segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

O marido brasileiro da escritora americana

Felipe vivia na Indonésia quando lá conheceu Elizabeth Gilbert, autora do livro Comer, Rezar, Amar – um best-seller já traduzido em 30 línguas. O encontro dos dois e o início do namoro aconteceram antes desse livro ser publicado. Por que eu o trouxe aqui? Dois motivos: primeiro o prazer simplório de saber de um brasileiro vivendo a experiência especial de ser o marido amado e admirado de uma escritora celebrada. Eu mesma estranho pensar isto. Mas é a verdade. O segundo motivo é encontrar no marido Felipe uma declaração de amor à Elizabeth que constitui uma aula de Psicologia. Simples, direta, cheia de sabedoria.

Felipe aparece no texto publicado pela revista Oprah Magazine, (janeiro 2010), em uma amostra do novo livro de Elizabeth Gilbert cujo título é Committed (Compromissada). O livro é uma “meditação sobre o casamento” e neste trecho publicado na revista a autora faz reflexões sobre si mesma, suas limitações nas relações amorosas, os “motivos” que a levam a amar Felipe, os “avisos” que deu a ele sobre seus defeitos mais perigosos em um relacionamento. Ele também fez a lista dele. Muito interessante. A franqueza dos dois é tocante, fala de um jeito de ser pouco frequente na nossa cultura latina, penso eu.

A declaração de amor à qual antes me referi foi feita em feitio de uma narrativa pessoal de Felipe. Depois de ter feito a sua lista de defeitos, Elizabeth pergunta se ele ainda a ama. Ele responde que sim. Como é que pode? Tanta “coisa ruim” ela falou de si mesma e… Felipe então conta que quando começou a negociar com pedras preciosas no Brasil ficava tão entusiasmado quando encontrava uma ou duas águas-marinhas em um pacote de pedras que lhe era oferecido para compra que não prestava atenção nas porcarias que vinham juntas no pacote. E se dava mal por causa disso. Até que finalmente aprendeu a ignorar as pedras perfeitas. Não devia nem olhar pra elas. Precisava colocá-las de lado e olhar cuidadosamente as pedras ruins. E só então se perguntar honestamente: posso trabalhar com estas? “É a mesma coisa com os relacionamentos”, diz ele. “As pessoas se apaixonam pelos aspectos mais perfeitos da personalidade do outro. Mas isso não é inteligente. A coisa mais inteligente é: você pode aceitar os defeitos? Você pode olhar honestamente para os defeitos de seu (sua) parceiro(a) e se perguntar: eu posso lidar com  isso?” Porque é muito fácil a gente se encantar com as qualidades do outro, seu brilho, seu charme especial para dizer ou fazer certas coisas. Quem não se encantaria? Mas aceitar, do fundo do coração, e não como mera concessão ou renúncia, os defeitos e chatices – ah, isso é outra coisa.

Enfim, o texto continua por aí afora. Mas gostei muito da analogia de Felipe. De um modo leve e, ao mesmo tempo, consistente, ele mostrou um aspecto dos relacionamentos amorosos que costumamos subestimar: olhar “o que não presta” do “pacote” que todos somos ajuda muito a construir uma convivência sólida, mas nem por isso necessariamente desprovida de brilho, humor, imaginação e encantamento.


Um comentário:

  1. Que beleza! Adorei :-), Tô aqui as voltas com minhas pedras que não prestam, as vezes as próprias pesam mais que as alheias! Gratidao e saudades!!!!

    ResponderExcluir