Nunca termino de limpar caixas e gavetas, de descobrir uma papelada
obsoleta, de encontrar cartas, projetos de cursos, trabalhos realizados,
lembranças de amigos e de amores. Por mais que de tempos em tempos eu jogue
fora uma tonelada disso tudo, parece que tais coisas se reproduzem no
calorzinho das caixas e pacotes velhos.
O fato é que hoje encontrei algo que escrevi há anos atrás e que eu não
tinha a menor idéia de por onde andava. É um pequeno artigo, publicado no
caderno Ideias, do Jornal do Brasil, em 1991. Nossa! Há 23 anos atrás! Como
gosto muito do que eu disse então, como ainda hoje me reconheço no que escrevi
com paixão, decidi colocar o artigo aqui no blog.
Uma personagem da escritora americana respondia à famosa frase de Freud
“O que querem as mulheres?”
É este o artigo:
Desafio de mudar o
mundo
“O que eu quero é mudar o mundo”, diz
Dolores, personagem de Marilyn French no romance “O coração ferido”. Também
tenho esse desejo. Tarefa titânica, dizem alguns; pretensão, afirmam outros.
Nem uma coisa, nem outra. Por mais grandiosa e utópica que possa parecer, o
processo de mudar o mundo está no reino do possível e inclui os pequenos gestos
e atitudes. Frequentemente, esses gestos são socialmente desvalorizados. Se a pessoa que ousar fazê-los tiver sorte,
será percebida como estando coberta do romantismo atrapalhado de um Don Quixote.
Se não tiver, poderá ser taxada de “maluca”.
Essa foi a palavra que um guardador de carros usou
para me atingir quando mostrei que o espaço que ele insistia em chamar de vaga era
o único lugar que as pessoas tinham para atravessar a rua da praça no bairro em
que moro. Faço um discurso para o homem que dirige um carro, outro para ele. Já
pensei em desistir de atitudes desse tipo. Mas não consigo e, pensando bem, nem
quero. Algumas vezes me sinto ridícula
ou absurdamente inútil, outras vezes me sinto corajosa. Querer mudar o mundo me
dá uma enorme energia para viver. E não tenho pressa.
Em um tempo em que as pessoas querem que tudo
aconteça rápido e dê resultados prático-positivos, insisto em coordenar um
grupo de psicólogos que buscam formação profissional sem tempo marcado para
finalizá-la. Eles transformam o mundo ao brigar com a falta de dinheiro para
comprar livros, a falta de tempo para estudar o suficiente, a dificuldade de
locomoção (e sobrevivência!) na cidade, a complicação de lidar com as exigências
e dilemas do próprio trabalho, e, até mesmo, enfrentar a pressão contínua para
que abandonem o pensamento e a reflexão por alguma forma de esoterismo – uma
prática rentável porque está na moda.
Quero mudar o que? Tudo. Tudo que cerceia os seres
humanos no seu cotidiano. Da pobreza à incompreensão. Da injustiça social ao
desrespeito pelos sentimentos. É muito, parece. Mas não desisto. Aceito o
desafio e me coloco ao lado de todas as pessoas – conhecidas e desconhecidas –
que desejam o mesmo e acreditam que mudar o mundo não precisa ser para amanhã,
mas precisa ser todos os dias.
Vinte anos depois…

Um gota no oceano provoca tsunamis. :)
ResponderExcluirÓtimo texto, doutora!