Na vida, constantemente fazemos
descobertas a respeito de nós mesmos e de tudo o que nos rodeia. Às vezes,
essas descobertas vêm carregadas de prazer e de encantamento. Por exemplo,
quando nos enamoramos de alguém pela primeira vez. Tudo fica diferente! Somos
muito jovens, a emoção transborda, surge logo o desejo de contar para os amigos
o que está nos acontecendo e, disfarçadamente, até contamos para nossa mãe. Mas
essa linda experiência às vezes acontece às avessas: ela
aparece carregada de perplexidade e medo e angústia. Por que? Porque a pessoa
que o suscita é do nosso mesmo sexo.
Como psicoterapeuta, tenho partilhado esses
momentos, sobretudo com jovens e adolescentes. E como são sofridos! Como é
difícil sentir o que sentem, como é difícil lidar com uma realidade que
contraria o que aprenderam em casa, na família, na escola, no grupo social. A
primeira reação, em geral, é negar o que acontece. O susto de se perceber
atraída, ou atraído, por uma amiga ou colega, é “disfarçado” por “gosto muito
dela (dele)”. Ou apenas pelo desejo intenso de estar junto para conversar mais.
Quando, mais tarde, a atração erótica aparece mais nítida, quando a vontade de
tocar o outro, beijar e abraçar ficam inegáveis – aí começa também o sofrimento
e angústia. E agora? Não pode ser! Preciso esconder o que sinto? Posso não
esconder?
Não há então uma reação ou
comportamento únicos. Se alguns logo desistem de negar o que sentem e se
dispõem a viver seus sentimentos, outros permanecem relutantes, procuram se
convencer de que é algo passageiro e, até, que nada disso está acontecendo.
Muitas vezes o adolescente se percebe atraído(a) tambem por alguém do sexo
oposto. E isto é um enorme alívio. A possibilidade existe. E por que é tão
importante? Porque o sentimento de exclusão que acompanha a experiência do amor
e atração por alguém do mesmo sexo tem essa triste característica: o
adolescente, o jovem, sente-se diferente/errado, logo, excluído da “comunidade
dos normais”. Já não bastam as mudanças hormonais, as variações acentuadas no
desenvolvimento das funções cerebrais e das formas do corpo para que o
adolescente se sinta “à parte”. Se essas transformações são acompanhadas pela
inelutável atração por alguém do mesmo sexo, a crise passa a ser maior e mais
penosa.
O que fazer? Como se “livrar” dessa
experiência? Ou como ser quem se é e se querer bem, se prezar como ser humano?
Como viver dentro de sua cultura, mas não esmagado por ela?
Penso que “livrar-se de” não é a
verdadeira liberdade, indispensável para o desenvolvimento da personalidade. É
apenas uma fuga desesperada, como o é em outras situações de vida.
Fernando Pessoa e Friederich Nietzsche
disseram, com a força de veracidade que lhes era própria, a mesma coisa:
torna-te quem tu és.
É difícil? Sim, é muito difícil. Mas o
preço que pagamos quando nos deixamos levar por ideias preconceituosas do que é
certo e errado, quando fazemos concessões ao mundo que violentam nossos mais
íntimos e profundos sentimentos, quando nos negamos a seguir o coração… a vida
deixa de ser experimentada em toda a sua necessária plenitude.
Creio que é importante saber, mais uma vez, que nunca estamos sozinhos
nas experiencias que vivemos. O adolescente e a jovem homossexuais não
conseguem ter a dimensão deste fato, sentem-se isolados e diferentes. Mas
quanto mais tiverem clareza de quem são, do que sentem, e prezarem a si mesmos
mais do que a qualquer outra pessoa no mundo, mais possibilidade têm de
partilhar sua experiência com quem pode compreendê-los – por identificação ou
empatia – e prosseguirem assim sua trajetória de florescimento de suas
possibilidades afetivas e existenciais.
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