Sempre me intriga observar como
muitas pessoas discutem calorosamente sobre seu gosto por uma coisa ou outra e
como isso acontece em relação às coisas mais banais da vida. Outro dia ouvi a
conversa de duas amigas que gastaram minutos e minutos exaltando as qualidades
de seu adoçante preferido e rejeitando o preferido pela outra. Se o tema é mais complexo, aí é que a
discussão se prolonga, a emoção se intensifica e a preferência ou gosto
torna-se uma arma de batalha.
O que me chama a atenção é o esforço
que se faz para convencer o interlocutor, como se fosse necessário manter sua
posição a qualquer preço, não importa o valor do que se discute. “Marcar a
diferença” é sinônimo de forma sobre o outro? E é isso que faz sentir-se
melhor?
O que será que está em questão?
Claro que há teorias que servem
para tudo explicar. Por exemplo, a que afirma a necessidade humana de se sentir
enraizado, ligado ao que lhe é familiar. Outra que aponta o sentimento de
segurança advindo de o indivíduo se sentir “o mesmo” em todas as
circunstâncias, para viver uma identidade, para não se desorganizar
mentalmente. Algo que poderia se formular assim: “se eu digo e sinto sempre o
mesmo em relação às coisas da vida, então sou um ‘eu’ firme e seguro” ou “se
defendo com muita energia o que penso, então sou forte.”
Uma consequência devastadora desta atitude de cultivo da mesmice é a
discriminação do que é diferente, do que não se “encaixa” nos modelos, opiniões
e preferências de cada um. Certa vez um rapaz, entrevistado na televisão
sobre o tema do homossexualismo, comentou com muito humor: “As pessoas
discriminam tanto o que é diferente que até a tampa do pão de fôrma rejeitam.”
A aceitação do que lhe é
diferente, a possibilidade de lidar com um comportamento distinto do seu, a
abertura para o que lhe é desconhecido, constituem um desafio que poderá trazer
uma diversidade de experiências que proporcionarão encantamento, surpresa,
curiosidade ou até medo. Não há garantias. Mas se percebermos que o diferente pode se somar ao que somos, ou temos, e
nos tornar menos existencialmente provincianos, aumentará muito o ganho de
riqueza na vida e generosidade com os demais. Porque penso que provinciano
não é próprio, necessariamente, dos indivíduos que moram na província, na
cidade pequena. É um atributo que podemos dar àqueles que vivem encapsulados,
limitados a um mundo estreito, plenos de certezas e opiniões imutáveis – essa é
a conotação existencial do termo. E eles podem viver em metrópolis.

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