quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Não pode ser!

Na vida, constantemente fazemos descobertas a respeito de nós mesmos e de tudo o que nos rodeia. Às vezes, essas descobertas vêm carregadas de prazer e de encantamento. Por exemplo, quando nos enamoramos de alguém pela primeira vez. Tudo fica diferente! Somos muito jovens, a emoção transborda, surge logo o desejo de contar para os amigos o que está nos acontecendo e, disfarçadamente, até contamos para nossa mãe. Mas essa linda experiência às vezes acontece às avessas: ela aparece carregada de perplexidade e medo e angústia. Por que? Porque a pessoa que o suscita é do nosso mesmo sexo.

Como psicoterapeuta, tenho partilhado esses momentos, sobretudo com jovens e adolescentes. E como são sofridos! Como é difícil sentir o que sentem, como é difícil lidar com uma realidade que contraria o que aprenderam em casa, na família, na escola, no grupo social. A primeira reação, em geral, é negar o que acontece. O susto de se perceber atraída, ou atraído, por uma amiga ou colega, é “disfarçado” por “gosto muito dela (dele)”. Ou apenas pelo desejo intenso de estar junto para conversar mais. Quando, mais tarde, a atração erótica aparece mais nítida, quando a vontade de tocar o outro, beijar e abraçar ficam inegáveis – aí começa também o sofrimento e angústia. E agora? Não pode ser! Preciso esconder o que sinto? Posso não esconder?

Não há então uma reação ou comportamento únicos. Se alguns logo desistem de negar o que sentem e se dispõem a viver seus sentimentos, outros permanecem relutantes, procuram se convencer de que é algo passageiro e, até, que nada disso está acontecendo. Muitas vezes o adolescente se percebe atraído(a) tambem por alguém do sexo oposto. E isto é um enorme alívio. A possibilidade existe. E por que é tão importante? Porque o sentimento de exclusão que acompanha a experiência do amor e atração por alguém do mesmo sexo tem essa triste característica: o adolescente, o jovem, sente-se diferente/errado, logo, excluído da “comunidade dos normais”. Já não bastam as mudanças hormonais, as variações acentuadas no desenvolvimento das funções cerebrais e das formas do corpo para que o adolescente se sinta “à parte”. Se essas transformações são acompanhadas pela inelutável atração por alguém do mesmo sexo, a crise passa a ser maior e mais penosa.

O que fazer? Como se “livrar” dessa experiência? Ou como ser quem se é e se querer bem, se prezar como ser humano? Como viver dentro de sua cultura, mas não esmagado por ela?

Penso que “livrar-se de” não é a verdadeira liberdade, indispensável para o desenvolvimento da personalidade. É apenas uma fuga desesperada, como o é em outras situações de vida.

Fernando Pessoa e Friederich Nietzsche disseram, com a força de veracidade que lhes era própria, a mesma coisa: torna-te quem tu és.

É difícil? Sim, é muito difícil. Mas o preço que pagamos quando nos deixamos levar por ideias preconceituosas do que é certo e errado, quando fazemos concessões ao mundo que violentam nossos mais íntimos e profundos sentimentos, quando nos negamos a seguir o coração… a vida deixa de ser experimentada em toda a sua necessária plenitude.


Creio que é importante saber, mais uma vez, que nunca estamos sozinhos nas experiencias que vivemos. O adolescente e a jovem homossexuais não conseguem ter a dimensão deste fato, sentem-se isolados e diferentes. Mas quanto mais tiverem clareza de quem são, do que sentem, e prezarem a si mesmos mais do que a qualquer outra pessoa no mundo, mais possibilidade têm de partilhar sua experiência com quem pode compreendê-los – por identificação ou empatia – e prosseguirem assim sua trajetória de florescimento de suas possibilidades afetivas e existenciais.

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