Eu
estava dirigindo o carro, na estrada União e Indústria, em Petrópolis,
sexta-feira passada. Ia visitar uma pessoa muito querida em um dos hospitais da
cidade. É meu amigo de longo tempo, está muito doente, precisa de um tratamento
urgente. O caminho até o hospital era longo, demorado, porque impossível
ultrapassar qualquer carro. Como sempre. Decidi falar sozinha. É meu jeito de
me acalmar, de me dizer coisas que preciso ouvir para encontrar meu eixo. Falo
alto, até grito quando preciso de ênfase.
E
então me ouvi dizendo: vai passar, vai passar.
No
instante seguinte: o que quer dizer “vai passar”? De que estou falando? O que
eu sinto? Identifico que me percebo me consolando, me empurrando a ter fé,
algum tipo de fé. Alguns instantes se passam.
Nada muda. Estou igual a quando a “conversa” começou. Encurto agora tudo
que eu me disse, o tanto que falei da minha tristeza e preocupações, da raiva
meio escondida, mas certamente presente. Sou prolixa, seria capaz de escrever
muitos detalhes desinteressantes dessa longa conversa, mesmo que ela me seja
importante.
E
aí me apareceu uma verdade que eu não conhecia, ou pelo menos, não que eu me
lembre com essa formulação: “vai passar” é uma forma manca, distorcida,
“otimista”, de uma realidade profunda: vai mudar. Claro! O velho Heráclito com
seu panta rei (tudo flui) de volta
pra mim! O budismo tibetano que me afirma incessantemente a impermanência!
Fiquei contente. Como a verdade me faz bem. Então o verdadeiro sentido do “vai
passar” é que o acontecimento de agora vai mudar, ele existe no presente, é
assim que precisa ser vivido, em toda sua intensidade e eventual complexidade,
mas só existe agora.
Claro que a mudança do
que estou vivendo agora não traz consigo nenhuma outra
certeza. Estou sofrendo, estou
triste, meu amigo está muito doente. O que a mudança trará? Não sei. Não sei.
Não quero e nem posso me apegar a antecipações positivas ou negativas. Imaginar
agora que ele vai se tratar e logo ficar bom, ou que sua doença vai se agravar
e vou perdê-lo – são falsas realidades, e por isso me fariam mal.
É
difícil viver no presente. O cotidiano, na nossa cultura de urgências e
controles, o onipresente medo, me pressionam a correr, ir adiante, prever, “me
preparar”.
(Bem sei o quanto estes temas são recorrentes
no meu trabalho como psicoterapeuta. O quanto preciso facilitar nas pessoas o aparecimento da chamada
para viver o presente e, nesse mesmo processo, conseguir a compreensão e
superação dos obstáculos para que isso aconteça ).
Chego
ao pátio do hospital, me dou conta de como o dia está bonito, o céu tão azul
nesse final de primavera. Estes momentos de auto-encontro me fazem bem, vejo
que persisto na minha busca pela paz e grounding
no momento presente.
Claro que até a próxima vez na estrada, até a
próxima auto-conversa complicada... E tudo bem. A vida é assim, movimento,
mudança, instabilidade, surpresas.

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