Acho que passei mais de quinze anos
esperando o dia em que Doris Lessing ganharia o Premio Nobel de Literatura. Eu
era bastante jovem quando li “O Carnê Dourado”, (The Golden Notebook), um dos
livros mais marcantes de minha existência. Desde então li muitos outros e
vasculhei livrarias em diferentes países à procura de suas obras mesmo quando
ela já não era tão comentada em livros e revistas. Assisti a uma palestra sua
em Nova York, num teatro distante cujo nome não lembro. Sua postura
aristocrática — que só as pessoas com muita dignidade conseguem ter e que em
nada se relaciona com dinheiro ou título de nobreza — me impressionou
profundamente. Ela parecia muito calma, um tanto distante de tudo que acontecia
a sua volta.
Muitos anos depois li os dois volumes
de sua autobiografia. Como foi rica a sua vida! Como Lessing era
existencialmente corajosa! Agora terminei de ler seu último livro — acredito
eu, porque foi publicado em língua inglesa no ano de 2008 — traduzido para o
português: Alfred e Emily. É um livro de ficção e de memórias, mas não dá para
dizer que são entrelaçadas: são duas partes distintas. Mas o que me toca mais
são as descrições de sua vida e família na Rodésia do Sul (Zimbábue). E mais do
que isso, a maneira incisiva, cortante, irônica, direta e implacável com a qual
fala da primeira e segunda guerras mundiais e as consequências nas vidas de
seus pais e na sua própria.
Escreve ela:
“A guerra e o período
imediatamente posterior a ela foram tempos ruins para todo mundo, mas,
sobretudo para minha mãe. Hoje sabemos que a guerra chegou ao fim numa
determinada data – que ela ocorreu entre 1939 e 1945 –, mas enquanto ela se
arrastava não sabíamos disso, e ninguém previu o horror que seriam os anos de
pós-guerra.” (p.254)
O entrelaçamento de sua (e da família)
vida com os acontecimentos na África, fez do livro uma experiência única de prazer,
tristeza e perplexidade. Pelo menos foi o que senti o tempo todo. Eu o li mais
rapidamente do que costumo fazer. Em certos momentos, minhas identificações com
ela com suas observações críticas em relação a sua infância me fizeram rir
alto. Imagine! Uma passagem dessas foi:
“(…)Havia uma comoção
em regra acontecendo. A menina uivava que não iria comer seu ovo e o menino
fazia eco, dizendo que também não queria. ‘Eu não gosto de ovos escorregadios’,
dizia a menina. Ao que papai retrucava: ‘Que vergonha danada. Você não quer
comer ovos. Pense nas pobres crianças
famintas da Índia’.” [negrito meu] (p.230)
Vivi exatamente isso inúmeras vezes,
sendo que no meu caso as “crianças famintas” eram as do nordeste do Brasil. E
de nada adiantava essa invocação. Eu não comia, mesmo me sentindo culpada pelo
que era considerado “um desperdício”.
Ao mesmo tempo que Doris Lessing consegue ser cortante e até dura no uso da
linguagem, é neste mesmo livro que existe uma descrição belíssima, poética
e inesquecível: quando ela conta sobre o baú de roupas, sapatos e enfeites que
a mãe trouxe da Pérsia e com os quais sonhava um dia usar, na volta para a
Inglaterra:
“Estendi no chão um vestido de renda,
de um tom verde-sálvia, de mangas compridas e, na frente, cobrindo um decote
fundo em forma de V, um nadinha de chiffon rosado, ou um pedaço de tecido cor da pele. ‘Um vestido para o jantar’,
sussurrou minha mãe. Um vestido para o jantar! As pessoas usavam roupas feitas
especialmente para comer? ‘Para um jantar de gala, entende?’, comentou ela,
naquela voz precipitada e seca de tanto segurar as lágrimas.” (p.202)
E Doris vai tirando e descrevendo os
preciosos detalhes das roupas, seus brilhos e bordados. Tudo entremeado pelo
espanto e desapontamento de vê-los comidos por traças, despedaçados. A metáfora
do “exílio” dos pais, da nostalgia da Grã-Bretanha idealizada.
O prazer renovado de ler Doris Lessing.*
* Livro Alfred e Emily, Ed. Companhia das Letras, SP, 2010
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