sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

Ta Máthema


Desde Galileu, bem no início do século XVI, nós começamos a ser orientados na busca do conhecimento pela ta Máthema – a Matemática, em grego.  Galileu foi um herói de nossa história ocidental.  Pela primeira vez houve um rompimento com as ideias da igreja cristã que quase lhe custou a vida. Como podia contestar que o sol não girava em torno da Terra? Como ousar dizer que o céu não era perfeito, que todos os astros não eram compostos pelo éter? Galileu construiu telescópios, mediu distâncias nunca antes exploradas, analisou o movimento da Terra e dos astros e... chegou à conclusão de que a verdadeira linguagem da natureza é a matemática.

O que isso tem a ver com nossa vida cotidiana, essa que tanto nos importa e tanto nos inquieta?

Duas reflexões nos aparecem: a primeira fala desta herança, radicalizada pelo filósofo francês Descartes, de que só é verdadeiro o que pode ser medido, o que é matematizável. Tudo que apreendemos pela imaginação, pelo sonho, pela percepção dos sentidos, é ilusório, porque muda no tempo e no espaço. Mas o que se traduz em uma fórmula ou equação é perene, portanto válido. Esta “verdade suprema” até hoje domina nossas vidas. Quando, por exemplo, alguém acredita que apenas tomando um remédio – uma fórmula química – encontrará a solução para seus males do corpo e da alma (mente? psique?) está sendo fiel à Galileu , à  Descartes e à ciência moderna que deles deriva. Quando os médicos lidam com seu paciente como se ele fosse uma máquina desarranjada, ou mesmo quando sendo um especialista no tratamento de uma parte do corpo físico desconsidera que esta parte pertence a um sujeito – estão reproduzindo, saibam ou não, os ensinamentos de Galileu e Descartes.

Quando o conhecimento se origina tão longe no tempo e se constitui como base de um poder social – como aconteceu na ciência e na medicina – é muito difícil mudar a visão de mundo de médicos e cientistas.  A abertura para o novo, a experimentação realizada segundo outros paradigmas, a apreensão do indivíduo humano como uma unidade de corporeidade e consciência (sem hierarquia do que é “superior” e “inferior”) é difícil, mas creio, inexorável. Assim como impérios dominam grande parte do planeta e, pouco a pouco, se desmoronam, outros se constituindo e ocupando seu lugar, também modelos de pensar e agir se transformam a partir da emergência de conhecimentos novos e da gradual obsolescência dos que até então prevalecem.

Galileu nunca será esquecido, sua rebeldia em relação aos teólogos da Inquisição, a afirmação da ta Máthema como método de conhecimento necessário para transcender os dogmas bíblicos, fazem dele um modelo para cientistas (como os da Física Quântica) e profissionais, (como os da Psicologia)  que afirmam contra o modelo de ciência vigente:

1.      a inclusão  da subjetividade em toda forma de investigação;
2.      o lugar de domínio da  matemática nas ciências naturais, mas não em todas as áreas do conhecimento e
3.      a consideração de que as emoções, os sentimentos, as percepções e os afetos dos seres humanos não são um estorvo, mas aspectos da realidade que enriquecem o conhecimento e ultrapassam as limitações da matemática e suas derivações, como a tecnologia.


Devemos gratidão eterna a Galileu e Descartes, mas não uma eterna submissão.

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