Nasceu assim, perturbador, e não apenas
por causa da expressão que lhe daria o nome – a tupi ita ipáua, que se refere à uma elevação de pedra – ou da definição encontrada nos dicionários:
“itaipava é o recife que atravessa um rio de lado a lado provocando um
desnivelamento da corrente”. Pensamos que esta origem etimológica está bem de
acordo com o que, de algum modo, percebemos em nossa cidade de Petrópolis.
Como assim?
Itaipava contrasta com a Petrópolis que
existe no centro histórico. É um distrito “novidadeiro”, cheio de lugares e
eventos inaugurados com festas e alarde que, muitas vezes, logo deixam de
existir para dar lugar a outros. Enquanto o centro preza a tradição, a herança
imperial, as belas casas e mansões, testemunhas de um passado rico e
privilegiado, Itaipava, fazendo parte da cidade, não preza nada que existiu
antes dele. A maioria de seus habitantes, e de seus numerosos visitantes,
provavelmente pouco sabem – muito menos consideram – o passado histórico no
qual o distrito se insere. Itaipava “provoca um desnivelamento da corrente” na
medida em que busca, às vezes insensatamente, a novidade, o brilho da noite, as
lojas caras, os produtos sofisticados que facilitam o “faz-de-conta...”. Ao
mesmo tempo, por este mesmo processo, abre frentes novas de trabalho,
empregando jovens estudantes e mulheres habilidosas e criativas no que produzem.
Não tendo um passado ligado à nobreza, experimenta e muda, abre espaços e ousa
até o mau-gosto.
Às vezes nos parece que “a cultura de
Itaipava” irrita o morador de “Petrópolis”. Surgem as críticas à arquitetura de
shoppings, aos altos preços do que é vendido. Os restaurantes, nos finais de
semana, cheios de gente risonha, falante, “comprante”. Como se não existisse a
pobreza (tão perto!), como se não existisse um déficit crônico de empregos, de
escolas, de universidade. Petrópolis-centro tem sempre um olho no Rio de
Janeiro: lá está tudo que existe de bom. Os frequentadores de Itaipava parecem
muito felizes de poderem estar ali. Os que não moram, querem morar. Os que já
lá estão, se deliciam com a diferença de seu anterior viver no Rio. Mas será que Itaipava, distrito perturbador, não se constitui como a
diferença que enriquece a cidade? Da mesma forma como é a diversidade de
etnias, línguas, culturas e tradições que faz uma metrópole ser atraente e
pujante? Quando tudo é igual, não nos sugere a mesmice da estagnação? Quando nossas vidas não mudam, quando não conseguimos “inaugurar”
comportamentos, atitudes, iniciativas, também a vida não se torna uma mesmice
que desanima? E, ainda, não precisamos de nossos paradoxos e contradições, dos
erros e dos enganos, das ilusões e esperanças vãs – nossos defeitos? – para nos constituir como seres humanos mais ricos e inteiros?
O “desnivelamento da corrente” com o
qual estamos identificando Itaipava é parte integrante da cidade de Petrópolis,
como a pedra que altera o correr do rio é, ainda, parte dele. Podemos ter
opiniões e sentimentos diversos e discrepantes em relação ao distrito, mas
acreditamos ser importante considerá-lo como “nosso”. Uma parte de Petrópolis
diferente, divertida, até pretensiosa, cheia de “estrangeiros” tolos ou
interessantes, mas que inegavelmente contribui para a diversidade da cidade e,
dessa forma, para o seu jeito único de ser entre todas do estado.