A Psicologia, hoje, tem dois campos de
estudo e de desenvolvimento: o acadêmico e o profissional. No Brasil, o campo
acadêmico é ocupado, sobretudo, pela formação de psicólogos graduados e
pós-graduados. Algumas poucas instituições públicas de ensino também
desenvolvem pesquisas experimentais e teóricas. Nos Estados Unidos, a maioria
das faculdades forma psicólogos pesquisadores e investem muito no
reconhecimento da profissão como “científica”, nos moldes da ciência clássica.
A
revista The Monitor (edição de abril
de 2009) – publicação da American Psychological
Association (APA) –, publicou um artigo em que o Dr.
Steven J. Breckler, diretor executivo para ciência da APA, escreveu: “Se a
psicologia não é considerada com seriedade como ciência, talvez tenhamos que
reconsiderar o rigor científico que exigimos de nossos estudantes. A formação
básica em qualquer área científica deve incluir cursos em áreas tais como
biologia, química, física e matemática(…). O estudante de psicologia no século
XXI não pode se julgar competente no conhecimento de seu campo sem que tenha
uma boa compreensão da pesquisa experimental, da neurociência e da genética.” O
que isso nos revela?
Revela que a força do paradigma da
ciência clássica – cartesiana, dualista e fragmentadora da realidade do
mundo e do ser humano – predomina no
mais poderoso país do planeta e, como consequência “natural”, dele se irradia a
influência sobre a nossa cultura, científica e não-científica.
Esse modelo de Psicologia é elaborado
nas universidades e divulgado por meio de centenas de revistas científicas nos
Estados Unidos, nos países de língua inglesa e por autores dos demais países
que querem se fazer presentes no prestigiado mundo acadêmico.
Infelizmente, mais uma dualidade se
perpetua na coexistência da Psicologia acadêmica com a Psicologia profissional,
que se desenvolve fora da Universidade, em instituições privadas, graças à
atuação de psicoterapeutas.
As psicoterapias se desenvolveram de
modo quase independente das universidades, a partir de experiências clínicas e
do contato direto com o sofrimento de seres humanos.
Como não poderia deixar de ser, elas
não obedecem aos mesmos critérios de validação da matemática, da mensuração, da
replicabilidade, do controle experimental. Mais do que isso, algumas como as que se fundamentam na
Fenomenologia, rompem radicalmente com o paradigma cartesiano. Contudo essa
ruptura da Fenomenologia quando aplicada à Psicoterapia, como já dissemos
antes, não significa abrir mão do rigor da pesquisa, não significa um
“vale-tudo”, a utilização de qualquer metodologia e técnica cuja única
validação é a de que “funciona”.
Partindo de uma avaliação integradora e
da experiência vivida nos relacionamentos únicos que acontecem na Psicoterapia,
passei a concebê-la como uma prática profissional da Psicologia que se
fundamenta em noções filosóficas claras (ou implícitas) – no meu caso, as
noções advindas da Fenomenologia e da Filosofia da Existência – e que inclui e
evolui para uma sabedoria, o que é mais do que a soma sofisticada de
conhecimentos, teorias e técnicas.
De que falo quando
falo de sabedoria?
Etimologicamente, sabedoria é, em
grego, sophia, a mesma palavra
presente em filosofia. Para Aristóteles, a sabedoria não pode ser uma ciência nem
uma técnica. Ela fala de um saber viver, do conhecimento das atividades
humanas e da melhor maneira de conduzi-las.
Tanto a originária filosofia grega,
pré-platônica – o incomparável Fragmento 50 de
Heráclito que nos diz que o todo é indivisível, e que escutando ao Logos
encontramos a sabedoria: “sábio é aquele
que reconhece que todas as coisas são Um” –, como o milenar
pensamento oriental falam de uma visão integrada da realidade (diferentemente
da ciência). O conhecimento que produziram é intencionado principalmente para o
aperfeiçoamento do ser humano, para o cultivo da virtude (que podemos
compreender como a boa maneira de conduzir a própria vida) e para o encontro
com a serenidade. Para Comte-Sponville a
sabedoria é reconhecida “mais ainda, por certa liberdade (…) por certa alegria,
por certo amor.” (1)
E qual é a relação entre a sabedoria e a Psicoterapia?
Primeiramente, penso que o movimento
histórico, iniciado por Edmund Husserl, demolidor do dualismo e da
fragmentação, se desdobra em inúmeras vertentes: o pensamento existencial de
Heidegger, o pensamento da complexidade, descrito por Edgar Morin, algumas
formulações inspiradas na física quântica, a ecologia profunda e outras. E
penso que a aproximação gradativamente ampliada do mundo cultural e espiritual
ocidental com a sabedoria oriental (principalmente com a tradição budista
tibetana e japonesa) revelou outro modo de pensar o não-dualismo, a
consideração de que para compreender a realidade o sujeito não está no lugar de
um observador neutro, a valorização da experiência vivida como critério de validação da apreensão
de toda realidade, a ênfase na responsabilidade de cada um pelas escolhas em
sua vida, a crença de que é possível eliminar ou atenuar o sofrimento por meio
da mudança de atitudes (e não por treinamento de comportamentos), a
consideração do entrelaçamento ontológico entre todos os seres e entre os seres
e a natureza circundante. O Abhidhamma se ocupa com a busca de compreensão da
natureza da experiência e, deste modo, se direciona para a realidade da
consciência – o mundo tal como é dado na experiência. Desse modo o
empreendimento filosófico do Abhidhamma se mescla com a psicologia
fenomenológica.
Considero duas consequências dessa realidade:
1ª No plano do processo psicoterapêutico: a crescente inclusão
de métodos e técnicas de auto-exploração budistas (com relevância para as
formas de meditação e, especialmente, a prática da mindfulness (consciência dos pensamentos, emoções e
sensações corporais no momento presente, sem julgamentos) que visam o autoconhecimento, a conquista da
tranquilidade como requisito para escolhas de vida, o contato com um
envolvimento profundo com o outro – condição de bem-estar –, a aprendizagem de um modo de viver que considera a mente e o corpo como
uma unidade indissolúvel e, portanto, determinante para a saúde.
2ª No plano da formação e atuação do psicoterapeuta: a consideração de
que a prática da psicoterapia demanda do psicoterapeuta mais do que lhe é
ensinado nas universidades e nas instituições de formação profissional. Penso
que esse “mais” é o cultivo da sabedoria, compreendida como uma elaboração e
integração de conhecimentos e experiências que incluem, mas transcendem, o
rigor da formação acadêmica, o conhecimento aprendido e apreendido com os
pensadores do humano e a inserção de métodos e técnicas facilitadoras da
expressão de emoções e lembranças da história de vida dos indivíduos.
Considero que a sabedoria de um psicoterapeuta pressupõe uma atitude
existencial de abertura para todas as experiências humanas, a convicção da
importância do não-julgamento, a procura do alívio do sofrimento das pessoas
sem interferir nas suas crenças e valores. Essas características só podem se
desenvolver a partir da busca pessoal do psicoterapeuta pela sua autenticidade,
a partir do seu processo – de uma vida inteira – de busca da serenidade que lhe
permitirá apreciar, como significativa e valiosa, cada experiência humana que
lhe é revelada, no âmbito privilegiado do tempo e espaço terapêutico.
Sabedoria não é o produto do acúmulo de informações, de anos de prática,
dos rendimentos financeiros, da hora ou lugar nos quais acontece a psicoterapia. Ela é a combinação
pessoal de todas as experiências, reflexões, erros e acertos, do próprio
sofrimento do terapeuta ao longo da vida e dos recursos que utilizou para
superá-los.