sexta-feira, 4 de outubro de 2013

A Austrália em nós

Tantas vezes pensamos: “Puxa, bem que eu poderia ter nascido em um país melhor. Como é difícil viver aqui: não tenho oportunidade de crescer, de me desenvolver e de ganhar dinheiro fazendo o que gosto e sei fazer”. Mas não paramos aí. Vamos em frente e lamentamos a falta de boas oportunidades profissionais, o desconforto da casa em que vivemos – uma melhor custa tão caro e não posso pagar! –, a “má sorte” de ter nascido em uma família que não nos proporcionou os meios para frequentarmos um excelente colégio, um clube maneiro, as aulas dessas coisas que ajudam a encontrar um bom trabalho. Enfim, é muito comum – e, em certo sentido, muito fácil – queixarmo-nos do que devia ter sido e não foi, de termos como “herança pessoal” um país com características que não desejamos, uma sociedade que nos desagrada e uma família cheia de limitações e defeitos. Tudo isso que nos faz ressentidos e paralisados.

E o que isso tem a ver com a Austrália?

Um documentário sobre esse país distante, apresentado por um canal da tv a cabo, me surpreendeu. É uma nação admirável, sob vários aspectos: a diversidade étnica e cultural da população, a convivência harmoniosa de crenças e religiões diferentes, a natureza selvagem e, em grande parte, árida, exigindo do governo e da comunidade um empenho que outros países podem dispensar por serem ricos em recursos naturais. Enfim, um país que tem se desenvolvido as custas de muito trabalho, do cuidado com a educação do povo, da valorização das pessoas – até diria pessoas preciosas, por serem poucas em proporção à vastidão de seu território.

Mas ainda não é bem isso o que mais me chamou a atenção e que se relaciona com o que eu contava antes.

Lá pelas tantas, o narrador do documentário afirmou: “os australianos consideram que a origem do país é um fator de liberdade e criatividade de sua população.” Como assim? A Austrália foi “fundada” por sujeitos indesejáveis na corte britânica: ladrões, homicidas, assaltantes. Mas os australianos acreditam que essa realidade fez com que eles começassem a existir como nação, a partir do “zero” – pelos menos de um ponto de vista que seria “politicamente correto”. Como se considerassem que, com essa origem populacional “tão ruim”, qualquer coisa que construíssem seria melhor. E mais, não tinham compromisso com tradições, modos de vida que deviam se perpetuar, rígidas classes sociais a manter, costumes e valores a preservar. Como se o país se dissesse: “posso criar a partir do que descobrirmos na convivência, no tempo presente e futuro”. Não havia compromisso com o passado, afinal… E na medida em que essas idéias ou fundamentos eram colocados e assumidos, abriam-se no horizonte de sua existência possibilidades que quase nenhum outro país teve. Porque não foi apenas a realidade “negativa” de sua origem que resultou na liberdade e na criatividade de que fala o narrador do documentário, e, sim, o fato de plenamente assumi-la e, de alguma forma, afirmar: “tudo bem, foi assim, vamos usar essa realidade para criarmos um país único, para sermos livres na construção de uma riqueza própria, sem modelos prévios que nos aprisionem”.


Como psicóloga, foi inevitável pensar: a experiência histórica da Austrália pode também existir no plano da vida das pessoas. É possível perceber e avaliar toda a “tralha” cultural, social e familiar que herdamos por outro prisma. Ela nos pertence faz parte da nossa história, querendo ou não, é o patrimônio que nos foi dado. Mas a vida é mais do que isso. Ela pode ser inaugurada e re-inaugurada quantas vezes quisermos. Podemos mudar o presente e, a partir dessa mudança, transformar o futuro. Se um povo pôde criar uma nação a partir de sua “tralha” histórica, nós podemos fazer o mesmo com a nossa história individual. E isso é de uma beleza vertiginosa. Quanto compromisso inútil desaparece. Quanto ressentimento e amargura deixam de ter razão de ser. Quanta abertura para o novo, para a criação de uma vida como obra pessoal e a-causal, indeterminada e livre.

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