segunda-feira, 10 de março de 2014

Uma viagem II

Haveria muitas coisas para contar sobre a minha viagem à França. Mas duas ou três deixaram uma impressão marcante na minha vida. Nada a ver com a volta tumultuada por causa do vulcão na Islândia. Tive uma sorte incrível que me fez ponderar: nos próximos meses não vou me queixar de “falta de sorte”. Não tenho o direito… Pegar o último vôo que partiu de Paris, antes do fechamento do aeroporto, foi absurdamente bom.

Quarto em Arles
A primeira experiência marcante aconteceu em um vilarejo da Provence: Forcalquier. À noite, saímos a caminhar e procurar um lugar para comer. Vejo uma pequena igreja. A porta de entrada estava aberta, sugiro entrarmos para conhecê-la. Logo escutamos uma música incrível, linda. E poucos passos depois, lá estava, um grande coral de pessoas de idades muito distintas, uma pequena orquestra à frente, um jovem maestro. A música era o Réquiem de Mozart, emocionante, dramático e melancólico. Fiquei deslumbrada pela beleza e ineditismo de tudo isso. Era um ensaio para o que iria acontecer ali mesmo, no dia seguinte. Participar dele, acompanhar as interrupções e correções do maestro, o sorriso das pessoas, a troca de comentários engraçados (eu percebia pelos gestos e expressões do rosto), a entrada de quatro solistas cantantes… fiquei com a respiração acelerada, o coração batendo forte. Sorríamos, “abobalhados”. Nós aqui?

O ensaio acabou, não resistimos ir cumprimentar o maestro, falar de quão longe tínhamos vindo, de como estávamos gratos por ouvi-los. Ele também agradeceu sorridente, convidou-nos para o espetáculo do dia seguinte. Mas já estaríamos longe…

Outro momento de muita emoção – componente fundamental para fazê-lo inesquecível – foi a visita ao hospital psiquiátrico Saint-Paul, em Saint-Rémy-de-Provence. Um prédio velhinho, um tanto mal tratado, antecedido por fileiras de oliveiras, algumas outras árvores começando a florir. Era o início da primavera. Entramos no prédio (a parte liberada para visitas), subimos uma escada em curva e lá estava: o quarto que Van Gogh ocupou, do jeito que era então, durante um ano. Nossa! Tão despojado, tão modesto. A cama estreita, a famosa cadeira, um pequeno baú, algumas pinturas na parede. Só. E a janela. A mesma janela que emoldura paisagens e gentes que ele pintou. Também aí fiquei com a respiração acelerada, uma vontade de chorar. O jardim interno do hospital está igualzinho ao que Van Gogh pintou. As mesmas flores coloridas com as folhagens compondo um desenho geométrico.

Acho que viajar é isso. Não importa para qual lugar. O encontro com o passado, viver o não-esperado, maravilhar-se com a beleza de alguns seres humanos que redimem a montanha de tristeza e desapontamento que nos acompanha no cotidiano social e político do nosso tempo – tudo isso faz com que valha a pena o empenho necessário para pegar um avião, um trem, um ônibus, e ir ao encontro do que não nos é familiar e desafia nossa abertura e capacidade de olhar o mundo com o mesmo assombro que Platão nos ensinou a cultivar para melhor viver.


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