segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Como viver um momento difícil? A mítica do “isso passa”

Eu estava dirigindo o carro, na estrada União e Indústria, em Petrópolis, sexta-feira passada. Ia visitar uma pessoa muito querida em um dos hospitais da cidade. É meu amigo de longo tempo, está muito doente, precisa de um tratamento urgente. O caminho até o hospital era longo, demorado, porque impossível ultrapassar qualquer carro. Como sempre. Decidi falar sozinha. É meu jeito de me acalmar, de me dizer coisas que preciso ouvir para encontrar meu eixo. Falo alto, até grito quando preciso de ênfase.

E então me ouvi dizendo: vai passar, vai passar.

No instante seguinte: o que quer dizer “vai passar”? De que estou falando? O que eu sinto? Identifico que me percebo me consolando, me empurrando a ter fé, algum tipo de fé. Alguns instantes se passam.  Nada muda. Estou igual a quando a “conversa” começou. Encurto agora tudo que eu me disse, o tanto que falei da minha tristeza e preocupações, da raiva meio escondida, mas certamente presente. Sou prolixa, seria capaz de escrever muitos detalhes desinteressantes dessa longa conversa, mesmo que ela me seja importante.

O trânsito continuava infame, fiz uma pausa.
E aí me apareceu uma verdade que eu não conhecia, ou pelo menos, não que eu me lembre com essa formulação: “vai passar” é uma forma manca, distorcida, “otimista”, de uma realidade profunda: vai mudar. Claro! O velho Heráclito com seu panta rei (tudo flui) de volta pra mim! O budismo tibetano que me afirma incessantemente a impermanência! Fiquei contente. Como a verdade me faz bem. Então o verdadeiro sentido do “vai passar” é que o acontecimento de agora vai mudar, ele existe no presente, é assim que precisa ser vivido, em toda sua intensidade e eventual complexidade, mas só existe agora.

Claro que a mudança do que estou vivendo agora não traz consigo nenhuma outra certeza. Estou sofrendo, estou triste, meu amigo está muito doente. O que a mudança trará? Não sei. Não sei. Não quero e nem posso me apegar a antecipações positivas ou negativas. Imaginar agora que ele vai se tratar e logo ficar bom, ou que sua doença vai se agravar e vou perdê-lo – são falsas realidades, e por isso me fariam mal.

É difícil viver no presente. O cotidiano, na nossa cultura de urgências e controles, o onipresente medo, me pressionam a correr, ir adiante, prever, “me preparar”.

(Bem sei o quanto estes temas são recorrentes no meu trabalho como psicoterapeuta. O quanto preciso facilitar nas pessoas o aparecimento da chamada para viver o presente e, nesse mesmo processo, conseguir a compreensão e superação dos obstáculos para que isso aconteça ).

Chego ao pátio do hospital, me dou conta de como o dia está bonito, o céu tão azul nesse final de primavera. Estes momentos de auto-encontro me fazem bem, vejo que persisto na minha busca pela paz e grounding no momento presente.


Claro que até a próxima vez na estrada, até a próxima auto-conversa complicada... E tudo bem. A vida é assim, movimento, mudança, instabilidade, surpresas.


Nenhum comentário:

Postar um comentário