Gosto de viver experiências que
me surpreendem. De preferência boas, claro. Viajar para além de minha cidade
costuma favorecê-las.
Ontem fui assistir ao concerto de
dois mestres, no incrível teatro Colón, em Buenos Aires: Martha Argerich e Daniel
Barenboim “tomados de la mano, puro
afecto y complicidad”, como descreveu o jornal La Nación. Gente por todos
os lados, sete níveis de poltronas, mais um montão em pé nas laterais da
platéia. Confesso que me emocionei tanto com a beleza da música, o apuro das
interpretações, dois pianos em harmonia perfeita, como com a alegria das
pessoas, o entusiasmo pelo prazer renovado de ter os dois artistas de volta à
sua cidade natal, eles que vivem há décadas em países europeus.
Pois bem, no dia seguinte, uma quarta-feira,
estou em uma fila na calçada procurando seguir as instruções de meu amigo
portenho que insistia para eu carregar um cartão que me permitiria andar nos
ônibus sem me preocupar com moedas (necessárias sempre, porque não aceitam
fazer troco). Eu tinha que inserir o tal cartão em uma máquina e fazer a
operação de carregamento. Eis que o homem à minha frente começa a reclamar que
a máquina não funciona. Repete a operação mais de uma vez. Nada. A velhinha
atrás dele desiste. Eu continuo ali, não desisto fácil de nada... Faço, em voz
alta, aquelas perguntas vazias: o que será que aconteceu? Tem jeito? Não dá
mesmo? E eu que não tenho moedas, não dá pra pegar um ônibus, não é? E é assim
que recebo, do senhor atrás de mim, o comentário convicto que não só me
surpreendeu como, decididamente, me encantou: “Não se preocupe, não precisa de
moeda nenhuma. As pessoas aqui são gentis e de boa vontade. Pode ir sem
problema, o motorista não vai lhe cobrar nada.”
(E eu que nem precisava pegar
ônibus. Estava apenas sendo obediente. Os táxis em Buenos Aires são
baratíssimos). Duas surpresas distintas no seu significado e importância
cultural, mas igualadas na minha admiração pelo humano deste mundo...








