Alguns meses atrás,
voltando de uma sonhada viagem à França, escrevi neste blog sobre “a África em
Paris”, narrando minha perplexidade diante do fosso existente entre a população
branca e próspera e a negra e pobre da periferia da cidade de Paris.
Vivi uma experiência
semelhante há algum tempo… na Barra da Tijuca! Aproveitando uma tarde rara de
folga, decidi fazer de ônibus o percurso Ipanema - Barra da Tijuca – há muito
desejava fazer isso, simplesmente pelo prazer de olhar em volta sem me
preocupar em dirigir. Tudo bem, foi fácil e rápido: em menos de meia hora
cheguei ao grande shopping. Entrando na Barra me surpreendi (mais uma vez) com o
crescente número de prédios novos e luxuosos, e com o fato de que havia pouca
gente caminhando pela avenida. Decidi visitar o shopping antes de pegar o mesmo
ônibus, no mesmo ponto em que desci (instruções da cobradora) para voltar a
Ipanema.
Entrei em duas
livrarias muito boas, sentei na poltrona da primeira delas e li um artigo
americano, sem comprar a revista. Tomei um ótimo café, andei muito, meu pé
direito começou a doer — sinal de que era hora de parar. Cinquenta minutos
depois e nenhum ônibus! O que fazer? Continuar esperando ou atravessar cinco
pistas no sinal que estava a uns 60 metros de distância, para pegar um ônibus
no sentido contrário? O sol ainda estava de rachar, os pés doiam da caminhada
pelo shopping e o relógio marcava 17 horas… E foi então que assisti a uma cena
inesperada, (pelo menos para mim), nessa parte da cidade: dezenas de pessoas
(poucas horas antes não havia ninguém por ali!) correndo de um lado para o
outro, à “caça” de seu ônibus, dezenas deles, com placas que indicavam bairros da
zona oeste, da zona norte: Taquara, Campo Grande, Madureira, Cidade de Deus,
São Cristóvão, Vila Kennedy, Tanque, Méier. Eles faziam filas triplas porque
não havia espaço e tempo para estacionarem junto à calçada. E assim as pessoas
ficavam como baratas tontas, correndo atrás do seu ônibus, onde quer que eles
parassem. Ponto de ônibus? Nem pensar. Eu, parada ali, tonta de calor e de
espanto. Isso também é a Barra? Centenas de homens e mulheres modestamente
vestidos, de todas as idades, suando esbaforidos. Suponho que eram
trabalhadores das lojas, dos escritórios, clínicas e colégios. Um primeiro
turno de trabalho que àquela hora terminava? Podia ser.
Viver, mais uma vez,
o contraste e tudo nele implícito (a desigualdade social, o descaso político, a
distribuição absurda de privilégios), assim tão perto, foi bom. Bom não quer
dizer prazeroso. Mas me fez dizer: eu sou parte desse mundo, assim mesmo como
ele é. Estou dentro dele, e não quero sair.

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