Mais uma experiência na França, desta vez em Paris. Estranha
experiência.
Como gostamos de conhecer partes da
cidade que sejam reveladoras de realidades não turísticas, decidimos nos
aventurar pela “periferia”. Como? Descobrimos que seria preciso pegar uma linha
RER. Primeiro achamos que era uma linha de ônibus. E nada de descobrir por onde
passava. Olhávamos os mapas pendurados nos pontos, nenhum falava em RER. Até
que descobrimos! Era uma linha especial de metrô. E ele partia da estação de
Chatelet. Mas não era simples. Muitas linhas passam por essa estação, e o tal
RER tinha o ponto muito longe e muito abaixo das linhas mais conhecidas.
Confesso que era um tanto assustador
percorrer longos e muitos corredores, pegar um elevador (Para baixo? Para cima?
Nem sei mais), andar mais um tanto e só então… identificar o que era um RER: um
enorme trem de dois andares, pintado com as cores da França: vermelho, azul e
branco. E ele sai em alguns horários, não é tão frequente como os trens
“normais”. Ficamos uns 20 minutos na estação, esperando a partida. Notei logo
que todas as pessoas que também o esperavam eram negros. Hum, que peculiar!
Onde estávamos? Que cidade é essa? Partimos em direção à estação para a qual havíamos
comprado os bilhetes. Finalmente o trem saiu da estação. E a partir daí minha surpresa com a negritude dos
passageiros foi aumentando. Em todas as estações seguintes entravam e saíam
pessoas negras, vestidas de maneira muito simples, como acontece com os pobres
em qualquer lugar do mundo. Apenas uns 5% de brancos.
Na parte em que o trem corria pela
superfície a paisagem não era muito interessante. A fantasia de que veríamos o
Sena e conheceríamos uma arquitetura especial da cidade não se concretizou.
Decidimos descer antes do planejado. E meu espanto continuou: a impressão
nítida de que estava em um país africano. Casas simples, pouco e pobre comércio
próximo à estação do trem. Saímos a passear pelas redondezas, poucas pessoas
circulavam. A fome apertou, entramos em um pequeno e modestíssimo restaurante
que se nomeava turco-grego. A jovem que nos atendeu era uma marroquina
atenciosa e simpática, pronta a nos ajudar a escolher o que comer.
Não tenho grandes reflexões a fazer. Queria apenas contar como uma simples busca por experiências à parte
de um turismo padrão pode revelar aspectos pouco conhecidos de uma cidade tão
visitada como Paris. Ficaram algumas interrogações: Como repercute para os
parisienses “padrão” a separação nítida entre negros e brancos? Como os negros
descreveriam sua vida em Paris? Sim, houve as manifestações de revolta em
Belleville em 2005. Elas são indicativas do que vivem os habitantes dos
inúmeros bairros que percorremos no percurso do trem? Não percebi nas pessoas
aquele jeito hostil ou arrogante, a postura de auto-afirmação que algumas vezes
vi em Washington ou Nova York. Não, pareciam pessoas “comuns”… em um país
africano. Por que pouco se fala sobre
essa divisão na população da cidade, nos seus hábitos, suas casas, nos
trabalhos que têm?
Acho que estas questões me ocorrem por
viver em uma cidade onde negros e pobres se misturam aos brancos, (mesmo que
não tão brancos) e “ricos” (não tão ricos): o Rio de Janeiro. Não busco comparações, elas nunca servem
para nada que valha a pena. Foi apenas mais uma experiência da diversidade
de gente e de lugares que existe mundo afora. E da inutilidade e vazio de se
afirmar a superioridade de uns sobre outros, usando critérios ES púrios.

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