sexta-feira, 4 de abril de 2014

Uma Viagem III - Paris na África

Mais uma experiência na França, desta vez em Paris. Estranha experiência.

Como gostamos de conhecer partes da cidade que sejam reveladoras de realidades não turísticas, decidimos nos aventurar pela “periferia”. Como? Descobrimos que seria preciso pegar uma linha RER. Primeiro achamos que era uma linha de ônibus. E nada de descobrir por onde passava. Olhávamos os mapas pendurados nos pontos, nenhum falava em RER. Até que descobrimos! Era uma linha especial de metrô. E ele partia da estação de Chatelet. Mas não era simples. Muitas linhas passam por essa estação, e o tal RER tinha o ponto muito longe e muito abaixo das linhas mais conhecidas.

Confesso que era um tanto assustador percorrer longos e muitos corredores, pegar um elevador (Para baixo? Para cima? Nem sei mais), andar mais um tanto e só então… identificar o que era um RER: um enorme trem de dois andares, pintado com as cores da França: vermelho, azul e branco. E ele sai em alguns horários, não é tão frequente como os trens “normais”. Ficamos uns 20 minutos na estação, esperando a partida. Notei logo que todas as pessoas que também o esperavam eram negros. Hum, que peculiar! Onde estávamos? Que cidade é essa? Partimos em direção à estação para a qual havíamos comprado os bilhetes. Finalmente o trem saiu da estação. E a partir daí minha surpresa com a negritude dos passageiros foi aumentando. Em todas as estações seguintes entravam e saíam pessoas negras, vestidas de maneira muito simples, como acontece com os pobres em qualquer lugar do mundo. Apenas uns 5% de brancos.

Na parte em que o trem corria pela superfície a paisagem não era muito interessante. A fantasia de que veríamos o Sena e conheceríamos uma arquitetura especial da cidade não se concretizou. Decidimos descer antes do planejado. E meu espanto continuou: a impressão nítida de que estava em um país africano. Casas simples, pouco e pobre comércio próximo à estação do trem. Saímos a passear pelas redondezas, poucas pessoas circulavam. A fome apertou, entramos em um pequeno e modestíssimo restaurante que se nomeava turco-grego. A jovem que nos atendeu era uma marroquina atenciosa e simpática, pronta a nos ajudar a escolher o que comer.

Não tenho grandes reflexões a fazer. Queria apenas contar como uma simples busca por experiências à parte de um turismo padrão pode revelar aspectos pouco conhecidos de uma cidade tão visitada como Paris. Ficaram algumas interrogações: Como repercute para os parisienses “padrão” a separação nítida entre negros e brancos? Como os negros descreveriam sua vida em Paris? Sim, houve as manifestações de revolta em Belleville em 2005. Elas são indicativas do que vivem os habitantes dos inúmeros bairros que percorremos no percurso do trem? Não percebi nas pessoas aquele jeito hostil ou arrogante, a postura de auto-afirmação que algumas vezes vi em Washington ou Nova York. Não, pareciam pessoas “comuns”… em um país africano. Por que pouco se fala sobre essa divisão na população da cidade, nos seus hábitos, suas casas, nos trabalhos que têm?


Acho que estas questões me ocorrem por viver em uma cidade onde negros e pobres se misturam aos brancos, (mesmo que não tão brancos) e “ricos” (não tão ricos): o Rio de Janeiro. Não busco comparações, elas nunca servem para nada que valha a pena. Foi apenas mais uma experiência da diversidade de gente e de lugares que existe mundo afora. E da inutilidade e vazio de se afirmar a superioridade de uns sobre outros, usando critérios ES púrios.

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