Há tempos venho escrevendo e
conversando com colegas sobre as mudanças que estão acontecendo no campo da
Psicoterapia. Uma delas é a ênfase que a sociedade e a mídia dão a
diagnósticos, distúrbios e síndromes relacionados à saúde mental: depressão,
transtorno obsessivo-compulsivo (TOC), stress pós-traumático e outros. Eu me
sinto “estrangeira” — mesmo sem estar sozinha nisso — por considerar que, como
psicoterapeuta, não trato de diagnósticos, síndromes ou de sintomas. Trato pessoas, que são muito mais complexas
do que isso.
E eis que encontro um instigante artigo
na revista norte-americanaScientific American Mind (nov./dec.2010) que veio ao encontro de algumas coisas que penso, relacionadas às
psicoterapias identificadas como “psicodinâmicas” ou “profundas”, como as
vertentes da psicanálise e da fenomenologia-existencial. O autor do artigo,
Jonathan Shedler,[1] enumera algumas características que
distinguem essas psicoterapias e descreve resultados de pesquisas que
demonstram como elas são mais eficazes do que outras formas de tratamentos que
ele denomina de “vapt-vupt” (minha versão para “quick-fix”), i.e., são de curto prazo e voltadas a eliminar sintomas (e que, by the way, atendem aos interesses de planos de
saúde que querem pagar o mínimo possível para atendimentos de saúde mental).
Diz ele que a grande aceitação da terapia cognitivo-comportamental reside na
sua proposta de cura rápida — o que é considerada uma vantagem pela maioria das
pessoas que buscam alguma forma de tratamento de suas aflições. E para os
psicoterapeutas (psicólogos e médicos), esta aceitação é justificada pelo fato
de que as terapias cognitivo-comportamentais encontraram acolhida nas
universidades, que recebem fundos governamentais e privados para realização de
pesquisas — o que constitui fonte de trabalho e de renda para muitos
professores universitários, sobretudo nos EUA.
Creio que as descrições e comparações
feitas por Shedler podem também ser aplicadas em relação às chamadas “terapias
complementares”,[2] como Florais de Bach, Reiki,
Cromoterapia, Massoterapia, e tantas outras que florescem a cada dia. Mesmo
sendo realizadas por profissionais sérios e dedicados, elas se distinguem
radicalmente das psicoterapias psicodinâmicas. Mas como respondem ao chamado do tempo breve de empenho da sociedade atual —
e seu corolário significativo, ou seja, a economia de gastos financeiros — e à
exigência de também menor tempo e complexidade na formação do profissional,
estas terapias, não deliberadamente, acabam por obscurecer a qualidade
transformadora e profunda da Fenomenologia-Existencial e da Psicanálise.
Com precisão, Shedler descreve algumas
das características distintivas da psicoterapia psicodinâmica:
- O encorajamento,
por parte dos psicoterapeutas, para que seus pacientes explorem suas
emoções em profundidade, não importa o quão contraditórias, ameaçadoras ou
perturbadoras elas sejam. Neste sentido, diferenciam-se das TCC, que
colocam o foco do trabalho terapêutico em pensamentos.
- A investigação dos
padrões recorrentes de comportamentos e reações, como, por exemplo, quando
um homem ou uma mulher se envolve repetidamente com pessoas casadas ou
comprometidas; ou quando sabotam oportunidades de trabalho; ou quando
repetem com os filhos — e se condenam por isso — comportamentos que seus
pais tiveram com eles.
- O reconhecimento
de que experiências passadas afetam a vida presente. É pela exploração do
que foi vivido na infância, ou em tempos bastante anteriores ao atual, que
é possível ajudar as pessoas a se libertarem das amarras desse passado,
evidentes no sofrimento presente, permitindo a elas viver mais plenamente.
- A exploração dos
padrões de relacionamento críticos. Muitas pessoas não reconhecem estes
padrões e o quanto eles influenciam, de modo problemático, sua vida
amorosa e profissional. Por exemplo, algumas pessoas não expressam suas
necessidades emocionais por medo de uma rejeição e, como consequência, não
preenchem essas necessidades — uma via para a vulnerabilidade à depressão.
- A valorização da
vida de fantasia. A psicoterapeuta estimula e facilita a expressão de
sonhos e fantasias que muitas vezes revelam os desejos, esperanças e medos
que ocupam um lugar importante na vida das pessoas.
- A atenção
cuidadosa das diferentes facetas da relação paciente-psicoterapeuta. Esta
relação é um elemento fundamental do processo terapêutico e no estabelecimento
da chamada “aliança terapêutica”, indispensável para se obter um resultado
positivo. Graças a ela, é possível analisar os modos como o paciente
reproduz, nesta relação, seus padrões habituais de relacionamentos com
pessoas significativas de sua vida e que, por sua vez, são origens de
distorções e sofrimento. Por exemplo, uma pessoa que tem dificuldade em
viver a intimidade evitará se revelar para o terapeuta, enquanto outra que
teme a rejeição insistirá em se mostrar uma “boa” paciente.
Para Shedler, “todas as psicoterapias
devem aliviar sintomas, como ansiedade ou depressão. Mas os tratamentos
psicodinâmicos ambicionam mais do que isso: a construção de forças psicológicas
profundas — como a capacidade de estabelecer relacionamentos plenos, a capacidade de fazer bom uso dos próprios talentos, e a possibilidade
de encarar os desafios da vida com maior liberdade e
flexibilidade.”
Por que este empenho todo para falar de
algo que nós, analistas existenciais e psicanalistas, sabemos todos?
Creio que Jonathan Shedler quis trazer
à tona as especificidades das psicoterapias psicodinâmicas, mostrar que há
inúmeras pesquisas que apontam seus benefícios e resultados positivos,
mencionar quanto estes aspectos andam “escondidos” por causa da divulgação extensiva
das “vantagens” de uma terapia breve e pragmática. Eu acrescento que há ainda o
nosso contexto sócio-cultural no qual a rapidez e o pragmatismo têm um lugar
privilegiado e, mais ainda, no qual acontece a grande influência da academia e
das instituições americanas que tanto privilegiam estes aspectos e tanto
desqualificam a subjetividade e a complexidade do entrelaçamento sujeito-mundo.
Shedler afirma ainda — algo inédito e
polêmico — que sua procura pelas pesquisas que apoiam a terapia psicodinâmica aconteceu
a partir do encontro com inúmeros pacientes que passaram de um tratamento
“vapt-vupt” para outro, com pouco ou breve aproveitamento. Ele afirma que a
tentativa de mudar pensamentos negativos — um aspecto fundamental da terapia
cognitivo-comportamental — não atinge a raiz dos problemas. Os pacientes podem
se sentir melhor por algum tempo, mas depois voltam a repetir os padrões que
causam sofrimento.
Finalizando, muito me tocou uma
conclusão deste artigo: os resultados benéficos da psicoterapia
psicodinâmica continuam mesmo depois de seu término. Porque esta é uma
parte importante de minha vida: a Psicomaiêutica, uma modalidade da abordagem
fenomenológica-existencial criada por Miguel Callile Jr.. Esta abordagem é o
fundamento da minha formação profissional, da minha experiência como paciente,
de minha conquista do bem viver e da minha contínua aprendizagem do viver com
os outros. Graças e ela, estou segura disso, pude recentemente receber
carinhosas palavras de despedida de uma jovem cliente:
“Obrigada por plantar
em mim essa semente que me fez buscar ser uma pessoa melhor, mais em contato
com os meus sentimentos, mais sincera e honesta comigo mesma. Obrigada por me dar a mão nos momentos em que esse caminho
pareceu tão escuro e assustador.” [3]
[1] Professor
de psiquiatria na Escola de Medicina da Universidade do Colorado e diretor de
psicologia do Serviço de Psiquiatria no hospital da mesma Universidade.
[2] Prefiro
usar “complementar” a “alternativo”.
[3] Frase
reproduzida com a autorização da sua autora.

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