Abril é um mês lindo,
tanto no Rio quanto em Buenos Aires. Gosto de celebrar meu aniversário, sem me
importar (muito) com idade e velhice. Em 2011 decidi comemorar em Buenos Aires,
dessa vez alugando um estúdio e sem curtir a muvuca da proximidade com a Calle
Florida, a Paraguay, Santa Fé ou Esmeralda. O impecável apartamento ficava na
Recoleta, região que reúne os edifícios mais glamorosos que conheço. Passear
pelas ruas, entrar numa das muitas bonitas cafeterias para um capuccino com
medialuna é o programa turístico mais simples e delicioso que conheço. A luz
dos dias era brilhante, o ar transparente. A poluição do centro de Buenos Aires
é tão intensa que, em certas estações do ano sinto a garganta dolorida e a
respiração alterada. Mas o outono e a região da Recoleta foram uma combinação
inédita das tantas vezes que visitei a Argentina.
Também pela primeira
vez eu carregava uma máquina fotográfica, emprestada por minha prima. Eu estava
decidida a registrar em fotos as portas dos edifícios – uma das coisas que
admiro na cidade. Elas me falam da beleza e sobriedade que só a madeira confere
aos objetos. São portas antigas, com aldravas douradas. Não sei quase nada de
arquitetura, mas suponho que a maioria delas, como os prédios que anunciam data
da primeira metade do século XX. Não há porteiros nesses prédios. Para uma
carioca que vive cercada de entradas de vidro e porteiros vigilantes por toda
parte – há um ar de mistério nesses prédios de entradas herméticas.
Vivi muitas coisas
boas nessa viagem: assisti a um ballet no teatro Colón, agora remodelado, depois
de tantos anos enrolado em obras e disputas; visitei a Feira Internacional de
Livros na qual me perdi do meu marido. Muito tempo depois ele me encontrou,
enfurnada no stand árabe, interessada nas publicações do Centro Cultural
Islâmico e… nas tâmaras incrivelmente doces e macias, vindas da Arábia Saudita,
à disposição do público visitante. Por uma incrível coincidência de datas, pude
assistir ao workshop de Prem Rawat, (do qual já comentei). Eu tinha recebido
suas Técnicas do Conhecimento poucos meses antes. Como gosto de estar junto de
multidões, a experiência teve uma conotação existencial tão intensa quanto a
espiritual. Centenas de pessoas se reuniram para ouvi-lo, uma oportunidade e
tanto. Creio que um dos momentos mais sensorialmente prazerosos dessa estadia
em Buenos Aires foi o pequeno passeio por ruas que ligam a avenida Libertador
com a Figueroa Alcorta. Íamos visitar o MALBA – Museu da América Latina de
Buenos Aires – mas o dia estava tão luminoso que decidimos caminhar até lá. Foi
então que conheci essas ruas com suas imensas árvores e suas folhas douradas do
outono, de mansões antigas, várias inteiramente cobertas de hera, belíssimos
jardins, portões de ferro e… guaritas na porta. São muitas das embaixadas na
cidade. As fotos estão neste post.
Não é à toa que ao
perguntarem a um velho morador da cidade que visitava o Calafate:
- E então, como está
Buenos Aires? Ele respondeu, irônico: “Falta pouco para que todos falem
português…”



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