Trabalho como psicoterapeuta há muitos anos. Não canso de me surpreender
com o que acontece no processo de psicoterapia e o contraste com o que descubro
ser a percepção da maioria das pessoas sobre ele.
Sinto-me agora motivada a escrever sobre o tema depois de minha leitura
da entrevista de Marian Salzman para o jornal O Estado de São Paulo, no dia 11
de março de 2013. Ela é considerada “a mulher que vê o futuro”. Marian Salzman
é “especialista em prever tendências de comportamento”. Na sua contestação de
que tal atividade não é exatamente a de futuróloga, Ms. Salzman diz que não tem
poderes especiais para prever o futuro e revela algo que também é verdadeiro
para o meu trabalho de psicoterapia: a origem de suas “adivinhações”.
Algumas vezes as pessoas que me procuram profissionalmente, ou se
aproximam de mim em encontros sociais, comentam: a psicoterapia não é apenas
uma conversa? Não é um bate-papo mais sofisticado? Ou ainda: “ah, minha terapia
é fazer exercícios”, ou “minha terapia é conversar com meu filho” e tantas e
tantas outras atividades. Todas ótimas, sem dúvida. Mas…
O que há em comum entre a fala e experiência de Marian Salzman e a minha
de psicoterapeuta? A resposta que ela deu a seu entrevistador:
“Para fazer o que eu faço é preciso ter uma boa formação em
estatística, saber identificar e analisar padrões, determinar sua densidade e
sua velocidade. Também é preciso acompanhar as notícias, ter boa formação em
sociologia, antropologia e economia.”
Foi muito bom encontrar alguém que desvela o que tão pouco as pessoas
sabem sobre um trabalho que parece “mágico” ou banal por sua aparente
simplicidade. Porque o trabalho de psicoterapia é assim: o que parece uma
simples conversa, na verdade é um encontro incomparável entre duas pessoas e
requer, da psicoterapeuta, uma formação complexa envolvendo não apenas o
conhecimento de técnicas, de psicopatologia, de teorias – mas a integração
criteriosa de aportes da ciência, do desvelar próprio da filosofia e da
literatura, do que diz a antropologia e, mais recentemente, o que a
neurociência e a sabedoria do oriente nos trouxe – para só então poder
fundamentar o diálogo psicoterápico.

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