Participei da Convenção Anual da American Psychological Association da
qual sou um membro internacional. Mais uma vez me surpreendi com a grandiosidade
de tudo que lá acontece e aparece: o número de apresentações de trabalhos, a
variedade de temas, a exibição de publicações, DVDs, testes de vários tipos de
avaliação psicológica, filmes com temas de interesse específico para os
profissionais, encontros informais para network, sessões de posters feitos
principalmente por jovens psicólogos doutorandos de todo o país. De um tudo.
Entre tantas palestras e painéis, fui assistir ao que chamava “Conversation
hour: Intersubjectivity and Human Existence – a Dialogue of Emotional Worlds
and Dasein.
Como minha formação em psicoterapia é baseada na filosofia existencial,
fui correndo procurar o local – o que não era fácil empreitada. O edifício para
convenções era gigantesco, enormes corredores atapetados, salas de teto
altíssimo, alas “embutidas” nos corredores.
Conheci então um dos trabalhos que mais
me intrigou: a palestra do psicólogo Dr. Erik Craig (nos EUA só recebem a
denominação de psicólogo os que têm doutorado). Ao final de sua apresentação
fui cumprimentá-lo. Disse que eu era brasileira e gostaria de receber uma cópia
de seu trabalho. Seu tema era muito original e pouco conhecido em meu país. Na
mesma hora entregou-me um exemplar do artigo já publicado, em 2007, na
revista The Humanistic Psychologist:
Tao Psychotherapy: Introducing a New Approach to
Humanistic Practice.
O texto narra como Craig conheceu o psiquiatra coreano Dr. Rhee
Dongshick e a abordagem psicoterápica que Dongshick denominou Psicoterapia Tao. E o que é Psicoterapia Tao?
Transcrevo o resumo oferecido por Craig:
“A Psicoterapia Tao é
fundamentalmente uma abordagem humanista profunda na psicoterapia. Ela é
psicodinâmica e interessada com os conflitos e sofrimentos humanos, e ao mesmo
tempo é essencialmente transcendental, transpessoal, ou espiritual. Como a
Daseinanalyse no ocidente, a Psicoterapia Tao oferece um fundamento filosófico
(i.e., ético, epistemológico e ontológico) para a psicologia e psicoterapia.”
(p.124)
Embora tenha influência da Daseinanalytic de Martin
Heidegger e de várias abordagens da psicoterapia profunda do ocidente,
principalmente da Daseinanalyse de Medard Boss e da
Psicanálise – ela busca sua fonte originária no Taoísmo e no Budismo Mahayana.
As quatro principais ênfases da Psicoterapia Tao são:
1. O desenvolvimento da personalidade do psicoterapeuta a partir
tanto da psicoterapia profunda ocidental quanto do pensamento e prática
oriental que têm como foco o esvaziamento e purificação da mente. Craig
identifica aqui uma aproximação com a prática da redução fenomenológica de
Husserl.
2. A afinação empática (este termo é muito próximo àstimmung de
Heidegger e, por aí, minha afinação com a proposta de Craig e Rhee) e a
compaixão do terapeuta com o paciente e suas vivências.
3. A ênfase nas “emoções nucleares” – denominação dada por Rhee
Dongshick – que, resumidamente, abrangem os complexos afetivos e emocionais
originados na infância e que constituem uma influência motivacional por toda a
vida.
4. O valor insubstituível na psicoterapia da experiência vivida (Erlebnis).
Isto significa que o terapeuta deliberadamente evita interpretações
intelectuais em favor da apreensão direta do vivido pelo paciente (este também
é um ponto central na abordagem terapêutica fenomenológica-existencial).
A psicoterapia Tao privilegia a utilização de mitos culturais e
alegorias e não acredita que o terapeuta deve dar especial importância a
específicos métodos e técnicas. “Ser”, e
não “fazer”, é o centro/coração desta terapia.
Finalizando este breve resumo, assinalo a correspondência que Craig faz
da noção de nada ou vazio, aspecto central tanto do Taoísmo e Budismo, com a do
nada em Heidegger. “O Tao é um vazio em espiral”, “o eterno não-ser” diz
o Tao Te Ching (Chen, 1989).
Mas isso não indica um nihilismo filosófico. Ao contrário. O vazio ou o nada
é a experiência mais pregnante. Dele co-nascem (expressão usada por Thich Nhat
Hanh) o mundo e todos os entes nele. O vazio é a experiência fundamental,
grávida da possibilidade do indivíduo alcançar o Satori, a
iluminação. Em termos existenciais, a autenticidade e o “deixar ser” de
todas as coisas, a “abertura para o mistério” (expressão usada por
Heidegger no texto “Gelassenheit”,1959).
Enfim, meu contato com este texto sobre a Psicoterapia Tao me faz
apreciar, uma vez mais, a beleza e importância da integração do mundo oriental
com o nosso e a aceitação da diferença como abertura para a ampliação de nossa
visão de mundo. Tudo isso reforça minha convicção de que um bom terapeuta “traz
a Primavera para a terra gelada do paciente”, como disse o Dr. Rhee em feitio
de koan.
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