sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

The Brazilian Husband Of The American Writer



Felipe lived in Indonesia when he met Elizabeth Gilbert, author of the book “Eat, Pray, Love” - a best-seller already translated into 30 languages. Their meeting and the beginning of the loving relationship happened before this book had been published. Why did I bring him here? For two reasons: first, the simple pleasure of knowing of a Brazilian man living the special experience of being the admired and loved   husband of a celebrated writer. I myself feel odd thinking of it, valuing such kind of an event…. But it’s the truth. The second reason is to recognize that Felipe’s loving statement to Elizabeth could be the basis of a psychology class: simple, straight-forward, full of wisdom.

Felipe came up at excerpts from the new book by Elizabeth Gilbert, “Committed”, printed in Oprah Magazine (January 2010). The book is a “meditation about marriage” and there Elizabeth Gilbert reflects on herself, her limitations in loving relationships, the “reasons” that drove her to love Philip, the warnings she gave him about her most dangerous failings in a relationship. He also made his list. Very interesting. Their honesty is touching, something not often seen in our Latin culture, I think.

Felipe made a loving statement  through a personal narrative. After finishing her list of flaws, Elizabeth asks if he stills loves her. He answers yes. How could that be? She had told so many “bad things” about herself… Then Philip tells her about the time when he started to negotiate precious gems in Brazil. He always felt very enthusiastic whenever he found one or two aquamarines in a package that was offered him to buy. He did not pay attention to the “trash” that came together. And so he did get in trouble because of it. Until he finally learned to ignore the perfect gems. He shouldn’t even look at them. He had to put them aside and carefully look at the bad ones. And only then honestly ask himself: Can I work with these ones? “It’s the same thing with relationships”, he says. “People fall in love for the most perfect aspects of the other’s personality. But this isn’t smart. The most intelligent thing to do is to ask yourself: Can I accept the failings of the other? Can I honestly look at the faults of my partner ? And once more ask: can I deal with them?” Because it’s very easy to get enchanted by people’s brightness, by their special charm to say and to do certain things. Who wouldn’t be delighted by these great things? But to accept - from the bottom of the heart and not as a mere concession or resignation - , the failures and boredom of the other … oh, this is another story.

 I enjoyed Felipe’s analogy very much. In a simple yet consistent way, he showed an aspect of love relationships which we usually underestimate: looking at “what isn’t good” of the “package” that we all are helps a lot to build up a solid intimacy - , nonetheless deprived of brightness, humor, imagination and enchantment. 

Heidegger In Greece




My training as a psychotherapist was first grounded in the existential thought of European philosophers, mostly in Martin Heidegger prime work “Being and Time”.  Although many years have gone by since then, Heidegger still delights me, even in short and less impressive texts.  

In my last trip to Buenos Ayres, I found a little book (55 pages!) in the corner of a shelf in one of those incredible bookstores which I can only see over there: a manuscript edition that Heidegger wrote while his first (maybe only?) trip to Greece. The title is “ESTANCIAS”** (I think that the best translation from this Spanish word is staying, stopping, dwelling?). I’ve just finished reading it and I feel myself involved by a nostalgic mood (in a good sense: that which brings up a warm feeling in relation to something that has already gone) of the text. Not only because Heidegger’s trip happened in 1962, but also because he constantly inserts beautiful  Hölderlin’s verses and  quotes strophes in which echoes the poet’s passion for the Greece of the Gods and of the beauty.
  

But where the thrones, the temples, and where the vases,
Where, full of nectar, the chant for the satisfaction of the Gods?
Where, where they brighten up, the oracles that go so far?
Delphos sleeps, and where resounds the great destiny?
(Bread and wine, 4th strophe, free trans.)
And also:
“Dear Islands, eyes of the enchanted world” (Tears, 2nd strophe)


The “booklet” is a narrative of his journey to some of the Greek islands with a little stop in Athens. It describes landscapes, the villages’ poverty, the ruins of the temples, the omnipresence of tourists taking pictures everywhere, “pouring their memory in the technically elaborated image, renouncing without realizing to the feast of thinking”. (p. 53)

Heidegger traveled all over the Greek islands by boat, along with other Germans companions, remaining always with the question: what’s more proper, more truthful, of the Greek existence and of its world? He will only give us the answer when he arrives at Delos. And the answer is: aletheia; “the openness that offers itself to itself, that reaches, delimitates and free everything, which in all presence and absence offers arrival and moment, departure and need”. (p.44)

Of course Heidegger couldn’t fail to mention Heraclitus and Parmenides, those Greeks that had so much inspired him throughout his trajectory as the most dense and original thinker of the 20th century.

It was in Delos that the journey to Greece converted to an “estancia”, he tell us. Once more, he realizes how much we withdrew from the Greek estancia, distinct from the technological world that prevailed in modern Europe. Heidegger writes in his “travel diary”: “We, human beings of nowadays, seem to be expelled from such home lost in the chains of the calculative planning (p.44)

To follow his journey was an enchanting experience: his often melancholic reflections, his love for the Greek origins of thinking, his passion for truth as the unfolding and concealment of everything that is: aletheia. At the same time I re-discovered his profound involvement with Hölderlin‘s poetry and all the melancholy the poet reveals for the lost of the sacred, of the Greek world and its joyful, ironic Gods full of sensuality and wisdom.

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Não pode ser!

Na vida, constantemente fazemos descobertas a respeito de nós mesmos e de tudo o que nos rodeia. Às vezes, essas descobertas vêm carregadas de prazer e de encantamento. Por exemplo, quando nos enamoramos de alguém pela primeira vez. Tudo fica diferente! Somos muito jovens, a emoção transborda, surge logo o desejo de contar para os amigos o que está nos acontecendo e, disfarçadamente, até contamos para nossa mãe. Mas essa linda experiência às vezes acontece às avessas: ela aparece carregada de perplexidade e medo e angústia. Por que? Porque a pessoa que o suscita é do nosso mesmo sexo.

Como psicoterapeuta, tenho partilhado esses momentos, sobretudo com jovens e adolescentes. E como são sofridos! Como é difícil sentir o que sentem, como é difícil lidar com uma realidade que contraria o que aprenderam em casa, na família, na escola, no grupo social. A primeira reação, em geral, é negar o que acontece. O susto de se perceber atraída, ou atraído, por uma amiga ou colega, é “disfarçado” por “gosto muito dela (dele)”. Ou apenas pelo desejo intenso de estar junto para conversar mais. Quando, mais tarde, a atração erótica aparece mais nítida, quando a vontade de tocar o outro, beijar e abraçar ficam inegáveis – aí começa também o sofrimento e angústia. E agora? Não pode ser! Preciso esconder o que sinto? Posso não esconder?

Não há então uma reação ou comportamento únicos. Se alguns logo desistem de negar o que sentem e se dispõem a viver seus sentimentos, outros permanecem relutantes, procuram se convencer de que é algo passageiro e, até, que nada disso está acontecendo. Muitas vezes o adolescente se percebe atraído(a) tambem por alguém do sexo oposto. E isto é um enorme alívio. A possibilidade existe. E por que é tão importante? Porque o sentimento de exclusão que acompanha a experiência do amor e atração por alguém do mesmo sexo tem essa triste característica: o adolescente, o jovem, sente-se diferente/errado, logo, excluído da “comunidade dos normais”. Já não bastam as mudanças hormonais, as variações acentuadas no desenvolvimento das funções cerebrais e das formas do corpo para que o adolescente se sinta “à parte”. Se essas transformações são acompanhadas pela inelutável atração por alguém do mesmo sexo, a crise passa a ser maior e mais penosa.

O que fazer? Como se “livrar” dessa experiência? Ou como ser quem se é e se querer bem, se prezar como ser humano? Como viver dentro de sua cultura, mas não esmagado por ela?

Penso que “livrar-se de” não é a verdadeira liberdade, indispensável para o desenvolvimento da personalidade. É apenas uma fuga desesperada, como o é em outras situações de vida.

Fernando Pessoa e Friederich Nietzsche disseram, com a força de veracidade que lhes era própria, a mesma coisa: torna-te quem tu és.

É difícil? Sim, é muito difícil. Mas o preço que pagamos quando nos deixamos levar por ideias preconceituosas do que é certo e errado, quando fazemos concessões ao mundo que violentam nossos mais íntimos e profundos sentimentos, quando nos negamos a seguir o coração… a vida deixa de ser experimentada em toda a sua necessária plenitude.


Creio que é importante saber, mais uma vez, que nunca estamos sozinhos nas experiencias que vivemos. O adolescente e a jovem homossexuais não conseguem ter a dimensão deste fato, sentem-se isolados e diferentes. Mas quanto mais tiverem clareza de quem são, do que sentem, e prezarem a si mesmos mais do que a qualquer outra pessoa no mundo, mais possibilidade têm de partilhar sua experiência com quem pode compreendê-los – por identificação ou empatia – e prosseguirem assim sua trajetória de florescimento de suas possibilidades afetivas e existenciais.

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

O marido brasileiro da escritora americana

Felipe vivia na Indonésia quando lá conheceu Elizabeth Gilbert, autora do livro Comer, Rezar, Amar – um best-seller já traduzido em 30 línguas. O encontro dos dois e o início do namoro aconteceram antes desse livro ser publicado. Por que eu o trouxe aqui? Dois motivos: primeiro o prazer simplório de saber de um brasileiro vivendo a experiência especial de ser o marido amado e admirado de uma escritora celebrada. Eu mesma estranho pensar isto. Mas é a verdade. O segundo motivo é encontrar no marido Felipe uma declaração de amor à Elizabeth que constitui uma aula de Psicologia. Simples, direta, cheia de sabedoria.

Felipe aparece no texto publicado pela revista Oprah Magazine, (janeiro 2010), em uma amostra do novo livro de Elizabeth Gilbert cujo título é Committed (Compromissada). O livro é uma “meditação sobre o casamento” e neste trecho publicado na revista a autora faz reflexões sobre si mesma, suas limitações nas relações amorosas, os “motivos” que a levam a amar Felipe, os “avisos” que deu a ele sobre seus defeitos mais perigosos em um relacionamento. Ele também fez a lista dele. Muito interessante. A franqueza dos dois é tocante, fala de um jeito de ser pouco frequente na nossa cultura latina, penso eu.

A declaração de amor à qual antes me referi foi feita em feitio de uma narrativa pessoal de Felipe. Depois de ter feito a sua lista de defeitos, Elizabeth pergunta se ele ainda a ama. Ele responde que sim. Como é que pode? Tanta “coisa ruim” ela falou de si mesma e… Felipe então conta que quando começou a negociar com pedras preciosas no Brasil ficava tão entusiasmado quando encontrava uma ou duas águas-marinhas em um pacote de pedras que lhe era oferecido para compra que não prestava atenção nas porcarias que vinham juntas no pacote. E se dava mal por causa disso. Até que finalmente aprendeu a ignorar as pedras perfeitas. Não devia nem olhar pra elas. Precisava colocá-las de lado e olhar cuidadosamente as pedras ruins. E só então se perguntar honestamente: posso trabalhar com estas? “É a mesma coisa com os relacionamentos”, diz ele. “As pessoas se apaixonam pelos aspectos mais perfeitos da personalidade do outro. Mas isso não é inteligente. A coisa mais inteligente é: você pode aceitar os defeitos? Você pode olhar honestamente para os defeitos de seu (sua) parceiro(a) e se perguntar: eu posso lidar com  isso?” Porque é muito fácil a gente se encantar com as qualidades do outro, seu brilho, seu charme especial para dizer ou fazer certas coisas. Quem não se encantaria? Mas aceitar, do fundo do coração, e não como mera concessão ou renúncia, os defeitos e chatices – ah, isso é outra coisa.

Enfim, o texto continua por aí afora. Mas gostei muito da analogia de Felipe. De um modo leve e, ao mesmo tempo, consistente, ele mostrou um aspecto dos relacionamentos amorosos que costumamos subestimar: olhar “o que não presta” do “pacote” que todos somos ajuda muito a construir uma convivência sólida, mas nem por isso necessariamente desprovida de brilho, humor, imaginação e encantamento.


sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Psicologia como Sabedoria - Segunda parte

A Psicologia, hoje, tem dois campos de estudo e de desenvolvimento: o acadêmico e o profissional. No Brasil, o campo acadêmico é ocupado, sobretudo, pela formação de psicólogos graduados e pós-graduados. Algumas poucas instituições públicas de ensino também desenvolvem pesquisas experimentais e teóricas. Nos Estados Unidos, a maioria das faculdades forma psicólogos pesquisadores e investem muito no reconhecimento da profissão como “científica”, nos moldes da ciência clássica. 

A revista The Monitor (edição de abril de 2009) – publicação da American Psychological Association (APA) –, publicou um artigo em que o Dr. Steven J. Breckler, diretor executivo para ciência da APA, escreveu: “Se a psicologia não é considerada com seriedade como ciência, talvez tenhamos que reconsiderar o rigor científico que exigimos de nossos estudantes. A formação básica em qualquer área científica deve incluir cursos em áreas tais como biologia, química, física e matemática(…). O estudante de psicologia no século XXI não pode se julgar competente no conhecimento de seu campo sem que tenha uma boa compreensão da pesquisa experimental, da neurociência e da genética.” O que isso nos revela?

Revela que a força do paradigma da ciência clássica – cartesiana, dualista e fragmentadora da realidade do mundo e do ser humano – predomina no mais poderoso país do planeta e, como consequência “natural”, dele se irradia a influência sobre a nossa cultura, científica e não-científica.

Esse modelo de Psicologia é elaborado nas universidades e divulgado por meio de centenas de revistas científicas nos Estados Unidos, nos países de língua inglesa e por autores dos demais países que querem se fazer presentes no prestigiado mundo acadêmico.

Infelizmente, mais uma dualidade se perpetua na coexistência da Psicologia acadêmica com a Psicologia profissional, que se desenvolve fora da Universidade, em instituições privadas, graças à atuação de psicoterapeutas.

As psicoterapias se desenvolveram de modo quase independente das universidades, a partir de experiências clínicas e do contato direto com o sofrimento de seres humanos.

Como não poderia deixar de ser, elas não obedecem aos mesmos critérios de validação da matemática, da mensuração, da replicabilidade, do controle experimental. Mais do que isso, algumas como as que se fundamentam na Fenomenologia, rompem radicalmente com o paradigma cartesiano. Contudo essa ruptura da Fenomenologia quando aplicada à Psicoterapia, como já dissemos antes, não significa abrir mão do rigor da pesquisa, não significa um “vale-tudo”, a utilização de qualquer metodologia e técnica cuja única validação é a de que “funciona”.

Partindo de uma avaliação integradora e da experiência vivida nos relacionamentos únicos que acontecem na Psicoterapia, passei a concebê-la como uma prática profissional da Psicologia que se fundamenta em noções filosóficas claras (ou implícitas) – no meu caso, as noções advindas da Fenomenologia e da Filosofia da Existência – e que inclui e evolui para uma sabedoria, o que é mais do que a soma sofisticada de conhecimentos,  teorias e técnicas.

De que falo quando falo de sabedoria?

Etimologicamente, sabedoria é, em grego, sophia, a mesma palavra presente em filosofia. Para Aristóteles, a sabedoria não pode ser uma ciência nem uma técnica. Ela fala de um saber viver, do conhecimento das atividades humanas e da melhor maneira de conduzi-las.

Tanto a originária filosofia grega, pré-platônica –  o incomparável Fragmento 50 de Heráclito que nos diz que o todo é indivisível, e que escutando ao Logos encontramos a sabedoria: “sábio é aquele que reconhece que todas as coisas são Um” –, como o milenar pensamento oriental falam de uma visão integrada da realidade (diferentemente da ciência). O conhecimento que produziram é intencionado principalmente para o aperfeiçoamento do ser humano, para o cultivo da virtude (que podemos compreender como a boa maneira de conduzir a própria vida) e para o encontro com a serenidade. Para Comte-Sponville a sabedoria é reconhecida “mais ainda, por certa liberdade (…) por certa alegria, por certo amor.” (1)

E qual é a relação entre a sabedoria e a Psicoterapia?

Primeiramente, penso que o movimento histórico, iniciado por Edmund Husserl, demolidor do dualismo e da fragmentação, se desdobra em inúmeras vertentes: o pensamento existencial de Heidegger, o pensamento da complexidade, descrito por Edgar Morin, algumas formulações inspiradas na física quântica, a ecologia profunda e outras. E penso que a aproximação gradativamente ampliada do mundo cultural e espiritual ocidental com a sabedoria oriental (principalmente com a tradição budista tibetana e japonesa) revelou outro modo de pensar o não-dualismo, a consideração de que para compreender a realidade o sujeito não está no lugar de um observador neutro, a valorização da experiência vivida como critério de validação da apreensão de toda realidade, a ênfase na responsabilidade de cada um pelas escolhas em sua vida, a crença de que é possível eliminar ou atenuar o sofrimento por meio da mudança de atitudes (e não por treinamento de comportamentos), a consideração do entrelaçamento ontológico entre todos os seres e entre os seres e a natureza circundante. O Abhidhamma se ocupa com a busca de compreensão da natureza da experiência e, deste modo, se direciona para a realidade da consciência – o mundo tal como é dado na experiência. Desse modo o empreendimento filosófico do Abhidhamma se mescla com a psicologia fenomenológica.

Considero duas consequências dessa realidade:

1ª No plano do processo psicoterapêutico: a crescente inclusão de métodos e técnicas de auto-exploração budistas (com relevância para as formas de meditação e, especialmente, a prática da mindfulness (consciência dos pensamentos, emoções e sensações corporais no momento presente, sem julgamentos) que visam o autoconhecimento, a conquista da tranquilidade como requisito para escolhas de vida, o contato com um envolvimento profundo com o outro – condição de bem-estar –,  a aprendizagem de um modo de viver que considera a mente e o corpo como uma unidade indissolúvel e, portanto, determinante para a saúde.

2ª No plano da formação e atuação do psicoterapeuta: a consideração de que a prática da psicoterapia demanda do psicoterapeuta mais do que lhe é ensinado nas universidades e nas instituições de formação profissional. Penso que esse “mais” é o cultivo da sabedoria, compreendida como uma elaboração e integração de conhecimentos e experiências que incluem, mas transcendem, o rigor da formação acadêmica, o conhecimento aprendido e apreendido com os pensadores do humano e a inserção de métodos e técnicas facilitadoras da expressão de emoções e lembranças da história de vida dos indivíduos.

Considero que a sabedoria de um psicoterapeuta pressupõe uma atitude existencial de abertura para todas as experiências humanas, a convicção da importância do não-julgamento, a procura do alívio do sofrimento das pessoas sem interferir nas suas crenças e valores. Essas características só podem se desenvolver a partir da busca pessoal do psicoterapeuta pela sua autenticidade, a partir do seu processo – de uma vida inteira – de busca da serenidade que lhe permitirá apreciar, como significativa e valiosa, cada experiência humana que lhe é revelada, no âmbito privilegiado do tempo e espaço terapêutico.


Sabedoria não é o produto do acúmulo de informações, de anos de prática, dos rendimentos financeiros, da hora ou lugar nos quais acontece a psicoterapia. Ela é a combinação pessoal de todas as experiências, reflexões, erros e acertos, do próprio sofrimento do terapeuta ao longo da vida e dos recursos que utilizou para superá-los.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

O que é “o espiritual”?

Fico muito intrigada com o uso constante que as pessoas fazem das expressões espiritual”, “espiritualidade”. O que querem dizer? A que se referem? Estava pensando sobre isso quando encontrei um pequeno livro, escrito em espanhol, tradução do francês, de um texto em alemão de Martin Heidegger*. Ufa! Um caminho complicado para buscar respostas…

Heidegger parte de uma linda estrofe de Hölderlin (ele, outra vez…):

“Entre nós, tudo se concentra sobre o espiritual, nos tornamos pobres para chegar a ser ricos”. (III,621)

Quando Heidegger se pergunta o quer dizer “espiritual” para Hölderlin, ele vai primeiro buscar o significado da expressão na sua origem grega: pneuma, e no latim: spiritus. O  “imaterial” é “espiritual”. “Isto quer dizer: o espírito é a força eficiente da iluminação e da sabedoria; em grego,Sophia” (p.97). Essa tradição foi retomada, sobretudo depois de Descartes, considerando o “espírito” como “consciência de si”, “sujeito”, “intelecto”, “entendimento”. Heidegger rejeita essa compreensão moderna, volta-se para Hölderlin tentando entender sua fala e encontra, num texto filosófico do poeta um enigma que Heidegger, mais uma vez na sua trajetória, interpreta à sua maneira:

“Nem o solo, nem os objetos que o rodeiam podem fazer sentir ao homem que existe algo mais do que um funcionamento mecânico, que. há um espírito, um deus no mundo, uma relação mais viva com aquilo que [o]circunda, uma relação sublime que o eleva acima da necessidade”. (Da religião, III, 263)

Como Hölderlin não explicita o que é essa “relação sublime” do homem com o espírito, Heidegger propõe interpretá-la como a relação do Ser (Seyn) com o homem, “de tal maneira que o Ser mesmo é essa relação, que relaciona a si a essência do homem (…) e ao estar nela, a mantém sob sua guarda e a habita. No Aberto (Offenen) desta relação do Ser com a essência do homem fazemos a experiência do ‘espírito’ ”. (p.105).
E agora?

Essa me parece uma compreensão ímpar do “espiritual”. Não é clara como estamos acostumados a buscar. Nada tem a ver com uma religião, com algum espírito “desencarnado” ou transcendente. O espiritual, para Heidegger, pertence ao âmbito da relação do ser humano com o Ser (não é possível conceituar o Ser, sempre oculto, enigma, que só pode ser poetizado e no qual não me detenho agora).

Algumas pessoas falam da espiritualidade como a experiência de contato com o que nos circunda de modo amplo: a natureza ou o cosmos.

Parece-me que nessa questão eu não encontro uma “resposta definitiva”. “O espiritual” continua sendo para mim algo de ambígua compreensão, porque tão múltipla. Sei que não reconheço afirmações que denotam uma hierarquia: a espiritualidade como uma etapa superior do “desenvolvimento da consciência” e, portanto, do ser humano. As afirmações que falam de “etapas” ou “níveis” de consciência – mais do que remeterem à concepção cartesiana de consciência como razão e entendimento – estabelecem diferenças entre os seres humanos mais “evoluídos” do que outros, porque mais “espirituais”. E não gosto nada dessas hierarquias discriminadoras…

Uma outra dificuldade para a compreensão da “espiritualidade” é a fronteira sutil entre “ela” e a religião. Muitas pessoas enfatizam: não são a mesma coisa, a espiritualidade não se vincula, necessariamente, a uma religião. Embora, claro, possa estar vinculada.

Por que tanto me intriga o atual cultivo do “espiritual”? Não rejeito a importância do envolvimento de cada um e de toda a comunidade humana com o que transcende – no sentido de “estar além de” – a vida pessoal, material, pragmática, egocêntrica. Mas rejeito a crença de que a vida cotidiana precisa de algo mais que não é ela para ter uma grandeza, beleza ou valor. Ou precisa da sua validação pela existência de um ser (ou seres) superior para encontrar o seu sentido.

E você, o que acha?

*La Pobreza (Die Armuf). Amorrortu, editores, Buenos Aires-Madrid, 2006. 

domingo, 17 de novembro de 2013

Dia da Criatividade, dias de criatividade

Uma notícia: 17 de novembro é a celebração oficial do Dia da Criatividade. Gostaria que ele fosse inspirador para muitos. Consulto nosso Aurélio e me encanto com a variedade de significados que a palavra criatividade tem: dar existência a; gerar; dar origem a; dar princípio a; produzir, inventar, imaginar; fundar, instituir. E outros mais.

Essa minha descoberta (tardia..) confirma o que eu pensava escrever sobre o tema: todos nós podemos ser criativos/criadores.

Estamos familiarizados com o uso da expressão relacionada apenas à criação artística, mas a riqueza de significados remete à uma preciosa possibilidade humana: a abertura para cada um de nós produzir, inventar, fundar sua própria vida com liberdade, a cada dia. Isso é o oposto da acomodação, da mesmice e do conformismo das respostas que damos ao que a vida nos apresenta.

Não há uma fórmula para o exercício da criatividade assim entendida. Creio que é fundamental reconhecer este “eu posso” e dar partida à experiência cotidiana de se experimentar, de inventar novas maneiras de fazer o que precisa ou deseja fazer. O que inclui coisas simples (mas não fáceis...) como não reclamar que seu filho não estuda tanto quanto devia, que os serviços no Brasil funcionam muito mal, o quanto não reconhecem seu esforço para realizar as tarefas do trabalho, etc e etc. É tudo verdade, mas conseguir “dar uma guinada” e ver de outra forma... é uma maravilha!

De certo modo estou falando em mudanças. Criar como mudar para algo melhor, ou simplesmente inaugurar uma resposta nova a algo bem familiar, seja esse algo “bom” – como o caminho bem conhecido que toma para chegar em casa – ou algo “ruim”, como queixar-se e se atormentar com o trânsito (como eu, tantas vezes...), com o comportamento da namorada ou do marido.

Criatividade no sentido bem amplo, mas nem por isso menos verdadeiro, é a experiência de transformar sua vida a cada momento, ou ao longo do tempo, de tal jeito que você faça da criatividade um desafio ou estimulo para que sua vida seja melhor – seja lá qual for a sua concepção de melhor.