terça-feira, 8 de abril de 2014

Dalai Lama: sua admirável integração da atualidade com a tradição

Li uma notícia em jornal (O Globo,12/11/2010) sobre uma pesquisa publicada na revista Science. E mais uma vez me surpreendo com a sagacidade e sabedoria do atual Dalai Lama. Há anos ele se reúne com neurocientistas, buscando se aproximar das descobertas científicas relacionadas ao funcionamento do cérebro e à consciência. Entre os temas que particularmente o interessam estão os efeitos da meditação budista no cérebro e, claro, no comportamento, atitudes e vida das pessoas. E eis que leio: “pensar demais traz infelicidade” e, ainda, “viver o momento presente é a receita para a felicidade”. Nada mais próximo do budismo! E nada tão distante das religiões que acenam com o paraíso, a salvação, a bem-aventurança, a felicidade ou a paz eterna, no futuro e em outro mundo que não o nosso, cotidiano.
Creio que o Dalai Lama, anos atrás, de algum modo intuiu que a ciência ocidental seria uma aliada na demonstração do valor de noções e práticas budistas. Falar da importância do foco da consciência no tempo presente, da atenção ao que se está vivendo agora, do cuidado com as sensações corporais e as emoções que anunciam a qualidade da experiência vivida e enfatizar que esta é a maneira de conquistar um bem-estar que podemos chamar de “felicidade” – tudo isto é parte (mas não o todo) do budismo tibetano.
Não posso deixar de pensar que há, ainda, outra “afinidade” presente na relação entre a afirmação neurocientífica da importância da experiência emocional vivida no presente – e por aí a afirmação correlata da fonte de sofrimento e ansiedade que é, com enorme frequência, a antecipação do futuro e o comprometimento com o passado, com aquilo que já não é mais – que me toca muito: é a afinidade desta combinação entre uma tradição de pensamento tão bela e antiga (o budismo) com a modernidade dos estudos do cérebro e consciência (neurociência) e a minha abordagem na psicologia clínica e psicoterapia (fenomenologia existencial incluindo a corporalidade).

Como privilegio, na vida e nas minhas ideias, a integração, a unidade na diversidade e a complexidade, fico feliz a cada momento em que as vejo espalhadas pelo mundo, quer em uma revista científica estrangeira, em um jornal brasileiro ou em uma conversa entre amigos, como faço agora.

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