sexta-feira, 9 de maio de 2014

Em defesa das psicoterapias psicodinâmicas

Há tempos venho escrevendo e conversando com colegas sobre as mudanças que estão acontecendo no campo da Psicoterapia. Uma delas é a ênfase que a sociedade e a mídia dão a diagnósticos, distúrbios e síndromes relacionados à saúde mental: depressão, transtorno obsessivo-compulsivo (TOC), stress pós-traumático e outros. Eu me sinto “estrangeira” — mesmo sem estar sozinha nisso — por considerar que, como psicoterapeuta, não trato de diagnósticos, síndromes ou de sintomas. Trato pessoas, que são muito mais complexas do que isso.

E eis que encontro um instigante artigo na revista norte-americanaScientific American Mind (nov./dec.2010) que veio ao encontro de algumas coisas que penso, relacionadas às psicoterapias identificadas como “psicodinâmicas” ou “profundas”, como as vertentes da psicanálise e da fenomenologia-existencial. O autor do artigo, Jonathan Shedler,[1] enumera algumas características que distinguem essas psicoterapias e descreve resultados de pesquisas que demonstram como elas são mais eficazes do que outras formas de tratamentos que ele denomina de “vapt-vupt” (minha versão para “quick-fix”), i.e., são de curto prazo e voltadas a eliminar sintomas (e que, by the way, atendem aos interesses de planos de saúde que querem pagar o mínimo possível para atendimentos de saúde mental). Diz ele que a grande aceitação da terapia cognitivo-comportamental reside na sua proposta de cura rápida — o que é considerada uma vantagem pela maioria das pessoas que buscam alguma forma de tratamento de suas aflições. E para os psicoterapeutas (psicólogos e médicos), esta aceitação é justificada pelo fato de que as terapias cognitivo-comportamentais encontraram acolhida nas universidades, que recebem fundos governamentais e privados para realização de pesquisas — o que constitui fonte de trabalho e de renda para muitos professores universitários, sobretudo nos EUA.
Creio que as descrições e comparações feitas por Shedler podem também ser aplicadas em relação às chamadas “terapias complementares”,[2] como Florais de Bach, Reiki, Cromoterapia, Massoterapia, e tantas outras que florescem a cada dia. Mesmo sendo realizadas por profissionais sérios e dedicados, elas se distinguem radicalmente das psicoterapias psicodinâmicas. Mas como respondem ao chamado do tempo breve de empenho da sociedade atual — e seu corolário significativo, ou seja, a economia de gastos financeiros — e à exigência de também menor tempo e complexidade na formação do profissional, estas terapias, não deliberadamente, acabam por obscurecer a qualidade transformadora e profunda da Fenomenologia-Existencial e da Psicanálise.

Com precisão, Shedler descreve algumas das características distintivas da psicoterapia psicodinâmica:

  • O encorajamento, por parte dos psicoterapeutas, para que seus pacientes explorem suas emoções em profundidade, não importa o quão contraditórias, ameaçadoras ou perturbadoras elas sejam. Neste sentido, diferenciam-se das TCC, que colocam o foco do trabalho terapêutico em pensamentos.
  • A investigação dos padrões recorrentes de comportamentos e reações, como, por exemplo, quando um homem ou uma mulher se envolve repetidamente com pessoas casadas ou comprometidas; ou quando sabotam oportunidades de trabalho; ou quando repetem com os filhos — e se condenam por isso — comportamentos que seus pais tiveram com eles.
  • O reconhecimento de que experiências passadas afetam a vida presente. É pela exploração do que foi vivido na infância, ou em tempos bastante anteriores ao atual, que é possível ajudar as pessoas a se libertarem das amarras desse passado, evidentes no sofrimento presente, permitindo a elas viver mais plenamente.
  • A exploração dos padrões de relacionamento críticos. Muitas pessoas não reconhecem estes padrões e o quanto eles influenciam, de modo problemático, sua vida amorosa e profissional. Por exemplo, algumas pessoas não expressam suas necessidades emocionais por medo de uma rejeição e, como consequência, não preenchem essas necessidades — uma via para a vulnerabilidade à depressão.
  • A valorização da vida de fantasia. A psicoterapeuta estimula e facilita a expressão de sonhos e fantasias que muitas vezes revelam os desejos, esperanças e medos que ocupam um lugar importante na vida das pessoas.
  • A atenção cuidadosa das diferentes facetas da relação paciente-psicoterapeuta. Esta relação é um elemento fundamental do processo terapêutico e no estabelecimento da chamada “aliança terapêutica”, indispensável para se obter um resultado positivo. Graças a ela, é possível analisar os modos como o paciente reproduz, nesta relação, seus padrões habituais de relacionamentos com pessoas significativas de sua vida e que, por sua vez, são origens de distorções e sofrimento. Por exemplo, uma pessoa que tem dificuldade em viver a intimidade evitará se revelar para o terapeuta, enquanto outra que teme a rejeição insistirá em se mostrar uma “boa” paciente.
Para Shedler, “todas as psicoterapias devem aliviar sintomas, como ansiedade ou depressão. Mas os tratamentos psicodinâmicos ambicionam mais do que isso: a construção de forças psicológicas profundas — como a capacidade de estabelecer relacionamentos plenos, a capacidade de fazer bom uso dos próprios talentos, e a possibilidade de encarar os desafios da vida com maior liberdade e flexibilidade.”
Por que este empenho todo para falar de algo que nós, analistas existenciais e psicanalistas, sabemos todos?
Creio que Jonathan Shedler quis trazer à tona as especificidades das psicoterapias psicodinâmicas, mostrar que há inúmeras pesquisas que apontam seus benefícios e resultados positivos, mencionar quanto estes aspectos andam “escondidos” por causa da divulgação extensiva das “vantagens” de uma terapia breve e pragmática. Eu acrescento que há ainda o nosso contexto sócio-cultural no qual a rapidez e o pragmatismo têm um lugar privilegiado e, mais ainda, no qual acontece a grande influência da academia e das instituições americanas que tanto privilegiam estes aspectos e tanto desqualificam a subjetividade e a complexidade do entrelaçamento sujeito-mundo.
Shedler afirma ainda — algo inédito e polêmico — que sua procura pelas pesquisas que apoiam a terapia psicodinâmica aconteceu a partir do encontro com inúmeros pacientes que passaram de um tratamento “vapt-vupt” para outro, com pouco ou breve aproveitamento. Ele afirma que a tentativa de mudar pensamentos negativos — um aspecto fundamental da terapia cognitivo-comportamental — não atinge a raiz dos problemas. Os pacientes podem se sentir melhor por algum tempo, mas depois voltam a repetir os padrões que causam sofrimento.
Finalizando, muito me tocou uma conclusão deste artigo: os resultados benéficos da psicoterapia psicodinâmica continuam mesmo depois de seu término. Porque esta é uma parte importante de minha vida: a Psicomaiêutica, uma modalidade da abordagem fenomenológica-existencial criada por Miguel Callile Jr.. Esta abordagem é o fundamento da minha formação profissional, da minha experiência como paciente, de minha conquista do bem viver e da minha contínua aprendizagem do viver com os outros. Graças e ela, estou segura disso, pude recentemente receber carinhosas palavras de despedida de uma jovem cliente:
“Obrigada por plantar em mim essa semente que me fez buscar ser uma pessoa melhor, mais em contato com os meus sentimentos, mais sincera e honesta comigo mesma. Obrigada por me dar a mão nos momentos em que esse caminho pareceu tão escuro e assustador.” [3]


[1] Professor de psiquiatria na Escola de Medicina da Universidade do Colorado e diretor de psicologia do Serviço de Psiquiatria no hospital da mesma Universidade.
[2] Prefiro usar “complementar” a “alternativo”.

[3] Frase reproduzida com a autorização da sua autora.

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