Tantas vezes pensamos: “Puxa, bem que eu poderia ter nascido em um país
melhor. Como é difícil viver aqui: não tenho oportunidade de crescer, de me
desenvolver e de ganhar dinheiro fazendo o que gosto e sei fazer”. Mas não
paramos aí. Vamos em frente e lamentamos a falta de boas oportunidades profissionais,
o desconforto da casa em que vivemos – uma melhor custa tão caro e não posso
pagar! –, a “má sorte” de ter nascido em uma família que não nos proporcionou
os meios para frequentarmos um excelente colégio, um clube maneiro, as aulas
dessas coisas que ajudam a encontrar um bom trabalho. Enfim, é muito comum – e,
em certo sentido, muito fácil – queixarmo-nos do que devia ter sido e não foi,
de termos como “herança pessoal” um país com características que não desejamos,
uma sociedade que nos desagrada e uma família cheia de limitações e defeitos.
Tudo isso que nos faz ressentidos e paralisados.
E o que isso tem a ver com a Austrália?
Um documentário sobre esse país distante, apresentado por um canal da tv
a cabo, me surpreendeu. É uma nação admirável, sob vários aspectos: a
diversidade étnica e cultural da população, a convivência harmoniosa de crenças
e religiões diferentes, a natureza selvagem e, em grande parte, árida, exigindo
do governo e da comunidade um empenho que outros países podem dispensar por
serem ricos em recursos naturais. Enfim, um país que tem se desenvolvido as
custas de muito trabalho, do cuidado com a educação do povo, da valorização das
pessoas – até diria pessoas preciosas, por serem poucas em proporção à vastidão
de seu território.
Mas ainda não é bem isso o que mais me chamou a atenção e que se
relaciona com o que eu contava antes.
Lá pelas tantas, o narrador do documentário afirmou: “os australianos
consideram que a origem do país é um fator de liberdade e criatividade de sua
população.” Como assim? A Austrália foi “fundada” por sujeitos indesejáveis na
corte britânica: ladrões, homicidas, assaltantes. Mas os australianos acreditam
que essa realidade fez com que eles começassem a existir como nação, a partir
do “zero” – pelos menos de um ponto de vista que seria “politicamente correto”.
Como se considerassem que, com essa origem populacional “tão ruim”, qualquer
coisa que construíssem seria melhor. E mais, não tinham compromisso com
tradições, modos de vida que deviam se perpetuar, rígidas classes sociais a
manter, costumes e valores a preservar. Como se o país se dissesse: “posso
criar a partir do que descobrirmos na convivência, no tempo presente e futuro”.
Não havia compromisso com o passado, afinal… E na medida em que essas idéias ou
fundamentos eram colocados e assumidos, abriam-se no horizonte de sua
existência possibilidades que quase nenhum outro país teve. Porque não foi
apenas a realidade “negativa” de sua origem que resultou na liberdade e na
criatividade de que fala o narrador do documentário, e, sim, o fato de
plenamente assumi-la e, de alguma forma, afirmar: “tudo bem, foi assim, vamos
usar essa realidade para criarmos um país único, para sermos livres na
construção de uma riqueza própria, sem modelos prévios que nos aprisionem”.
Como psicóloga, foi inevitável pensar: a experiência histórica da
Austrália pode também existir no plano da vida das pessoas. É possível perceber
e avaliar toda a “tralha” cultural, social e familiar que herdamos por outro
prisma. Ela nos pertence faz parte da nossa história, querendo ou não, é o
patrimônio que nos foi dado. Mas a vida é mais do que isso. Ela pode ser
inaugurada e re-inaugurada quantas vezes quisermos. Podemos mudar o presente e,
a partir dessa mudança, transformar o futuro. Se um povo pôde criar uma nação a
partir de sua “tralha” histórica, nós podemos fazer o mesmo com a nossa
história individual. E isso é de uma beleza vertiginosa. Quanto compromisso
inútil desaparece. Quanto ressentimento e amargura deixam de ter razão de ser.
Quanta abertura para o novo, para a criação de uma vida como obra pessoal e
a-causal, indeterminada e livre.
Nenhum comentário:
Postar um comentário