segunda-feira, 5 de maio de 2014

Uma Viagem IV - Serendipity

Lembrei dessa palavra incrível enquanto viajava pela França. Serendipity. Em português, serendipitismo – esquisita, não? Mas é o que consta no dicionário inglês-português. Teria sentido usá-la? Mesmo em inglês, ela não é familiar. Seu significado? “Alguma coisa interessante ou agradável que acontece por acaso”, a “serendipitous discovery”, segundo o Webster. Acabo me decidindo a seu favor para descrever uma experiência única em Arles, na Provence...

Tínhamos visitado o centro histórico da cidade. Cansados de muito caminhar decidimos parar para jantar, mesmo sendo um pouco cedo. Encontramos uma pracinha pitoresca, um restaurante bem simples. Sentamos na varanda, as mesas mal cobertas, as cadeiras frias de alumínio. Pendurado em uma lona, na nossa frente, o nome do lugar. Falava em Van Gogh (não me lembro do nome completo). Logo pensamos: É, ele andou por aqui, por essas ruas, por essas vielas. E a seguir, o reconhecimento! Aquela lanterna ali em cima não é igual ao do quadro do Van Gogh? Omar, meu companheiro, respondeu: acho que no quadro há várias lanternas. Digo que tudo em volta é bem parecido ao quadro, mas com um jeito tão decadente…

No meio de nosso jantar começamos a ouvir gritos de entusiasmo vindos de um lugar próximo ao restaurante, do mesmo lado da praça. Uma pausa, mais outros gritos fortes. Imaginamos logo: parece os gritos de quem está torcendo em uma partida de futebol. Quando pagamos a conta no restaurante, outra “onda” de gritos. Irresistível. Vamos ver? Realmente, era um grupo de homens risonhos, eufóricos, amontoados em pequenas mesas dentro do que poderíamos chamar de um botequim. A televisão pendurada no teto, igualzinho ao que temos aqui no Brasil. Entramos no momento exato em que um dos homens gritava : Messí! Messí!, acentuando a última sílaba como habitualmente fazem os franceses com todos os nomes próprios estrangeiros. Trois gols! Trois gols! (Três gols). Sendo Omar argentino, ficamos nós também MUITO sorridentes. Decidimos nos sentar entre os animados frequentadores. Era um jogo do Barcelona, claro. Todos falavam entre si – gritavam, melhor dizendo –, empolgados com a atuação do artilheiro argentino Messi. Eu me sentia tão envolvida pelo clima de torcida, tão contente por partilhar uma experiência autêntica de pessoas dessa cidade, cuja história é tão diferente da de meu país… A combinação de estrangeirice com a de absoluta familiaridade da situação me deixou eufórica. Também eu torcia aos gritos, até que Messí fez o quarto gol da partida . Ufa! Que coisa incrível! E olha que eu nem sou torcedora clássica de futebol, “não tenho” um time, nada. Gosto de torcer por um time quando assisto à partidas pela TV. Escolho na hora por quem vou torcer. Tenho uma lógica muito pessoal para fazer isso.

Saímos felizes do “botequim”. Serendipity, pensei.

Como é bom viver algo inesperado, muitíssimo por acaso, e tão especial. Viajar turisticamente também é isso?


No dia seguinte, já na estrada, folheei um livrinho que havia comprado em um museu de Arles. E lá estava a fotografia do quadro de Van Gogh “O Café à Noite”. Era ele! Era mesmo o restaurante triste no qual jantamos na véspera! Serendipity.

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