Ouvi José Saramago em uma entrevista na
televisão e durante muitos anos acompanhei seus livros e seus lúcidos
depoimentos na mídia. Sinto muita tristeza por saber de sua ausência, como pessoa
física, nos tempos que virão. Ficam os livros, as lembranças, sua sabedoria.
Tenho uma historinha sobre ele, muito pessoal. Amigos me incitavam a ter um
blog. Eu não acreditava que podia fazê-lo. O pouco que eu sabia sobre blogs não
combinava com o que eu poderia dizer, o que eu poderia escrever.
Nunca tinha lido nenhum, é verdade. Com
a minha conexão tão precária – por telefone, discada! – nem pensar… Falar sobre
o que fiz? Onde fui? Quem encontrei? Não fazia muito sentido. Até que li uma
entrevista do Saramago e nela havia o endereço do blog dele. Ah, quero
conhecer, pensei eu. Poucos dias depois consegui (esta é a expressão correta:
consegui, por estranho que pareça para quem tem uma conexão “normal”). E fiquei
encantada. Foi assim que mudei de idéia.
O que ele escreve é “escrevível” em um
blog? Comentários curtos e incisivos, tão inteligentes, tão bem escritos, tão
simples e profundos. Não mais consegui abrir outros blogs por um bom tempo. Mas
foi lendo o de Saramago que decidi que eu poderia ter um. Claro que NÃO estou
me comparando com ele. Nem pensar. Pudera eu ter um centésimo do seu talento.
Mas, de algum modo, ele me inspirou e me ajudou a ousar escrever. Pensando bem,
acabei fazendo como todo mundo, (com exceção dos jornalistas), que tem um blog:
escrevo sobre o que fiz, onde fui, quem encontrei. Um pouco mais enrolada e
prolixa, mas a mesma coisa que os outros.
Só não perco de vista a “consigna” de
Virginia Woolf: a importância de se falar com a própria voz.
Saramago disse que todos buscamos viver
melhor. Parece tão simples… Mas o simples não é fácil. Quantas pessoas encontro
em meu consultório que não sabem dizer o que é, para elas, viver melhor.

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