Assisti ao último Oprah Winfrey Show
na televisão. Uma choradeira só. Tantos depoimentos emocionantes, tantas
pessoas se confessando profundamente agradecidas por tudo que aprenderam ao
longo dos 25 anos do programa. Parece banal, já li um comentário cínico sobre
seu programa. Alguém o comparou, pejorativamente, a uma autoajuda televisiva. Psicoterapeuta
de rigorosa formação que sou, não concordo.
Durante mais ou menos dois anos
acompanhei, não muito regularmente, as entrevistas incríveis de Oprah. Não vejo
muito televisão, mas uma grande amiga, jornalista experiente, fez alguns
comentários sobre a personalidade da Oprah, seus empreendimentos na África e em
regiões pobres dos EUA, sobre o ineditismo de suas iniciativas e a política que
as norteiam, que me deixaram intrigada. Procurei o horário do seu programa em
um canal brasileiro de TV. Desde então me interessa muito sua incansável
chamada para a autenticidade, para a coragem necessária de cada um ser o que é,
para que todos, homens e mulheres, brancos e negros, vivam a liberdade e
busquem conquistar o que lhes faz feliz. Tanto no programa de TV como em sua
revista, Oprah constantemente aponta para a importância das escolhas que cada
um faz a todo o momento da vida, fala da necessidade de olhar para si mesmo com
coragem e lucidez, mas sem se esquecer de que o Dasein[1]
é um ser no mundo, junto com os outros. Nenhuma
experiência humana exclui a existência do outro, esta é uma verdade ontológica,
o que quer dizer fundante da realidade. Não é incrível que Martin Heidegger
tenha dito isto no começo do século XX e hoje é possível “reencontrá-lo” na
fala de Oprah Winfrey?
Gosto muitíssimo de descobrir as
noções, propostas, críticas, reflexões, pensamentos e valores tantas vezes
afirmados pelos filósofos, psiquiatras e psicólogos que me formaram como
psicoterapeuta da fenomenologia-existencial – sendo defendidos, propalados, por
pessoas populares (no sentido de sua aceitação por milhões de pessoas, como
Oprah Winfrey) e por vertentes de pensamento e fé longínquos (nós, ocidentais,
como referência, é claro...) como o budismo tibetano. Isso me dá uma vivência muito
particular de universalidade, de partilhamento sem fronteiras de tempo, geografia,
língua ou cultura.
[1] Dasein
é a expressão usada de modo muito próprio pelo filósofo alemão Martin
Heidegger. Designa uma especificidade do ser humano: ele é o ser-aí (Da-sein),
presente, no mundo.

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