Li uma notícia em jornal (O Globo,12/11/2010) sobre uma pesquisa
publicada na revista Science. E mais uma vez me surpreendo com
a sagacidade e sabedoria do atual Dalai Lama. Há anos ele se reúne com
neurocientistas, buscando se aproximar das descobertas científicas relacionadas
ao funcionamento do cérebro e à consciência. Entre os temas que particularmente
o interessam estão os efeitos da
meditação budista no cérebro e, claro, no comportamento, atitudes e vida das pessoas.
E eis que leio: “pensar demais traz
infelicidade” e, ainda, “viver o
momento presente é a receita para a felicidade”. Nada mais próximo do
budismo! E nada tão distante das religiões que acenam com o paraíso, a
salvação, a bem-aventurança, a felicidade ou a paz eterna, no futuro e em outro
mundo que não o nosso, cotidiano.
Creio que o Dalai Lama, anos atrás, de algum modo intuiu que a ciência
ocidental seria uma aliada na demonstração do valor de noções e práticas
budistas. Falar da importância do foco da consciência no tempo presente, da
atenção ao que se está vivendo agora, do cuidado com as sensações corporais e
as emoções que anunciam a qualidade da
experiência vivida e enfatizar que esta é a maneira de conquistar um bem-estar
que podemos chamar de “felicidade” – tudo isto é parte (mas não o todo) do
budismo tibetano.
Não posso deixar de pensar que há,
ainda, outra “afinidade” presente na relação entre a afirmação neurocientífica
da importância da experiência emocional vivida no presente – e por aí a
afirmação correlata da fonte de sofrimento e ansiedade que é, com enorme
frequência, a antecipação do futuro e o
comprometimento com o passado, com aquilo que já não é mais – que me toca
muito: é a afinidade desta combinação entre uma tradição de pensamento tão bela
e antiga (o budismo) com a modernidade dos estudos do cérebro e consciência
(neurociência) e a minha abordagem na psicologia clínica e psicoterapia
(fenomenologia existencial incluindo a corporalidade).
Como privilegio, na vida e nas minhas ideias, a integração, a unidade na
diversidade e a complexidade, fico feliz a cada momento em que as vejo
espalhadas pelo mundo, quer em uma revista científica estrangeira, em um jornal
brasileiro ou em uma conversa entre amigos, como faço agora.

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