Graças a uma gentil
amiga, consegui entradas para assistir ao show do conjunto Escalandrum, em
Petrópolis. A noite estava fria, o inverno aqui é assim mesmo. (Uma chance de
usar casaco de lã, gola alta, meias grossas). Eu não tinha muita expectativa,
minha motivação principal era participar um pouco do Festival de Inverno da
cidade de um modo prazeiroso, já que gosto muito de tangos, especialmente das
composições de Astor Piazzola. E o líder do conjunto era nada menos que o neto
de Piazzola, Daniel. Será que isso queria dizer alguma coisa? Hum… sei não,
resmungava eu, desconfiada do “aproveitamento” do sobrenome famoso.
Chegamos ao teatro em
cima da hora. O trânsito em Petrópolis está cada dia mais intenso e confuso.
Mas encontrar a sala cheia de gente encasacada e elegante, muitas se
cumprimentando animadas, como acontece em toda cidade pequena, é muito
estimulante para mim, já que vivo bastante isolada, fora do centro.
Escalandrum é um
conjunto de seis músicos argentinos: um sax baixo, dois saxofones, piano, um
contrabaixo e Daniel Piazzola na bateria. Todas as músicas tocadas na noite
eram da autoria del nono. È… uma maravilha. A proposta do
conjunto é renovar os tangos dando-lhes um arranjo “jazzístico”. Assim escapam de ser “mais um” e escapam da crítica
possível de mero usufruto do sobrenome.
Gostei muito. Vibrei
com a intensidade de Oblivion, uma das músicas mais lindas e
melancólicas que conheço, com a malícia de Verano porteño, com
os arranjos que permitiram a criação de tangos renovados pela improvisação do
jazz, sem perder a marca das batidas originais do criador.
Mais uma vez me dei
conta de como é bom me sentir feliz, e que a felicidade mais uma vez se revela
como um encontro – breve? – com algo ou alguém que me permite viver o melhor de
mim mesma. Nessa noite, o prazer profundo do encontro com a música que me
apaixona há muito tempo e com a criatividade de alguém que se arriscou.
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