terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

O prazer de ler Doris Lessing

Acho que passei mais de quinze anos esperando o dia em que Doris Lessing ganharia o Premio Nobel de Literatura. Eu era bastante jovem quando li “O Carnê Dourado”, (The Golden Notebook), um dos livros mais marcantes de minha existência. Desde então li muitos outros e vasculhei livrarias em diferentes países à procura de suas obras mesmo quando ela já não era tão comentada em livros e revistas. Assisti a uma palestra sua em Nova York, num teatro distante cujo nome não lembro. Sua postura aristocrática — que só as pessoas com muita dignidade conseguem ter e que em nada se relaciona com dinheiro ou título de nobreza — me impressionou profundamente. Ela parecia muito calma, um tanto distante de tudo que acontecia a sua volta.

Muitos anos depois li os dois volumes de sua autobiografia. Como foi rica a sua vida! Como Lessing era existencialmente corajosa! Agora terminei de ler seu último livro — acredito eu, porque foi publicado em língua inglesa no ano de 2008 — traduzido para o português: Alfred e Emily. É um livro de ficção e de memórias, mas não dá para dizer que são entrelaçadas: são duas partes distintas. Mas o que me toca mais são as descrições de sua vida e família na Rodésia do Sul (Zimbábue). E mais do que isso, a maneira incisiva, cortante, irônica, direta e implacável com a qual fala da primeira e segunda guerras mundiais e as consequências nas vidas de seus pais e na sua própria.
Escreve ela:

“A guerra e o período imediatamente posterior a ela foram tempos ruins para todo mundo, mas, sobretudo para minha mãe. Hoje sabemos que a guerra chegou ao fim numa determinada data – que ela ocorreu entre 1939 e 1945 –, mas enquanto ela se arrastava não sabíamos disso, e ninguém previu o horror que seriam os anos de pós-guerra.” (p.254)

O entrelaçamento de sua (e da família) vida com os acontecimentos na África, fez do livro uma experiência única de prazer, tristeza e perplexidade. Pelo menos foi o que senti o tempo todo. Eu o li mais rapidamente do que costumo fazer. Em certos momentos, minhas identificações com ela com suas observações críticas em relação a sua infância me fizeram rir alto. Imagine! Uma passagem dessas foi:

“(…)Havia uma comoção em regra acontecendo. A menina uivava que não iria comer seu ovo e o menino fazia eco, dizendo que também não queria. ‘Eu não gosto de ovos escorregadios’, dizia a menina. Ao que papai retrucava: ‘Que vergonha danada. Você não quer comer ovos. Pense nas pobres crianças famintas da Índia’.” [negrito meu] (p.230)

Vivi exatamente isso inúmeras vezes, sendo que no meu caso as “crianças famintas” eram as do nordeste do Brasil. E de nada adiantava essa invocação. Eu não comia, mesmo me sentindo culpada pelo que era considerado “um desperdício”.

Ao mesmo tempo que Doris Lessing consegue ser cortante e até dura no uso da linguagem, é neste mesmo livro que existe uma descrição belíssima, poética e inesquecível: quando ela conta sobre o baú de roupas, sapatos e enfeites que a mãe trouxe da Pérsia e com os quais sonhava um dia usar, na volta para a Inglaterra:

“Estendi no chão um vestido de renda, de um tom verde-sálvia, de mangas compridas e, na frente, cobrindo um decote fundo em forma de V, um nadinha de chiffon rosado, ou um pedaço de tecido cor da pele. ‘Um vestido para o jantar’, sussurrou minha mãe. Um vestido para o jantar! As pessoas usavam roupas feitas especialmente para comer? ‘Para um jantar de gala, entende?’, comentou ela, naquela voz precipitada e seca de tanto segurar as lágrimas.” (p.202) 

E Doris vai tirando e descrevendo os preciosos detalhes das roupas, seus brilhos e bordados. Tudo entremeado pelo espanto e desapontamento de vê-los comidos por traças, despedaçados. A metáfora do “exílio” dos pais, da nostalgia da Grã-Bretanha idealizada.
O prazer renovado de ler Doris Lessing.*


* Livro Alfred e Emily, Ed. Companhia das Letras, SP, 2010

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