terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Diga sim às emoções


Há quem acredite que se deve controlar a raiva, evitar situações tristes ou que possam resultar em mágoa, substituir as emoções por atitudes bem pensadas, racionais, que o impedem de entrar em conflitos com os outros. Seria isso possível? Seria este o melhor que se pode fazer para si mesmo?  

Acreditamos que não, pois as emoções – ainda que muitas vezes intensamente perturbadoras – nos fazem sentir mais próximos de nós mesmos, mais vivos, agregam riqueza, profundidade e beleza à vida cotidiana. Todos, de alguma forma, sabemos disso, mas muitos de nós, inconscientemente, se recusam a sentir em consequência das defesas erigidas a partir da infância contra dores reais ou imaginárias. Por exemplo, o desconfortável desamparo provocado por um pai ausente pode levar uma criança a fechar-se em si mesma ou a ficar indiferente à pessoa que a magoa – e o que é pior, a levar para a vida adulta esse tipo de postura.  Ignora, no entanto, que um muro construído para refrear o avanço da dor acaba por impedir a ocorrência do prazer e dos pequenos ou grandes momentos de felicidade.

No entanto, é possível aproximar-se das emoções e retirar delas todos os seus benefícios, desde que se entenda que as autodefesas construídas no decurso da vida constituem um empecilho ao pleno sentir e que devem, portanto, ser revistas. De fato, as defesas necessárias à proteção de uma criança desamparada (devido à  pouca idade) acabam por limitar o adulto no qual ela se transforma.

Desafio: Decida qual defesa desafiar e aprenda o que esperar na medida em que você “coloca uma distância psicológica” de si mesmo. E aí jogue sua defesa fora. Procure encontrar o sentido das emoções que começarão a emergir. Identifique de onde elas vêm, com a ajuda de um diário, de um amigo ou de uma psicóloga.

Uma viagem de descoberta de si mesmo leva tempo e não é sempre fácil. Você estará desafiando a si mesmo de uma maneira que pode fazê-lo sentir-se desconfortável. Você precisará conduzir esta auto-exploração com justeza(?) e compaixão por si mesma. NUNCA adote uma posição de julgamento, de impaciência, de dureza (harsh) punitiva diante de suas limitações. NUNCA seja crítica de si mesma.


Você não é diferente ou pior do que ninguém. Todos nós sofremos com as limitações emocionais de nossa vida. Mas as emoções são preciosas bússolas no encontro de si mesmo, no auxílio às intuições, na ajuda a discriminar o que é realmente importante nas situações de vida. 

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Casamento é uma coisa difícil

Casamento é uma coisa difícil. Conviver diariamente com alguém, adaptando-se, revoltando-se, encantando-se às vezes, sentindo-se acompanhado. Tantas experiências diversas e desafiadoras! Vale a pena? A maioria dos casais acha que sim. Uma leitora escreveu contando sua dificuldade para lidar com um comportamento constante de seu marido: a reação agressiva e intolerante quando é contrariado. Diz ela: “Brigamos muito quando eu digo alguma coisa diferente do que ele espera. Tenho a impressão que ele gostaria que eu concordasse com tudo que diz: suas sugestões, suas regras para fazer as coisas, suas opiniões sobre nossos filhos, seu modo de conduzir o trabalho, tudo enfim que me diz. Quando eu discordo, sugiro uma alternativa, argumento algo contrário, pronto – começamos uma discussão, muitas vezes idiota (me dou conta mais tarde).” E me pergunta: “Há alguma coisa que eu poderia fazer pra melhorar nosso relacionamento nessas ocasiões? Eu amo meu marido, mas nestas horas difíceis tenho vontade de fugir, sumir do casamento e procurar uma vida mais fácil.”


Todo comportamento humano é multifacetado e com motivações de apreensão inesgotável. Contudo, nesse caso da leitora,  arrisco-me a mencionar uma compreensão do que ela vive: a dificuldade de conviver com um homem adulto com a reação emocional de uma criança de três anos. A criança nessa idade não gosta de ser contrariada. Ela está experimentando ser “alguém”, descobrindo sua identidade como alguém separado da mãe e que pode fazer coisas por conta própria. Mas isso se dá em uma base ainda muito precária, por ser conquista recente. Então quando é contrariada essa autonomia fica ameaçada, sua segurança na conquista recém-realizada vai “por água abaixo”. É nessa época que os meninos são mais encorajados (sutil e nem sempre conscientemente) a expressarem sua contrariedade de modo agressivo, exuberante. E assim se estabelece um padrão de comportamento duradouro.

Os homens recebem esse estímulo e, simultaneamente, uma cobrança para que sejam assertivos e dominadores. São características que afirmam a masculinidade, dizem. Mas, como todo ser humano, experimentam dúvidas e inseguranças. Pode acontecer então que diante da contestação da mulher a suas posições, todo esse “edifício” de dominação fique ameaçado e uma reação já construída na infância irrompa vigorosa. O que antes aparecia como raiva diante da contrariedade, agora toma o feitio de ódio e prepotência. Todos sofrem. Os homens e as mulheres que partilham suas vidas.

Penso que uma mudança nesse contexto pode advir da aceitação da mulher ao seu direito de pensar diferente do outro, viver experiências diferentes do outro. Afirmar essa diferença a partir da confiança em si mesma, da autoestima. E ao homem aceitar a possibilidade de que seu valor e sua masculinidade não estão em jogo em cada afirmação que fazem. Conviver com seus limites, entender que manifestações de amor não se identificam com submissão e aceitação incondicional de tudo que ele expressa.


A diferença e a diversidade em uma relação conjugal são tão enriquecedoras quanto aquelas que existem em uma sociedade. 

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

O homem e a dor

-          Eu estava trabalhando muito. Não senti dor nenhuma. Comecei a suar, fiquei enjoado. Achei que tinha comido alguma coisa estragada no almoço. Os colegas me disseram que eu estava pálido, seria bom ir ao serviço médico. Eu disse que não era nada, logo ficaria melhor. Mas não fiquei. Esse foi o começo do meu infarto no coração.

Ouvi essa história para uma pesquisa que iria apresentar em um Congresso de Cardiologia Preventiva. Já não era o primeiro que me dizia coisas semelhantes: o início de um episódio cardíaco patológico no qual o homem não identificava as mudanças em seu corpo com uma perturbação séria do organismo.

Por que isso tanto acontece?
Creio que, em geral, os homens têm um condicionamento cultural, vindo lá da infância, no qual lhes é interditado sentirem qualquer coisa que os tornem vulneráveis. A vulnerabilidade, própria da condição humana, é, para eles (mais do que para as mulheres), sinônimo de fraqueza. E esta é abominada, considerada como “coisa de mulher”. Na ânsia de se diferenciar da mulher, de afirmar sua diferença dela e, portanto sua masculinidade, o homem acaba por negar sensações corporais e sentimentos que lhe trazem enorme prejuízo na saúde.

A conexão do corpo com o psiquismo foi negada, principalmente pela ciência, durante séculos. Atualmente inúmeras pesquisas apontam que emoções como a raiva, a constante irritação, a ansiedade intensa e contínua, o estresse, a depressão, são fatores que podem influenciar no aparecimento ou agravamento de doenças, sobretudo as cardiovasculares. Nesse sentido, além da necessidade de cuidar da vida, isto é, do modo como se leva a vida, é muito importante estar “afinado” com as experiências corporais e emocionais que podem indicar que algo “não vai bem” com o indivíduo.

Para que aconteça essa afinação – o termo empregado pelo filósofo alemão Martin Heidegger – é fundamental não ter pre-conceitos quanto ao sentir, quanto à vulnerabilidade, quanto à dor. A dor e o medo que sempre os acompanha são partes de ser gente, e os homens que erradamente acreditam que os sentimentos são barreiras à sua masculinidade acabam por terem problemas sérios, como aconteceu com o homem que me contou e, cotidianamente, acontece com tantos outros homens.

Ao lado da dificuldade de contatar-se com o corpo próprio e dar-se conta que não está se sentindo bem, existe a barreira de um passo seguinte e necessário: pedir ajuda. E, novamente, são os homens que mais relutam, adiam, evitam, pedir ajuda. É todo um modelo de masculinidade que torna-se necessário re-avaliar. Porque não são mais apenas papéis sociais que estão em jogo: é a própria vida dos homens.

Se a ciência está mostrando o entrelaçamento das funções fisiológicas com o vivido psicologicamente, o padrão masculino de comportamentos relacionado a estes aspectos que mencionamos torna-se uma ameaça à sua sobrevivência no mundo.


Tudo muda, dizia Heráclito. Tomara em breve os homens possam sentir a dor no corpo e na alma, considerá-las com seriedade, desejar delas, cuidar e buscar ajuda onde acreditarem ela melhor exista.

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Paulo Coelho: líder espiritual global

A revista inglesa MindBodySpirit publicou, uma lista das 100 pessoas vivas mais influentes espiritualmente no mundo. (edição nº33, Spring 2013),
Recebi essa revista por engano de uma amiga. Nem sabia de sua existência. Por que falar dela? Pela minha surpresa e por meus pensamentos dela decorrentes. O fato desencadeante: Paulo Coelho ocupa o 7º lugar da lista! Considerando que o Dalai Lama está no 1º, Thich Nhat Hanh no 2º e EckhartTolle no 3º, imagine meu espanto. 
A lista foi elaborada a partir de mais de 600 candidatos e tem o objetivo de “servir como um guia positivo dos professores líderes” que podem inspirar as pessoas por seu impacto.
Não quero falar da qualidade literária dos livros de Paulo Coelho. Já escreveram demais sobre isso. Eu mesma o conheço muito pouco. Mas, sem dúvida, o que a mim causa impacto é esse reconhecimento por um lugar que ele ocupa no mundo. Pelo contraste entre o pouco caso e até diria, desprezo, que recebe no Brasil, e a repercussão “global” do que ele diz e escreve.
Creio que o que me toca, particularmente, é a constatação reiterada de como nós, brasileiros, temos pouca consideração com todas as nossas formas de produção: da literatura, ao açaí. Acho incrível como os norte-americanos, por exemplo, valorizam qualquer expressão sua e como, por contraste, nós fazemos o oposto. Muitas vezes me emocionei com a intensidade e quantidade de aplausos que os artistas recebem quando se apresentam em público nas cidades norte-americanas. A aprovação entusiasmada das atuações nem sempre admiráveis, mas sempre reconhecidas com calor.
Creio que minha emoção está relacionada com a compaixão por nós, brasileiros. Nosso abandono e “solidão” no mundo. Sempre volto a pensar no bordão de Lula: como povo, não temos auto-estima. Se algo é feito aqui, não presta. Se alguém escreve aqui, há outros na Europa, nos Estados Unidos, no Japão – que são muito melhores. E por aí vai.
Intervalo: enquanto pensava em escrever esse texto aqui, ouvi um dia o programa Observatório de Imprensa, na rádio MEC. O tema do dia: o “complexo de vira-lata” dos brasileiros. Por que “o complexo” aparece agora? Pela euforia, na mídia, com a exploração do xisto, (fonte energética), nos EUA e assim, mais uma vez, diz ela, nós ficamos para trás na corrida pelo desenvolvimento econômico. Mas o Observatório denunciava os riscos ambientais da sua produção e o fato de que o Brasil é um grande produtor mundial do tal xisto.
Minha história continua…
Depois de ter começado a escrever meu texto, leio o artigo do físico José Goldemberg no jornal Estado de S. Paulo. Relacionado ao meu interesse imediato, disse ele: - na França foi proibida a exploração do xisto; - a empresa russa que é a maior produtora mundial do xisto declarou recentemente que “a revolução energética (trazida pelo xisto) é talvez (o “talvez” deve ser uma sutileza diplomática, digo eu…) uma bem organizada campanha de relações públicas”.
Como não é a primeira vez que falo alguma coisa sobre o tema, me pergunto o que anda acontecendo comigo… Provavelmente o relaciono com outro, bem próximo, sobre o qual desejo pesquisar e escrever: o quanto as pessoas consideram que os outros, e elas mesmas, se importam com quem são. Como o “importar-se” com si mesmo é imprescindível nas escolhas e decisões na vida, como o importar-se com os outros está na base da compaixão e como a percepção de que “eu conto” para os outros contribui significativamente para a felicidade (palavra perigosa nesse momento…) e saúde mental (outro perigo…).

Fui muito longe. Divago. É melhor voltar outro dia para escrever sobre “contar”, “ser importante para”, “valorizar”.

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Faça acontecer

O livro de Sheryl Sandberg, “Faça Acontecer”, é muito bom. Carreguei-o por todos os lados, li nas minhas viagens de ida e volta para casa, do Rio para Petrópolis, nos pequenos intervalos de meu trabalho no consultório. Ela diz coisas que andavam esquecidas, desde que o movimento feminista perdeu força. As mulheres acreditam que não precisam fazer mais nada, o feminismo fez conquistas e se esgotou. Sandberg denuncia, e mostra com pesquisas, bibliografia e depoimentos, que a desigualdade de tratamento, percepção, salários e oportunidades de trabalho continuam sob o jugo do preconceito e da discriminação, da desigualdade entre os sexos. Mas há ainda dois aspectos extremamente positivos no livro: seu depoimento pessoal sobre sua carreira e vida familiar – peculiar por ser ela “a 5ª mulher mais poderosa” do mundo (revista Fortune, em 2012) – e a sua proposta de avanço necessário das conquistas psicológicas e sociais da mulher.
Sandberg passa quase o livro todo apontando as sutis — e não tão sutis — formas pelas quais as mulheres não assumem seu poder de desenvolvimento e não “levantam a mão” para expressar o que pensam no mundo das empresas e instituições. Gostei muito de ela escolher o “levantar a mão” para mostrar a diferença entre homens e mulheres. Há anos vejo em palestras, aulas e conferências — minhas e de outros — como são os homens que mais levantam a mão para fazer perguntas, comentários, desafios. Sempre lamentei isso e, algumas vezes, confesso, fiz perguntas só para “fazer número”, para fazer acontecer. Incomodava-me a “ausência” das mulheres. Devo ter falado muita bobagem, mas falei!
A temática principal do livro é o estímulo, dado pela autora, para que as mulheres sejam cada vez mais donas de sua história pessoal e profissional, para que não se deixem intimidar pelo poder masculino que domina o mundo do trabalho e da família, para que não abdiquem de se desenvolver e de conquistar lugares de destaque e poder social. É uma “velha” mensagem, mas, como ela mesma diz, ainda falta muito para que exista igualdade entre os sexos e para que possamos abrir mão desse tipo de mensagem.  O grande trunfo de Sheryl Sandberg é a enorme e crescente responsabilidade que há anos ela vive no trabalho – atualmente é a segunda profissional na hierarquia do Facebook –, combinada com uma rica vida familiar.
E aí?
Lá pelas tantas do livro lembrei-me de uma experiência feminina que sempre me intrigou. E como ela não consta da narrativa de Sandberg, pensei em falar dela aqui no meu blog.
Qual experiência?
A do enorme sentimento de poder vivido por muitas mulheres na relação com os filhos, principalmente quando pequenos. O menininho entra cauteloso pela primeira vez na escola. A mãe não contém as lágrimas. A separação dói. Há um sentimento de perda, de abandono. Ele pode fazer algo longe dela! Pode gostar e se ligar a outra mulher! O filho lhe escapa!
Já ouvi muitas queixas de professoras: seu trabalho de adaptação das crianças pequenas na escola às vezes é dificílimo porque… as mães fazem “de tudo” para a criança relutar em se afastar dela e entrar na sala.
Ou quando a adolescente começa a se apegar às amigas ou inicia um namoro, um “ficar”, e a mãe, (muitas vezes também o pai), aumenta o controle de saídas e horários. Sob a aparência de cuidado e proteção (que incluí a famosa e onipresente preocupação), percebo a necessidade de domínio, a enorme dificuldade de “deixar ir”, de “deixar ser” a filha ou filho.
O fato é que há nessas situações o exercício vicário de poder.
E me pergunto até que ponto essa experiência de poder sobre os filhos ocupa um lugar tão importante, tão atraente e tão bem aceito socialmente na vida de uma mulher que ela abre mão da conquista do poder social, financeiro, existencial, advindo da convivência (e competição!) com os outros, sejam eles seus companheiros de vida ou de trabalho.

Não tenho nenhuma resposta comprovada, mas deixo aqui um estímulo (tomara!) para uma reflexão frutífera.

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Uma Notícia em Psicologia: A PSICOTERAPIA TAO

Participei da Convenção Anual da American Psychological Association da qual sou um membro internacional. Mais uma vez me surpreendi com a grandiosidade de tudo que lá acontece e aparece: o número de apresentações de trabalhos, a variedade de temas, a exibição de publicações, DVDs, testes de vários tipos de avaliação psicológica, filmes com temas de interesse específico para os profissionais, encontros informais para network, sessões de posters feitos principalmente por jovens psicólogos doutorandos de todo o país. De um tudo.
Entre tantas palestras e painéis, fui assistir ao que chamava “Conversation hour: Intersubjectivity and Human Existence – a Dialogue of Emotional Worlds and Dasein.
Como minha formação em psicoterapia é baseada na filosofia existencial, fui correndo procurar o local – o que não era fácil empreitada. O edifício para convenções era gigantesco, enormes corredores atapetados, salas de teto altíssimo, alas “embutidas” nos corredores.
Conheci então um dos trabalhos que mais me intrigou: a palestra do psicólogo Dr. Erik Craig (nos EUA só recebem a denominação de psicólogo os que têm doutorado). Ao final de sua apresentação fui cumprimentá-lo. Disse que eu era brasileira e gostaria de receber uma cópia de seu trabalho. Seu tema era muito original e pouco conhecido em meu país. Na mesma hora entregou-me um exemplar do artigo já publicado, em 2007, na revista The Humanistic Psychologist:

Tao Psychotherapy: Introducing a New Approach to Humanistic Practice.
O texto narra como Craig conheceu o psiquiatra coreano Dr. Rhee Dongshick e a abordagem psicoterápica que Dongshick denominou Psicoterapia Tao. E o que é Psicoterapia Tao?
Transcrevo o resumo oferecido por Craig:
“A Psicoterapia Tao é fundamentalmente uma abordagem humanista profunda na psicoterapia. Ela é psicodinâmica e interessada com os conflitos e sofrimentos humanos, e ao mesmo tempo é essencialmente transcendental, transpessoal, ou espiritual. Como a Daseinanalyse no ocidente, a Psicoterapia Tao oferece um fundamento filosófico (i.e., ético, epistemológico e ontológico) para a psicologia e psicoterapia.” (p.124)
Embora tenha influência da Daseinanalytic de Martin Heidegger e de várias abordagens da psicoterapia profunda do ocidente, principalmente da Daseinanalyse de Medard Boss e da Psicanálise – ela busca sua fonte originária no Taoísmo e no Budismo Mahayana.

As quatro principais ênfases da Psicoterapia Tao são:
1. O desenvolvimento da personalidade do psicoterapeuta a partir tanto da psicoterapia profunda ocidental quanto do pensamento e prática oriental que têm como foco o esvaziamento e purificação da mente. Craig identifica aqui uma aproximação com a prática da redução fenomenológica de Husserl.
2. A afinação empática (este termo é muito próximo àstimmung de Heidegger e, por aí, minha afinação com a proposta de Craig e Rhee) e a compaixão do terapeuta com o paciente e suas vivências.
3. A ênfase nas “emoções nucleares” – denominação dada por Rhee Dongshick – que, resumidamente, abrangem os complexos afetivos e emocionais originados na infância e que constituem uma influência motivacional por toda a vida.
4. O valor insubstituível na psicoterapia da experiência vivida (Erlebnis). Isto significa que o terapeuta deliberadamente evita interpretações intelectuais em favor da apreensão direta do vivido pelo paciente (este também é um ponto central na abordagem terapêutica fenomenológica-existencial).

A psicoterapia Tao privilegia a utilização de mitos culturais e alegorias e não acredita que o terapeuta deve dar especial importância a específicos métodos e técnicas. “Ser”, e não “fazer”, é o centro/coração desta terapia.

Finalizando este breve resumo, assinalo a correspondência que Craig faz da noção de nada ou vazio, aspecto central tanto do Taoísmo e Budismo, com a do nada em Heidegger. “O Tao é um vazio em espiral”, “o eterno não-ser” diz o Tao Te Ching (Chen, 1989).

Mas isso não indica um nihilismo filosófico. Ao contrário. O vazio ou o nada é a experiência mais pregnante. Dele co-nascem (expressão usada por Thich Nhat Hanh) o mundo e todos os entes nele. O vazio é a experiência fundamental, grávida da possibilidade do indivíduo alcançar o Satori, a iluminação. Em termos existenciais, a autenticidade e o “deixar ser” de todas as coisas, a “abertura para o mistério” (expressão usada por Heidegger no texto “Gelassenheit”,1959).


Enfim, meu contato com este texto sobre a Psicoterapia Tao me faz apreciar, uma vez mais, a beleza e importância da integração do mundo oriental com o nosso e a aceitação da diferença como abertura para a ampliação de nossa visão de mundo. Tudo isso reforça minha convicção de que um bom terapeuta “traz a Primavera para a terra gelada do paciente”, como disse o Dr. Rhee em feitio de koan.

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Meu choro bom

Vi um espetáculo na TV Cultura: a apresentação na Sala São Paulo da Orquestra de Metais Lyra-Tatuí. E aí?… Chorei e ri quase uma hora. Não conseguia parar, a emoção mudou meu estar-no-mundo de tal maneira que fiquei assim, boba e alegre. Pouca gente deve saber dessa Orquestra: as coisas boas do Brasil são muito pouco divulgadas. Somos bombardeados pela mídia por notícias de violência, de corrupção, de desastres naturais absurdos nas suas consequências, de ameaças de guerras. Pouco tempo e espaço são dados a algumas maravilhas que existem no mundo. Mas hoje vivi uma exceção: assistir, em casa, partilhando com meu marido estrangeiro, à apresentação de crianças e adolescentes, brasileiros de Tatuí, SP, tocando instrumentos de sopro e percussão, dançando em coreografia original, cantando ou cantarolando lindamente. Um grupo grande e diversificado na cor de suas peles, na escolha de suas músicas, nos instrumentos complexos ou simples.

Lá pelas tantas houve um pequeno intervalo no programa e o maestro e professor do grupo, Adalto Soares, contou sua experiência de ensino e regência na pequena cidade, com essas crianças e jovens. Falou da alegria e medo deles por se apresentarem na Sala São Paulo, tão cheia de prestígio que é. E das apresentações, bem recebidas, em outras cidades, inclusive européias, como na Alemanha. Logo descreve como a formação musical do grupo começa cedo e apresenta uma menininha linda, de quatro anos. Pede a ela que toque, diante do enorme público, uma nota em seu pequeno instrumento. E lá continuava eu chorando. Quando, ao final do espetáculo, o grupo apresentou um pot-pourri de músicas brasileiras clássicas, populares, um baião dançado com alegria e sensualidade e… o hino nacional – pronto. Nunca consegui ouvir o hino sem chorar muito. As lágrimas correm, a adrenalina corre solta. Emociono-me como se a música estivesse salvando o Brasil, ali, agora. Nem adianta raciocinar, chamar uma lógica ou a vergonha. É assim. Mas felizmente o choro se misturava à minha alegria por sentir orgulho daquelas crianças, daquele jovem maestro dedicado que me faziam ver meu país com olhos mais generosos do que o cotidiano me favorece.