixas de papeis

Nunca termino de limpar caixas e gavetas, de descobrir uma papelada obsoleta, de encontrar cartas, projetos de cursos, trabalhos realizados, lembranças de amigos e de amores. Por mais que de tempos em tempos eu jogue fora uma tonelada disso tudo, parece que tais coisas se reproduzem no calorzinho das caixas e pacotes velhos.

O fato é que hoje encontrei algo que escrevi há anos atrás e que eu não tinha a menor idéia de por onde andava. É um pequeno artigo, publicado no caderno Ideias, do Jornal do Brasil, em 1991. Nossa! Há 23 anos atrás! Como gosto muito do que eu disse então, como ainda hoje me reconheço no que escrevi com paixão, decidi colocar o artigo aqui no blog.

Uma personagem da escritora americana respondia à famosa frase de Freud “O que querem as mulheres?”
É este o artigo:
Desafio de mudar o mundo

         “O que eu quero é mudar o mundo”, diz Dolores, personagem de Marilyn French no romance “O coração ferido”. Também tenho esse desejo. Tarefa titânica, dizem alguns; pretensão, afirmam outros. Nem uma coisa, nem outra. Por mais grandiosa e utópica que possa parecer, o processo de mudar o mundo está no reino do possível e inclui os pequenos gestos e atitudes. Frequentemente, esses gestos são socialmente desvalorizados. Se a pessoa que ousar fazê-los tiver sorte, será percebida como estando coberta do romantismo atrapalhado de um Don Quixote. Se não tiver, poderá ser taxada de “maluca”.
Essa foi a palavra que um guardador de carros usou para me atingir quando mostrei que o espaço que ele insistia em chamar de vaga era o único lugar que as pessoas tinham para atravessar a rua da praça no bairro em que moro. Faço um discurso para o homem que dirige um carro, outro para ele. Já pensei em desistir de atitudes desse tipo. Mas não consigo e, pensando bem, nem quero. Algumas vezes me sinto ridícula ou absurdamente inútil, outras vezes me sinto corajosa. Querer mudar o mundo me dá uma enorme energia para viver. E não tenho pressa.
Em um tempo em que as pessoas querem que tudo aconteça rápido e dê resultados prático-positivos, insisto em coordenar um grupo de psicólogos que buscam formação profissional sem tempo marcado para finalizá-la. Eles transformam o mundo ao brigar com a falta de dinheiro para comprar livros, a falta de tempo para estudar o suficiente, a dificuldade de locomoção (e sobrevivência!) na cidade, a complicação de lidar com as exigências e dilemas do próprio trabalho, e, até mesmo, enfrentar a pressão contínua para que abandonem o pensamento e a reflexão por alguma forma de esoterismo – uma prática rentável porque está na moda.
Quero mudar o que? Tudo. Tudo que cerceia os seres humanos no seu cotidiano. Da pobreza à incompreensão. Da injustiça social ao desrespeito pelos sentimentos. É muito, parece. Mas não desisto. Aceito o desafio e me coloco ao lado de todas as pessoas – conhecidas e desconhecidas – que desejam o mesmo e acreditam que mudar o mundo não precisa ser para amanhã, mas precisa ser todos os dias.


Vinte anos depois…

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