Fico muito intrigada com o uso
constante que as pessoas fazem das expressões espiritual”, “espiritualidade”.
O que querem dizer? A que se referem? Estava pensando sobre isso quando
encontrei um pequeno livro, escrito em espanhol, tradução do francês, de um
texto em alemão de Martin Heidegger*. Ufa! Um caminho complicado para buscar
respostas…
Heidegger parte de uma linda estrofe de
Hölderlin (ele, outra vez…):
“Entre nós, tudo se concentra sobre o
espiritual, nos tornamos pobres para chegar a ser ricos”. (III,621)
Quando Heidegger se pergunta o quer dizer “espiritual” para Hölderlin,
ele vai primeiro buscar o significado da expressão na sua origem grega: pneuma, e no latim: spiritus. O “imaterial” é “espiritual”. “Isto quer dizer: o espírito é a força
eficiente da iluminação e da sabedoria; em grego,Sophia” (p.97). Essa tradição foi retomada, sobretudo depois de Descartes,
considerando o “espírito” como “consciência de si”, “sujeito”, “intelecto”,
“entendimento”. Heidegger rejeita essa compreensão moderna, volta-se para
Hölderlin tentando entender sua fala e encontra, num texto filosófico do poeta
um enigma que Heidegger, mais uma vez na sua trajetória, interpreta à sua
maneira:
“Nem o solo, nem os objetos que o
rodeiam podem fazer sentir ao homem que existe algo mais do que um
funcionamento mecânico, que. há um espírito, um deus no mundo, uma relação mais
viva com aquilo que [o]circunda, uma relação sublime que o eleva acima da necessidade”. (Da religião, III, 263)
Como Hölderlin não explicita o que é essa “relação sublime” do homem com
o espírito, Heidegger propõe interpretá-la como a relação do Ser (Seyn) com o homem, “de tal maneira que o Ser mesmo é essa relação, que
relaciona a si a essência do homem (…) e ao estar nela, a mantém sob sua guarda
e a habita. No Aberto (Offenen) desta relação do
Ser com a essência do homem fazemos a experiência do ‘espírito’ ”. (p.105).
E agora?
Essa me parece uma compreensão ímpar do “espiritual”. Não é clara como
estamos acostumados a buscar. Nada tem a ver com uma religião, com algum
espírito “desencarnado” ou transcendente. O espiritual, para Heidegger,
pertence ao âmbito da relação do ser humano com o Ser (não é possível
conceituar o Ser, sempre oculto, enigma, que só pode ser poetizado e no qual
não me detenho agora).
Algumas pessoas falam da espiritualidade como a experiência de contato
com o que nos circunda de modo amplo: a natureza ou o cosmos.
Parece-me que nessa questão eu não encontro uma “resposta definitiva”.
“O espiritual” continua sendo para mim algo de ambígua compreensão, porque tão
múltipla. Sei que não reconheço afirmações que denotam uma hierarquia: a
espiritualidade como uma etapa superior do “desenvolvimento da consciência” e,
portanto, do ser humano. As afirmações que falam de “etapas” ou “níveis” de
consciência – mais do que remeterem à concepção cartesiana de consciência como
razão e entendimento – estabelecem diferenças entre os seres humanos mais
“evoluídos” do que outros, porque mais “espirituais”. E não gosto nada dessas
hierarquias discriminadoras…
Uma outra dificuldade para a compreensão da “espiritualidade” é a
fronteira sutil entre “ela” e a religião. Muitas pessoas enfatizam: não são a
mesma coisa, a espiritualidade não se vincula, necessariamente, a uma religião.
Embora, claro, possa estar vinculada.
Por que tanto me intriga o atual cultivo do “espiritual”? Não rejeito a importância do envolvimento de cada um e de toda a comunidade humana com o que
transcende – no sentido de “estar além de” – a vida pessoal, material,
pragmática, egocêntrica. Mas rejeito a crença de que a vida cotidiana precisa de algo mais que não é ela para ter uma
grandeza, beleza ou valor. Ou precisa da sua validação pela existência de um
ser (ou seres) superior para encontrar o seu sentido.
E você, o que acha?
*La Pobreza (Die Armuf). Amorrortu, editores, Buenos Aires-Madrid, 2006.
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