sexta-feira, 14 de março de 2014

OPRAH WINFREY, uma pensadora existencial?

Assisti ao último Oprah Winfrey Show na televisão. Uma choradeira só. Tantos depoimentos emocionantes, tantas pessoas se confessando profundamente agradecidas por tudo que aprenderam ao longo dos 25 anos do programa. Parece banal, já li um comentário cínico sobre seu programa. Alguém o comparou, pejorativamente, a uma autoajuda televisiva. Psicoterapeuta de rigorosa formação que sou, não concordo.

Durante mais ou menos dois anos acompanhei, não muito regularmente, as entrevistas incríveis de Oprah. Não vejo muito televisão, mas uma grande amiga, jornalista experiente, fez alguns comentários sobre a personalidade da Oprah, seus empreendimentos na África e em regiões pobres dos EUA, sobre o ineditismo de suas iniciativas e a política que as norteiam, que me deixaram intrigada. Procurei o horário do seu programa em um canal brasileiro de TV. Desde então me interessa muito sua incansável chamada para a autenticidade, para a coragem necessária de cada um ser o que é, para que todos, homens e mulheres, brancos e negros, vivam a liberdade e busquem conquistar o que lhes faz feliz. Tanto no programa de TV como em sua revista, Oprah constantemente aponta para a importância das escolhas que cada um faz a todo o momento da vida, fala da necessidade de olhar para si mesmo com coragem e lucidez, mas sem se esquecer de que o Dasein[1] é um ser no mundo, junto com os outros. Nenhuma experiência humana exclui a existência do outro, esta é uma verdade ontológica, o que quer dizer fundante da realidade. Não é incrível que Martin Heidegger tenha dito isto no começo do século XX e hoje é possível “reencontrá-lo” na fala de Oprah Winfrey?

Gosto muitíssimo de descobrir as noções, propostas, críticas, reflexões, pensamentos e valores tantas vezes afirmados pelos filósofos, psiquiatras e psicólogos que me formaram como psicoterapeuta da fenomenologia-existencial – sendo defendidos, propalados, por pessoas populares (no sentido de sua aceitação por milhões de pessoas, como Oprah Winfrey) e por vertentes de pensamento e fé longínquos (nós, ocidentais, como referência, é claro...) como o budismo tibetano. Isso me dá uma vivência muito particular de universalidade, de partilhamento sem fronteiras de tempo, geografia, língua ou cultura.






[1] Dasein é a expressão usada de modo muito próprio pelo filósofo alemão Martin Heidegger. Designa uma especificidade do ser humano: ele é o ser-aí (Da-sein), presente, no mundo.

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