Quando eu dava aulas no curso de formação de
psicoterapeutas do Movimento Aletheia – instituição fundada por um grupo de
psicólogos e médicos e coordenada por mim –, os alunos costumavam me perguntar:
“e depois de Heidegger, Husserl, Sartre, Merleau-Ponty, Wittgenstein, o que
aconteceu com a filosofia?” Estávamos nos anos 1990 e eu costumava dizer que
não havia mais filósofos com a mesma dimensão intelectual e social daqueles.
Achava que não era apenas uma questão de não existir pessoas que pudessem
pensar com o mesmo brilho e profundidade, mas que não havia mais lugar para
elas. Como assim? Eu pensava então que a filosofia havia perdido o lugar de
balizamento, de referência, para se pensar e agir no mundo.
[Nessas
aulas eu me lembrava de minha adolescência e das conversas intermináveis com
amigos na esquina da casa de minha avó, em Vassouras, sobre o que era viver, o
que valia a pena fazer na vida, como era difícil viver o amor, o que era a
liberdade e como aproveitá-la para mudar o mundo...]
Lembro-me de dizer que ainda podíamos falar do trabalho de Edgar Morin, das tentativas de Richard Rorty de “ventilar” o pensamento de Heidegger pelo pragmatismo, e de Althusser, de Deleuze e Derrida na França competindo por um lugar na academia e na mídia. Mas nada se comparava com os “grandes” do século. Com certa tristeza, dizia: “acho que a economia tomou o lugar da filosofia. Só se pensa a realidade em termos econômicos e até a política – tão indissolúvel da economia – agora se encontra em um ‘lugar menor’”.
Lembro-me de dizer que ainda podíamos falar do trabalho de Edgar Morin, das tentativas de Richard Rorty de “ventilar” o pensamento de Heidegger pelo pragmatismo, e de Althusser, de Deleuze e Derrida na França competindo por um lugar na academia e na mídia. Mas nada se comparava com os “grandes” do século. Com certa tristeza, dizia: “acho que a economia tomou o lugar da filosofia. Só se pensa a realidade em termos econômicos e até a política – tão indissolúvel da economia – agora se encontra em um ‘lugar menor’”.
De lá
para cá me parece que houve uma aceleração do processo de prevalência do poder
da ordem e da prática econômica, e bem próximo, o domínio extremo da sua “irmã
menor”, a finança.
Mas por
que estou eu a pensar nisso? Por causa do meu espanto quando leio as notícias
sobre os países europeus e os EUA. O meu espanto por ler, com todas as letras,
sobre a total falta de pudor (pudor? Esta expressão soa antiga, ultrapassada,
mas é a que me ocorre) de presidentes, ministros, nomeados ou eleitos líderes,
que explicitam em sua fala a submissão aos “mercados”. Se as consequências
desse fato não fossem trágicas, seria visível a ênfase constante em comentários
do tipo “o mercado estava de mau-humor”, o “mercado ficou satisfeito” com a
medida tal do governo X. Ou o “alívio” do primeiro-ministro com a aceitação
pelo mercado das medidas governamentais que implementou. Ou acompanhar o
presidente francês, Nicolas Sarkozy, preocupado em fazer descer goela abaixo
dos sindicatos e da população as medidas de contenção fiscal e assim
neutralizar o golpe do rebaixamento da nota dada a seu país por uma agência de
classificação. Países ricos de tudo, como Espanha e Itália, agora são liderados
por tecnocratas para melhor atender às tais agências. A epítome da preocupação
do primeiro-ministro espanhol, diz O Globo, é “a aprovação do novo
tratado (de estabilização econômica da União Europeia) que se tornou sua
prioridade política” .
E
em O Estado de S. Paulo de 16/01/2012 está: “A sucessão de
declarações e de anúncios dos líderes políticos no fim de semana foi uma
tentativa de tranquilizar os mercados financeiros”.
Isso
pode?
Como
minha visão de mundo é muito impregnada por meu trabalho como psicóloga e
psicoterapeuta, logo faço uma relação dessa realidade com a vida das pessoas.
Os governos dos países da Europa e dos Estados Unidos (e o Brasil e a América
Latina não estão de todo excluídos) perderam a autonomia. No limite, até
podemos dizer que perderam uma parte de sua soberania – não de modo formal, mas
olhando da perspectiva individual, talvez da perspectiva do povo, e da minha
própria perspectiva. Se “a gente” vê o nosso governo submisso a uma entidade sem
rosto, discutindo incessantemente as finanças, as dívidas, os pagamentos a
serem feitos, as estatísticas de produção e vendas, a competição entre as
moedas, et caterva, não é possível respeitá-lo. Mais ainda: se o
governo de um país não tem autonomia, independência e liberdade para tomar
decisões quanto à sua trajetória, acontece o mesmo que ocorre com uma pessoa:
ele é frágil porque dependente, porque a base de sua ação está fora dele – não
só fora, como até alienada dele.
Às
vezes a família de um paciente o oprime sob o pretexto de que ele, (ou ela), é
doente e não pode tomar decisões por conta própria. Não é o que acontece agora
com alguns países europeus? Na verdade, tanto as pessoas quanto os países só
florescem, só se desenvolvem, a partir de um caminho próprio, construído a
partir de suas próprias possibilidades, das trocas autênticas que realizam com
os demais. E solidariedade não é tutela.
Este
momento do mundo me (nos?) suscita raiva e tristeza.
Mas é
a partir desse mesmo lugar de psicoterapeuta que não posso deixar de pensar: a
mudança é possível. Nada permanece. Panta rei, disse Heráclito 2500
anos atrás. Pela via da revolta? Da indignação? Do voto? Ou quem sabe a partir
de um movimento nas camadas profundas do psiquismo – como muitos têm buscado
nos últimos anos: para alguns pelo caminho da reflexão, para outros pelo da
espiritualidade?

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