Desde Galileu,
bem no início do século XVI, nós começamos a ser orientados na busca do
conhecimento pela ta Máthema – a Matemática, em grego. Galileu foi um herói de nossa história
ocidental. Pela primeira vez houve um
rompimento com as ideias da igreja cristã que quase lhe custou a vida. Como
podia contestar que o sol não girava em torno da Terra? Como ousar dizer que o
céu não era perfeito, que todos os astros não eram compostos pelo éter? Galileu
construiu telescópios, mediu distâncias nunca antes exploradas, analisou o
movimento da Terra e dos astros e... chegou à conclusão de que a verdadeira
linguagem da natureza é a matemática.
O que isso tem a
ver com nossa vida cotidiana, essa que tanto nos importa e tanto nos inquieta?
Duas reflexões nos aparecem: a primeira fala desta
herança, radicalizada pelo filósofo francês Descartes, de que só é verdadeiro o
que pode ser medido, o que é matematizável. Tudo que apreendemos pela
imaginação, pelo sonho, pela percepção dos sentidos, é ilusório, porque muda no
tempo e no espaço. Mas o que se traduz em uma fórmula ou equação é perene,
portanto válido. Esta “verdade suprema” até hoje domina nossas vidas. Quando,
por exemplo, alguém acredita que apenas tomando um remédio – uma fórmula
química – encontrará a solução para seus males do corpo e da alma (mente?
psique?) está sendo fiel à Galileu , à
Descartes e à ciência moderna que deles deriva. Quando os médicos lidam
com seu paciente como se ele fosse uma máquina desarranjada, ou mesmo quando
sendo um especialista no tratamento de uma parte do corpo físico desconsidera
que esta parte pertence a um sujeito – estão reproduzindo, saibam ou não, os
ensinamentos de Galileu e Descartes.
Quando o conhecimento se origina tão longe
no tempo e se constitui como base de um poder social – como aconteceu na
ciência e na medicina – é muito difícil mudar a visão de mundo de médicos e
cientistas. A abertura para o novo, a
experimentação realizada segundo outros paradigmas, a apreensão do indivíduo
humano como uma unidade de corporeidade e consciência (sem hierarquia do que é
“superior” e “inferior”) é difícil, mas creio, inexorável. Assim como impérios
dominam grande parte do planeta e, pouco a pouco, se desmoronam, outros se
constituindo e ocupando seu lugar, também modelos de pensar e agir se
transformam a partir da emergência de conhecimentos novos e da gradual
obsolescência dos que até então prevalecem.
Galileu nunca
será esquecido, sua rebeldia em relação aos teólogos da Inquisição, a afirmação
da ta Máthema como método de conhecimento necessário para transcender os
dogmas bíblicos, fazem dele um modelo para cientistas (como os da Física
Quântica) e profissionais, (como os da Psicologia) que afirmam contra o modelo de ciência vigente:
1.
a inclusão da
subjetividade em toda forma de investigação;
2.
o lugar de domínio da
matemática nas ciências naturais, mas não em todas as áreas do
conhecimento e
3.
a consideração de que as emoções, os sentimentos, as
percepções e os afetos dos seres humanos não são um estorvo, mas aspectos da
realidade que enriquecem o conhecimento e ultrapassam as limitações da
matemática e suas derivações, como a tecnologia.
Devemos gratidão eterna a Galileu
e Descartes, mas não uma eterna submissão.


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