terça-feira, 13 de maio de 2014

Barra da Tijuca

Alguns meses atrás, voltando de uma sonhada viagem à França, escrevi neste blog sobre “a África em Paris”, narrando minha perplexidade diante do fosso existente entre a população branca e próspera e a negra e pobre da periferia da cidade de Paris. 
Vivi uma experiência semelhante há algum tempo… na Barra da Tijuca! Aproveitando uma tarde rara de folga, decidi fazer de ônibus o percurso Ipanema - Barra da Tijuca – há muito desejava fazer isso, simplesmente pelo prazer de olhar em volta sem me preocupar em dirigir. Tudo bem, foi fácil e rápido: em menos de meia hora cheguei ao grande shopping. Entrando na Barra me surpreendi (mais uma vez) com o crescente número de prédios novos e luxuosos, e com o fato de que havia pouca gente caminhando pela avenida. Decidi visitar o shopping antes de pegar o mesmo ônibus, no mesmo ponto em que desci (instruções da cobradora) para voltar a Ipanema.
Entrei em duas livrarias muito boas, sentei na poltrona da primeira delas e li um artigo americano, sem comprar a revista. Tomei um ótimo café, andei muito, meu pé direito começou a doer — sinal de que era hora de parar. Cinquenta minutos depois e nenhum ônibus! O que fazer? Continuar esperando ou atravessar cinco pistas no sinal que estava a uns 60 metros de distância, para pegar um ônibus no sentido contrário? O sol ainda estava de rachar, os pés doiam da caminhada pelo shopping e o relógio marcava 17 horas… E foi então que assisti a uma cena inesperada, (pelo menos para mim), nessa parte da cidade: dezenas de pessoas (poucas horas antes não havia ninguém por ali!) correndo de um lado para o outro, à “caça” de seu ônibus, dezenas deles, com placas que indicavam bairros da zona oeste, da zona norte: Taquara, Campo Grande, Madureira, Cidade de Deus, São Cristóvão, Vila Kennedy, Tanque, Méier. Eles faziam filas triplas porque não havia espaço e tempo para estacionarem junto à calçada. E assim as pessoas ficavam como baratas tontas, correndo atrás do seu ônibus, onde quer que eles parassem. Ponto de ônibus? Nem pensar. Eu, parada ali, tonta de calor e de espanto. Isso também é a Barra? Centenas de homens e mulheres modestamente vestidos, de todas as idades, suando esbaforidos. Suponho que eram trabalhadores das lojas, dos escritórios, clínicas e colégios. Um primeiro turno de trabalho que àquela hora terminava? Podia ser.

Viver, mais uma vez, o contraste e tudo nele implícito (a desigualdade social, o descaso político, a distribuição absurda de privilégios), assim tão perto, foi bom. Bom não quer dizer prazeroso. Mas me fez dizer: eu sou parte desse mundo, assim mesmo como ele é. Estou dentro dele, e não quero sair.

Nenhum comentário:

Postar um comentário