Haveria muitas coisas para contar sobre a minha viagem à França. Mas
duas ou três deixaram uma impressão marcante na minha vida. Nada a ver com a
volta tumultuada por causa do vulcão na Islândia. Tive uma sorte incrível que
me fez ponderar: nos próximos meses não vou me queixar de “falta de sorte”. Não
tenho o direito… Pegar o último vôo que partiu de Paris, antes do fechamento do
aeroporto, foi absurdamente bom.
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Quarto em Arles
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A primeira experiência marcante aconteceu em um vilarejo da Provence:
Forcalquier. À noite, saímos a caminhar e procurar um lugar para comer. Vejo uma
pequena igreja. A porta de entrada estava aberta, sugiro entrarmos para
conhecê-la. Logo escutamos uma música incrível, linda. E poucos passos depois,
lá estava, um grande coral de pessoas de idades muito distintas, uma pequena
orquestra à frente, um jovem maestro. A música era o Réquiem de Mozart,
emocionante, dramático e melancólico. Fiquei deslumbrada pela beleza e
ineditismo de tudo isso. Era um ensaio para o que iria acontecer ali mesmo, no
dia seguinte. Participar dele, acompanhar as interrupções e correções do
maestro, o sorriso das pessoas, a troca de comentários engraçados (eu percebia
pelos gestos e expressões do rosto), a entrada de quatro solistas cantantes…
fiquei com a respiração acelerada, o coração batendo forte. Sorríamos,
“abobalhados”. Nós aqui?
O ensaio acabou, não resistimos ir cumprimentar o maestro, falar de quão
longe tínhamos vindo, de como estávamos gratos por ouvi-los. Ele também
agradeceu sorridente, convidou-nos para o espetáculo do dia seguinte. Mas já
estaríamos longe…
Outro momento de muita emoção – componente fundamental para fazê-lo
inesquecível – foi a visita ao hospital psiquiátrico Saint-Paul, em
Saint-Rémy-de-Provence. Um prédio velhinho, um tanto mal tratado, antecedido
por fileiras de oliveiras, algumas outras árvores começando a florir. Era o
início da primavera. Entramos no prédio (a parte liberada para visitas),
subimos uma escada em curva e lá estava: o quarto que Van Gogh ocupou, do jeito
que era então, durante um ano. Nossa! Tão
despojado, tão modesto. A cama estreita, a famosa cadeira, um pequeno baú,
algumas pinturas na parede. Só. E a janela. A mesma janela que emoldura
paisagens e gentes que ele pintou. Também aí fiquei com a respiração acelerada,
uma vontade de chorar. O jardim interno do hospital está igualzinho ao que Van
Gogh pintou. As mesmas flores coloridas com as folhagens compondo um desenho
geométrico.
Acho que viajar é isso. Não importa para qual lugar. O
encontro com o passado, viver o não-esperado, maravilhar-se com a beleza de
alguns seres humanos que redimem a montanha de tristeza e desapontamento que
nos acompanha no cotidiano social e político do nosso tempo – tudo isso faz com
que valha a pena o empenho necessário para pegar um avião, um trem, um ônibus,
e ir ao encontro do que não nos é familiar e desafia nossa abertura e
capacidade de olhar o mundo com o mesmo
assombro que Platão nos ensinou a cultivar para melhor viver.

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