quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Itaipava: um distrito perturbador

Nasceu assim, perturbador, e não apenas por causa da expressão que lhe daria o nome – a tupi ita ipáua, que se refere à uma elevação de pedra – ou da definição encontrada nos dicionários: “itaipava é o recife que atravessa um rio de lado a lado provocando um desnivelamento da corrente”. Pensamos que esta origem etimológica está bem de acordo com o que, de algum modo, percebemos em nossa cidade de Petrópolis.

Como assim?        

Itaipava contrasta com a Petrópolis que existe no centro histórico. É um distrito “novidadeiro”, cheio de lugares e eventos inaugurados com festas e alarde que, muitas vezes, logo deixam de existir para dar lugar a outros. Enquanto o centro preza a tradição, a herança imperial, as belas casas e mansões, testemunhas de um passado rico e privilegiado, Itaipava, fazendo parte da cidade, não preza nada que existiu antes dele. A maioria de seus habitantes, e de seus numerosos visitantes, provavelmente pouco sabem – muito menos consideram – o passado histórico no qual o distrito se insere. Itaipava “provoca um desnivelamento da corrente” na medida em que busca, às vezes insensatamente, a novidade, o brilho da noite, as lojas caras, os produtos sofisticados que facilitam o “faz-de-conta...”. Ao mesmo tempo, por este mesmo processo, abre frentes novas de trabalho, empregando jovens estudantes e mulheres habilidosas e criativas no que produzem. Não tendo um passado ligado à nobreza, experimenta e muda, abre espaços e ousa até o mau-gosto.

Às vezes nos parece que “a cultura de Itaipava” irrita o morador de “Petrópolis”. Surgem as críticas à arquitetura de shoppings, aos altos preços do que é vendido. Os restaurantes, nos finais de semana, cheios de gente risonha, falante, “comprante”. Como se não existisse a pobreza (tão perto!), como se não existisse um déficit crônico de empregos, de escolas, de universidade. Petrópolis-centro tem sempre um olho no Rio de Janeiro: lá está tudo que existe de bom. Os frequentadores de Itaipava parecem muito felizes de poderem estar ali. Os que não moram, querem morar. Os que já lá estão, se deliciam com a diferença de seu anterior viver no Rio.  Mas será que Itaipava, distrito perturbador, não se constitui como a diferença que enriquece a cidade? Da mesma forma como é a diversidade de etnias, línguas, culturas e tradições que faz uma metrópole ser atraente e pujante? Quando tudo é igual, não nos sugere a mesmice da estagnação?  Quando nossas vidas não mudam, quando não conseguimos “inaugurar” comportamentos, atitudes, iniciativas, também a vida não se torna uma mesmice que desanima? E, ainda, não precisamos de nossos paradoxos e contradições, dos erros e dos enganos, das ilusões e esperanças vãs – nossos defeitos? –  para nos constituir como seres humanos mais ricos e inteiros?


O “desnivelamento da corrente” com o qual estamos identificando Itaipava é parte integrante da cidade de Petrópolis, como a pedra que altera o correr do rio é, ainda, parte dele. Podemos ter opiniões e sentimentos diversos e discrepantes em relação ao distrito, mas acreditamos ser importante considerá-lo como “nosso”. Uma parte de Petrópolis diferente, divertida, até pretensiosa, cheia de “estrangeiros” tolos ou interessantes, mas que inegavelmente contribui para a diversidade da cidade e, dessa forma, para o seu jeito único de ser entre todas do estado.

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Por que a psicologia é ciência e sabedoria?

Primeira Parte: Psicologia como ciência


Há décadas a Psicologia tenta se afirmar como uma ciência “igual às outras”. Psicólogos, sobretudo nos Estados Unidos, dedicam a maior parte de suas carreiras a executar experimentos em laboratórios que obedeçam aos parâmetros de ciência, ou seja, tratam de fatos, fenômenos mensuráveis, quantificáveis, e que podem ser replicados por outros cientistas em iguais condições. Penso que essa é uma tarefa inglória. Os fenômenos humanos são de tal complexidade, de tal diversidade, que a metodologia científica clássica nunca dará conta de apreendê-los tal como são. O que não quer dizer que os experimentos sejam inúteis. Está aí a neurociência e suas incríveis descobertas, muitas das quais reafirmam o que a clínica psicológica há muito conhecia. Com frequência, os experimentos e pesquisas empíricas servem para os psicólogos conseguirem financiamento para seus trabalhos, ou seja, garantirem um emprego, uma fonte de renda para sua atividade laboral, uma vez que as agências financiadoras valorizam, em maioria, pesquisas que consideram “científicas”. É preciso olhar para as consequências desse fato: as pesquisas científicas eventualmente conduzirão à descoberta de medicamentos – logo a indústria farmacêutica tem interesse nelas e as financiam. E as universidades precisam desses financiamentos para sustentarem seus departamentos de Psicologia.

Um outro ponto é a procura da “respeitabilidade” oferecida pela ciência. Se a Psicologia não pertence à área privilegiada da ciência, os profissionais que a ela se dedicam são de “segunda classe”, seus rendimentos financeiros pequenos, seu lugar na academia sempre precário, dependente de fundos universitários orientados muito mais para as pesquisas tecnológicas.

Por mais que todos os dias falemos da rapidez da informação, da “aceleração do tempo”, das mudanças incessantes trazidas pela tecnologia ao nosso cotidiano, há algumas  coisas neste mundo que demoram muito a mudar… Uma delas é a noção de ciência – e há tempos esta noção deveria ter sido ampliada. No começo do século XX, o matemático, e depois filósofo, Edmund Husserl estabeleceu um modelo para a ciência que se revelaria mais amplo do que o clássico, cartesiano, que nos rege hegemonicamente. Por que? Porque rompia com a dicotomia sujeito-objeto, consciência-corpo, com a pretensão de objetividade dela resultante, com seus critérios de verdade. A Fenomenologia postula que a relação do sujeito com o objeto é indissolúvel – portanto, não há uma objetividade que exclua o sujeito da experiência, de qualquer experiência, inclusive a de pesquisa de conhecimentos. A subjetividade está presente em tudo que se refere ao humano. Depois de Husserl, na década de 1920, Martin Heidegger, o filósofo alemão discípulo de Husserl, acrescentará: este sujeito é umDasein, um ser-no-mundo. Todo conhecimento advem de seres humanos que se inserem em um mundo (físico, social, cultural, biológico) do qual qualquer separação é artificial, construída/teórica. Como poeticamente descreveu Maurice Merleau-Ponty:

“Retornar às coisas mesmas é retornar a este mundo antes do conhecimento cujo conhecimento falasempre, e com respeito ao qual toda determinação científica é abstrata, representativa e dependente, como a geografia com relação à paisagem onde aprendemos primeiramente o que é uma floresta, um campo, um rio.”

A Fenomenologia não exclui as premissas e a atuação das ciências clássicas, mas deixou o legado do questionamento de sua hegemonia no campo do conhecimento e, principalmente, afirmou o sujeito como presente na elaboração de toda produção científica. “Presente” como interessado, situado em uma cultura, economicamente condicionado, influenciado por seus preconceitos e valores, inserido no seu tempo histórico. Não existe “pureza” científica, entendida, inclusive, como “objetividade” nas afirmações de verdade, neutralidade do cientista.

O que tudo isso nos revela?

A importância da valorização da Psicologia como ciência cujo paradigma não é o mesmo daquela inaugurada por Galileu e Descartes.

A consideração de que toda a realidade deve ser conhecida e investigada por meio de disciplinas múltiplas e integradas.+

A afirmação de que o sujeito humano não é um ser fragmentado em psique e soma, sujeito e mundo e, portanto, conhecê-lo e atuar nele e no mundo implica na adoção de princípios e métodos que respeitem estes entrelaçamentos.       

Continua…


sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Heidegger na Grécia

Minha formação como psicoterapeuta tem seu fundamento primeiro na obra “Ser e Tempo” do filósofo alemão Martin Heidegger. Desde então – lá se vão muitos anos – leio outros textos seus outros inspirados nele, comentários em revistas acadêmicas, literárias e outras.

Em uma viagem por Buenos Aires, encontrei num canto de prateleira de uma daquelas livrarias incríveis que só conheço por lá, um pequeno livro (55 páginas): a edição de um manuscrito que Heidegger escreveu durante sua primeira (e única?) viagem à Grécia. O título é “Estancias” - (acho que a melhor tradução do espanhol aqui é estadia, paragem). Acabo de lê-lo e me sinto envolvida pelo clima nostálgico (no bom sentido: o que traz um sentimento caloroso em relação a algo que já passou) do texto. Não só porque esta viagem de Heidegger aconteceu em 1962, mas porque ele insere constantemente alguns belos versos de Hölderlin, cita várias estrofes nas quais ecoa a paixão do poeta pela Grécia dos deuses e da beleza:

Mas onde os tronos, os templos, e onde os vasos,
Onde, cheio de néctar, o canto para satisfação dos deuses?
Onde, onde esplandecem eles, os oráculos que vão longe?
Delfos dorme, e onde ressoa o grande destino?
(de Pão e vinho, 4ª estrofe, trad. livre)

 E ainda:
“ilhas queridas, olhos do mundo encantado” (Lágrimas, 2ª estrofe)

O “livreto” é a narrativa de seu percurso por algumas ilhas gregas e uma pequena parada em Atenas. Descreve paisagens, a pobreza dos povoados, as ruínas de templos, a presença de turistas por todo lado fotografando, “despejando sua memória na imagem tecnicamente elaborada. Renunciam, sem se dar conta, à festa do pensar”. (p. 53)

Heidegger percorre as ilhas gregas de barco, junto com outros viajantes alemães, sempre com a questão: o que é o mais próprio, mais verdadeiro, da existência grega e de seu mundo? Só vai nos dar a resposta quando chega à ilha de Delos. A resposta é aletheia: “o aberto que se oferece a si mesmo, que alcança, delimita e tudo libera, que a todo o presente e ausente oferece chegada e momento, partida e falta” (p.36).

Claro que Heidegger não pode deixar de mencionar Heráclito, Parmênides, os gregos da Hélade que tanto o inspiraram ao longo de sua trajetória como o pensador mais denso e original do século XX. Foi em Delos que a viagem à Grécia se converteu em “estancia”, diz ele. E, mais uma vez, se dá conta do quanto nos afastamos da paragem grega, distinta do mundo tecnológico que modernamente dominou a Europa. Escreve ele neste seu “diário de bordo”: “Nós, seres humanos de hoje, parecemos expulsos de tal morada (grega), perdidos nas cadeias da planificação calculadora” (p.44)


Para mim foi uma experiência de encantamento acompanhar sua viagem, suas reflexões muitas vezes melancólicas, seu amor pelas origens gregas do pensamento, sua paixão pela verdade como desvelamento e ocultação (aletheia). E ao mesmo tempo re-encontrar o envolvimento profundo com a poesia de Hölderlin e toda a melancolia que ele revela pela perda do sagrado, do mundo grego e seus deuses alegres, irônicos, plenos de sensualidade e sabedoria.

*Ed. Pré-Textos/Ensayo , 2008, Valencia.

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Uma viagem a Buenos Aires

No final de 2009 fui a Buenos Aires e mais uma vez me deliciei com a arquitetura dos antigos edifícios do Barrio Norte, da Recoleta, do microcentro. As varandas de ferro, cheias de ornamentos, graciosas. Os jacarandás estão floridos, mesmo com o calor intenso. As flores começam a cair, cobrem o chão de lilás. É muito bom sentar-me em um dos inúmeros cafés e ver mulheres idosas, em grupos, que conversam animadas, tomando um “cortado” ou o gostoso e elaborado capuccino. Sempre me surpreendo com isso. Parecem mulheres independentes, amigas entre si, falam muito. Não vejo tanto esses grupos no Rio. Será por causa da violência na nossa cidade? Ou é mesmo um costume próprio das portenhas? O fato é que me encantam. 

Buenos Aires é mais uma daquelas cidades nas quais o melhor programa a fazer é mesmo  o das caminhadas. Para “esbarrar” em fantásticas livrarias ou apenas sentar em um Café, pedir um expresso acompanhado de medialuna, para descansar o corpo exausto.

Fui ver o filme do diretor argentino Campanella (El secreto de tus ojos), com meu ator favorito: Ricardo Darín. É MUITO bom. Vale a pena acompanhar seu possível aparecimento. Além de o roteiro ser primoroso, é bom ver a semelhança das personalidades de argentinos e brasileiros. Como sempre, prefiro pensar nas semelhanças do que nas diferenças entre nós. O mundo já tem diferenças e preconceitos demais para o meu gosto. E não é nada difícil encontrar nossas semelhanças latinas.

É verdade que como turista posso me deter nos prazeres estéticos e gastronômicos. A cidade é linda, a comida (tão barata!) excelente e variada nas suas origens (regional do país, francesa, tailandesa, japonesa e… a magnífica espanhola). Mas não é possível ignorar que a população (a amostra que encontrei me parece significativa) anda infeliz e crítica com a vida no país. Desconfiam muito dos atos do governo, queixam-se dos baixos salários, das dificuldades do viver cotidiano. Uma amiga contou-me que a minha área de trabalho – a psicoterapia – está mal. Outro dia ela viu uma psicóloga deixando seu cartão profissional nas mesas do restaurante no qual se encontrava. Fiquei perplexa. O famoso bairro de psicanalistas (“Villa Freud”) está esvaziado: muitos profissionais deixaram as salas de consultório para trabalhar em casa, outros não mais trabalham. Como aqui, as inúmeras faculdades particulares “despejam” formandos que não encontram trabalho ou não podem arcar com os altos custos envolvidos na manutenção da clínica em Psicologia.


Enfim, gosto muito de Buenos Aires, de apreciar o bom e acrescentar experiências que enriquecem minha visão de mundo. Tomara que elas também sirvam para eu contribuir positivamente na vida das pessoas com quem trabalho.

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Vou chamar a polícia e outras histórias de terapia e literatura

O livro do psiquiatra e escritor norte-americano Irvin Yalom, autor de “Quando Nietzsche chorou”, best seller mundial, “Vou chamar a polícia e outras histórias de terapia e literatura” é o título que mais uma vez senti o prazer de caminhar com o Dr. Yalom pelos meandros da existência humana e pela também misteriosa senda da criação literária. Não conheço outro psicoterapeuta que consiga escrever com tal leveza e profundidade – uma combinação rara – sobre os temas relacionados ao sofrimento humano e aos modos de enfrentamento dos difíceis dilemas que a vida nos impõe. No entanto, acho importante dizer, temos aqui no Brasil um terapeuta com a mesma envergadura de Yalom: João Augusto Pompéia, membro da Associação Brasileira de Daseinanalyse, sediada em São Paulo,  que aparece esporadicamente para o público e cuja arte de comunicação se dá pela palavra oral.

O que muito me impressiona no livro de Yalom (o mesmo acontece ao ouvir a fala de Guto Pompéia) é seu modo claro de expressar o que pensa sem perder de vista a complexidade do que o ocupa e, ainda, acrescentando a tudo isso  um profundo envolvimento emocional. Ufa! É uma invejável proeza nesse mundo de jargões e volteios de linguagem que muitos profissionais da Psicologia usam nos seus textos e palestras.

O livro de Yalom conta muito do seu trajeto profissional e de seu processo de criação literária. Como sempre, ele é franco e divertido. Sua proposta, como terapeuta existencial, é extremamente ousada: não somente ele “aposta” na relação terapeuta-paciente como o principal ingrediente da psicoterapia –  outras abordagens advogam o mesmo – como confere um extraordinário lugar à sinceridade e auto-exposição do terapeuta.  Ao descrever partes de um processo terapêutico, Yalom conta, com detalhes, suas dúvidas, incertezas e os riscos que decide correr.

Uma curiosidade me persegue: este livro, como vários outros do mesmo autor (“Mentiras no divã”, “Os desafios na terapia”, “O carrasco do amor”, “De frente para o sol”, “Mamãe e o sentido da vida”) será lido pelo público “em geral”, ou seja, por pessoas que não são profissionais da área da psicoterapia? O que buscam nele? O que encontram e faz com que comprem, seguidamente, os livros publicados? Afinal, não se tratam de obras de auto-ajuda ou para pessoas que buscam “sucesso”, boa saúde, melhores relações familiares. Todos eles falam do sofrimento humano, da enorme dificuldade para se estabelecer relacionamentos verdadeiros, para superar as limitações de doenças graves como o câncer, dos riscos de se viver a liberdade.


Se você leu algum dos livros de Yalom e tem uma sugestão do que responde à minha questão, por favor, escreva-me. Outras pessoas, até mesmo outros autores, podem aproveitar as suas idéias.

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

O que é a saúde mental?

Não há um consenso sobre a definição de saúde mental. Alguns psicólogos e psiquiatras a escrevem em termos negativos como: ausência de sintomas que interferem significativamente com o sentimento de bem-estar ou com a capacidade de lidar com as exigências cotidianas da vida. Um pouco simples, não? Outros preferem termos positivos, como flexibilidade para lidar com o stress, habilidade para desenvolver relacionamentos construtivos com outras pessoas e sentir-se bem consigo mesmo. Parece um tanto melhor.

Estas afirmações dão alguma indicação sobre saúde mental, mas são muito vagas. Outra forma de buscar conceituá-la é bastante perigosa: identificar a saúde mental com “normalidade” ou “ajustamento”. Acontece que a noção de normalidade só é significativa estatisticamente. Fora desse campo, não quer dizer muito. Até recentemente a homossexualidade era considerada uma anormalidade, uma doença mental (e social!). Sabemos como essa classificação induziu sofrimento a milhares de pessoas no mundo.

O mesmo é verdade quando se identifica saúde mental com ajustamento ou adequação social e familiar. Quantos artistas ou pessoas criativas no seu modo de viver – que não têm os mesmos padrões da maioria, que escolhem modos de vida alternativos aos da maioria – são considerados “desviantes” (forma branda do diagnóstico de doença mental?).

Como então tratar do tema? Não sei responder de modo tão amplo ou profundo que inclua tudo que já foi dito ou que ainda resta dizer. Gosto de pensar junto com os que me cercam, então deixo aqui dois comentários aguardando os seus:

1 - Creio que é importante ter um olhar, uma apreciação, da condição humana que seja abrangente. Saúde mental não é sinônimo de tranquilidade, de ausência de conflitos e problemas. Viver buscando preencher expectativas da sociedade, da família e das instituições não é sinônimo de saúde mental, mesmo que isso dê muito prazer ou traga recompensas. “Torna-te quem tu és” frase paradigmática de Nietzsche, e “Conhece-te a ti mesmo” de Sócrates – continuam sendo referências da sabedoria ocidental que podem orientar a harmonia de ser (melhor modo de dizer “saúde mental”).

2 - Mente e corpo são entrelaçados, expressão do filósofo francês Merleau-Ponty que orienta o meu trabalho. O que acontece no “coração” – as emoções, os sentimentos e afetos – atuam em todas as experiências de vida. Uma perturbação fisiológica (por exemplo, a hipertensão, a enxaqueca, a simples diarréia) repercute na sua concentração mental, no seu humor, no seu modo de relacionar-se com o outro. Tanto a Psicologia Clínica quanto a Neurociência nos levam a afirmar que não é mais possível falar, com veracidade, de “saúde mental”, mas apenas de “saúde”. 

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

A Austrália em nós

Tantas vezes pensamos: “Puxa, bem que eu poderia ter nascido em um país melhor. Como é difícil viver aqui: não tenho oportunidade de crescer, de me desenvolver e de ganhar dinheiro fazendo o que gosto e sei fazer”. Mas não paramos aí. Vamos em frente e lamentamos a falta de boas oportunidades profissionais, o desconforto da casa em que vivemos – uma melhor custa tão caro e não posso pagar! –, a “má sorte” de ter nascido em uma família que não nos proporcionou os meios para frequentarmos um excelente colégio, um clube maneiro, as aulas dessas coisas que ajudam a encontrar um bom trabalho. Enfim, é muito comum – e, em certo sentido, muito fácil – queixarmo-nos do que devia ter sido e não foi, de termos como “herança pessoal” um país com características que não desejamos, uma sociedade que nos desagrada e uma família cheia de limitações e defeitos. Tudo isso que nos faz ressentidos e paralisados.

E o que isso tem a ver com a Austrália?

Um documentário sobre esse país distante, apresentado por um canal da tv a cabo, me surpreendeu. É uma nação admirável, sob vários aspectos: a diversidade étnica e cultural da população, a convivência harmoniosa de crenças e religiões diferentes, a natureza selvagem e, em grande parte, árida, exigindo do governo e da comunidade um empenho que outros países podem dispensar por serem ricos em recursos naturais. Enfim, um país que tem se desenvolvido as custas de muito trabalho, do cuidado com a educação do povo, da valorização das pessoas – até diria pessoas preciosas, por serem poucas em proporção à vastidão de seu território.

Mas ainda não é bem isso o que mais me chamou a atenção e que se relaciona com o que eu contava antes.

Lá pelas tantas, o narrador do documentário afirmou: “os australianos consideram que a origem do país é um fator de liberdade e criatividade de sua população.” Como assim? A Austrália foi “fundada” por sujeitos indesejáveis na corte britânica: ladrões, homicidas, assaltantes. Mas os australianos acreditam que essa realidade fez com que eles começassem a existir como nação, a partir do “zero” – pelos menos de um ponto de vista que seria “politicamente correto”. Como se considerassem que, com essa origem populacional “tão ruim”, qualquer coisa que construíssem seria melhor. E mais, não tinham compromisso com tradições, modos de vida que deviam se perpetuar, rígidas classes sociais a manter, costumes e valores a preservar. Como se o país se dissesse: “posso criar a partir do que descobrirmos na convivência, no tempo presente e futuro”. Não havia compromisso com o passado, afinal… E na medida em que essas idéias ou fundamentos eram colocados e assumidos, abriam-se no horizonte de sua existência possibilidades que quase nenhum outro país teve. Porque não foi apenas a realidade “negativa” de sua origem que resultou na liberdade e na criatividade de que fala o narrador do documentário, e, sim, o fato de plenamente assumi-la e, de alguma forma, afirmar: “tudo bem, foi assim, vamos usar essa realidade para criarmos um país único, para sermos livres na construção de uma riqueza própria, sem modelos prévios que nos aprisionem”.


Como psicóloga, foi inevitável pensar: a experiência histórica da Austrália pode também existir no plano da vida das pessoas. É possível perceber e avaliar toda a “tralha” cultural, social e familiar que herdamos por outro prisma. Ela nos pertence faz parte da nossa história, querendo ou não, é o patrimônio que nos foi dado. Mas a vida é mais do que isso. Ela pode ser inaugurada e re-inaugurada quantas vezes quisermos. Podemos mudar o presente e, a partir dessa mudança, transformar o futuro. Se um povo pôde criar uma nação a partir de sua “tralha” histórica, nós podemos fazer o mesmo com a nossa história individual. E isso é de uma beleza vertiginosa. Quanto compromisso inútil desaparece. Quanto ressentimento e amargura deixam de ter razão de ser. Quanta abertura para o novo, para a criação de uma vida como obra pessoal e a-causal, indeterminada e livre.