sexta-feira, 26 de setembro de 2014

Surpresas

Gosto de viver experiências que me surpreendem. De preferência boas, claro. Viajar para além de minha cidade costuma favorecê-las.

Ontem fui assistir ao concerto de dois mestres, no incrível teatro Colón, em Buenos Aires: Martha Argerich e Daniel Barenboim “tomados de la mano, puro afecto y complicidad”, como descreveu o jornal La Nación. Gente por todos os lados, sete níveis de poltronas, mais um montão em pé nas laterais da platéia. Confesso que me emocionei tanto com a beleza da música, o apuro das interpretações, dois pianos em harmonia perfeita, como com a alegria das pessoas, o entusiasmo pelo prazer renovado de ter os dois artistas de volta à sua cidade natal, eles que vivem há décadas em países europeus.

Pois bem, no dia seguinte, uma quarta-feira, estou em uma fila na calçada procurando seguir as instruções de meu amigo portenho que insistia para eu carregar um cartão que me permitiria andar nos ônibus sem me preocupar com moedas (necessárias sempre, porque não aceitam fazer troco). Eu tinha que inserir o tal cartão em uma máquina e fazer a operação de carregamento. Eis que o homem à minha frente começa a reclamar que a máquina não funciona. Repete a operação mais de uma vez. Nada. A velhinha atrás dele desiste. Eu continuo ali, não desisto fácil de nada... Faço, em voz alta, aquelas perguntas vazias: o que será que aconteceu? Tem jeito? Não dá mesmo? E eu que não tenho moedas, não dá pra pegar um ônibus, não é? E é assim que recebo, do senhor atrás de mim, o comentário convicto que não só me surpreendeu como, decididamente, me encantou: “Não se preocupe, não precisa de moeda nenhuma. As pessoas aqui são gentis e de boa vontade. Pode ir sem problema, o motorista não vai lhe cobrar nada.”


(E eu que nem precisava pegar ônibus. Estava apenas sendo obediente. Os táxis em Buenos Aires são baratíssimos). Duas surpresas distintas no seu significado e importância cultural, mas igualadas na minha admiração pelo humano deste mundo...

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