sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Uma Notícia em Psicologia: A PSICOTERAPIA TAO

Participei da Convenção Anual da American Psychological Association da qual sou um membro internacional. Mais uma vez me surpreendi com a grandiosidade de tudo que lá acontece e aparece: o número de apresentações de trabalhos, a variedade de temas, a exibição de publicações, DVDs, testes de vários tipos de avaliação psicológica, filmes com temas de interesse específico para os profissionais, encontros informais para network, sessões de posters feitos principalmente por jovens psicólogos doutorandos de todo o país. De um tudo.
Entre tantas palestras e painéis, fui assistir ao que chamava “Conversation hour: Intersubjectivity and Human Existence – a Dialogue of Emotional Worlds and Dasein.
Como minha formação em psicoterapia é baseada na filosofia existencial, fui correndo procurar o local – o que não era fácil empreitada. O edifício para convenções era gigantesco, enormes corredores atapetados, salas de teto altíssimo, alas “embutidas” nos corredores.
Conheci então um dos trabalhos que mais me intrigou: a palestra do psicólogo Dr. Erik Craig (nos EUA só recebem a denominação de psicólogo os que têm doutorado). Ao final de sua apresentação fui cumprimentá-lo. Disse que eu era brasileira e gostaria de receber uma cópia de seu trabalho. Seu tema era muito original e pouco conhecido em meu país. Na mesma hora entregou-me um exemplar do artigo já publicado, em 2007, na revista The Humanistic Psychologist:

Tao Psychotherapy: Introducing a New Approach to Humanistic Practice.
O texto narra como Craig conheceu o psiquiatra coreano Dr. Rhee Dongshick e a abordagem psicoterápica que Dongshick denominou Psicoterapia Tao. E o que é Psicoterapia Tao?
Transcrevo o resumo oferecido por Craig:
“A Psicoterapia Tao é fundamentalmente uma abordagem humanista profunda na psicoterapia. Ela é psicodinâmica e interessada com os conflitos e sofrimentos humanos, e ao mesmo tempo é essencialmente transcendental, transpessoal, ou espiritual. Como a Daseinanalyse no ocidente, a Psicoterapia Tao oferece um fundamento filosófico (i.e., ético, epistemológico e ontológico) para a psicologia e psicoterapia.” (p.124)
Embora tenha influência da Daseinanalytic de Martin Heidegger e de várias abordagens da psicoterapia profunda do ocidente, principalmente da Daseinanalyse de Medard Boss e da Psicanálise – ela busca sua fonte originária no Taoísmo e no Budismo Mahayana.

As quatro principais ênfases da Psicoterapia Tao são:
1. O desenvolvimento da personalidade do psicoterapeuta a partir tanto da psicoterapia profunda ocidental quanto do pensamento e prática oriental que têm como foco o esvaziamento e purificação da mente. Craig identifica aqui uma aproximação com a prática da redução fenomenológica de Husserl.
2. A afinação empática (este termo é muito próximo àstimmung de Heidegger e, por aí, minha afinação com a proposta de Craig e Rhee) e a compaixão do terapeuta com o paciente e suas vivências.
3. A ênfase nas “emoções nucleares” – denominação dada por Rhee Dongshick – que, resumidamente, abrangem os complexos afetivos e emocionais originados na infância e que constituem uma influência motivacional por toda a vida.
4. O valor insubstituível na psicoterapia da experiência vivida (Erlebnis). Isto significa que o terapeuta deliberadamente evita interpretações intelectuais em favor da apreensão direta do vivido pelo paciente (este também é um ponto central na abordagem terapêutica fenomenológica-existencial).

A psicoterapia Tao privilegia a utilização de mitos culturais e alegorias e não acredita que o terapeuta deve dar especial importância a específicos métodos e técnicas. “Ser”, e não “fazer”, é o centro/coração desta terapia.

Finalizando este breve resumo, assinalo a correspondência que Craig faz da noção de nada ou vazio, aspecto central tanto do Taoísmo e Budismo, com a do nada em Heidegger. “O Tao é um vazio em espiral”, “o eterno não-ser” diz o Tao Te Ching (Chen, 1989).

Mas isso não indica um nihilismo filosófico. Ao contrário. O vazio ou o nada é a experiência mais pregnante. Dele co-nascem (expressão usada por Thich Nhat Hanh) o mundo e todos os entes nele. O vazio é a experiência fundamental, grávida da possibilidade do indivíduo alcançar o Satori, a iluminação. Em termos existenciais, a autenticidade e o “deixar ser” de todas as coisas, a “abertura para o mistério” (expressão usada por Heidegger no texto “Gelassenheit”,1959).


Enfim, meu contato com este texto sobre a Psicoterapia Tao me faz apreciar, uma vez mais, a beleza e importância da integração do mundo oriental com o nosso e a aceitação da diferença como abertura para a ampliação de nossa visão de mundo. Tudo isso reforça minha convicção de que um bom terapeuta “traz a Primavera para a terra gelada do paciente”, como disse o Dr. Rhee em feitio de koan.

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