Não há um consenso sobre a definição de saúde mental.
Alguns psicólogos e psiquiatras a escrevem em termos negativos como: ausência
de sintomas que interferem significativamente com o sentimento de bem-estar ou
com a capacidade de lidar com as exigências cotidianas da vida. Um pouco
simples, não? Outros preferem termos positivos, como flexibilidade para lidar
com o stress, habilidade para desenvolver relacionamentos construtivos com
outras pessoas e sentir-se bem consigo mesmo. Parece um tanto melhor.
Estas afirmações dão alguma indicação sobre saúde
mental, mas são muito vagas. Outra forma de buscar conceituá-la é bastante
perigosa: identificar a saúde mental com “normalidade” ou “ajustamento”. Acontece
que a noção de normalidade só é significativa estatisticamente. Fora desse
campo, não quer dizer muito. Até recentemente a homossexualidade era
considerada uma anormalidade, uma doença mental (e social!). Sabemos como essa
classificação induziu sofrimento a milhares de pessoas no mundo.
O mesmo é verdade quando se identifica saúde mental
com ajustamento ou adequação social e familiar. Quantos artistas ou pessoas
criativas no seu modo de viver – que não têm os mesmos padrões da maioria, que
escolhem modos de vida alternativos aos da maioria – são considerados
“desviantes” (forma branda do diagnóstico de doença mental?).
Como então tratar do tema? Não sei responder de modo
tão amplo ou profundo que inclua tudo que já foi dito ou que ainda resta dizer.
Gosto de pensar junto com os que me cercam, então deixo aqui dois comentários
aguardando os seus:
1 - Creio que é importante ter um olhar, uma apreciação, da
condição humana que seja abrangente. Saúde mental não é sinônimo de tranquilidade,
de ausência de conflitos e problemas. Viver buscando preencher expectativas da
sociedade, da família e das instituições não é sinônimo de saúde mental, mesmo
que isso dê muito prazer ou traga recompensas. “Torna-te quem tu és” frase
paradigmática de Nietzsche, e “Conhece-te a ti mesmo” de Sócrates – continuam
sendo referências da sabedoria ocidental que podem orientar a harmonia de ser
(melhor modo de dizer “saúde mental”).
2 - Mente e corpo são entrelaçados, expressão do filósofo francês
Merleau-Ponty que orienta o meu trabalho. O que acontece no “coração” – as emoções,
os sentimentos e afetos – atuam em todas as experiências de vida. Uma
perturbação fisiológica (por exemplo, a hipertensão, a enxaqueca, a simples
diarréia) repercute na sua concentração mental, no seu humor, no seu modo de
relacionar-se com o outro. Tanto a Psicologia Clínica quanto a Neurociência nos
levam a afirmar que não é mais possível falar, com veracidade, de “saúde mental”,
mas apenas de “saúde”.
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