segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Aposentadoria: as interrogações da mudança.

A aposentadoria sempre levanta várias questões que merecem ser pensadas: como lidar com as mudanças na vida? Como lidar consigo mesmo? O que fazer para não ficar isolado? É possível manter os relacionamentos construídos em sua instituição de trabalho ou em sua clínica?



A decisão e o processo de aposentar-se são sempre difíceis, em qualquer lugar do mundo.
 Em 2012 eu estava na Convenção Anual da American Psychological Association e assisti a inúmeras apresentações de trabalhos relacionados à Psicologia. Tudo lá acontece em dimensões que surpreendem uma profissional brasileira como eu: dezenas de palestras, diversidade de temas, psicólogos de vários estados e, mesmo membros (como eu) de diferentes países.
Pois bem, a palestra que até hoje me lembro bem, me faz pensar, me inspira para a realização de um trabalho específico, foi a da Dra. Nancy K. Schlossberg sobre aposentadorias. E foi a de maior audiência entre todas que assisti. Seus cabelos naturalmente brancos, seu senso de humor, a facilidade de expressão, os depoimentos sobre seu próprio processo de aposentadoria criaram uma atmosfera de interesse e calor na enorme platéia.
Sempre pensei que um dia iria morrer sentada em minha poltrona, conversando com a paciente do momento, tamanha a minha paixão por meu trabalho como psicóloga e psicoterapeuta. Agora me vejo mudando: será mesmo? Será que é bom descobrir novas vias para o talento que acredito ter?
Penso que os médicos, sejam quais forem suas especialidades, o estágio profissional que alcançaram, a poupança que fizeram – vivem o mesmo dilema que eu: qual o melhor momento para se aposentar? Vale a pena pensar no tema? Quando? Ou é melhor nem pensar nisso, apenas ir vivendo o dia-a-dia da profissão?
Não há uma “melhor resposta” teórica ou científica. Cada médico tem uma experiência própria e, sobretudo, valores próprios. São os valores que irão orientar a escolha, mesmo que outros fatores sejam importantes.
Se o médico (ou médica) tem uma família que o absorve e a qual dedica um afeto intenso, ele vai optar por logo, logo, buscar os meios e estratégias para se aposentar. O mesmo se seu sonho de sempre é viajar, conhecer lugares novos ou voltar com mais tempo para apreciar aqueles que amou.
Mas se o trabalho ocupa um lugar primordial em sua vida, aí as dificuldades aparecem. Afinal quer a aposentadoria aconteça como um evento único, ou uma sucessão de eventos, ela muda a vida de modo muito significativo. Quanto mais a identidade é vinculada ao papel profissional, mais difícil é a aposentadoria. Nesses casos, o profissional sente que deixará de ser quem é, acha que perderá suas referências e, pior, antecipa que não mais terá a apreciação e o reconhecimento social que sempre teve.
E viver sem isso é quase como morrer. Morrer socialmente é tão penoso quanto morrer fisicamente.
A aposentadoria levanta várias questões: Como lidar com as mudanças na vida de casal? Algumas vezes elas são positivas, outras não. Como lidar consigo mesmo? O que fazer para não ficar isolado? É possível manter os relacionamentos construídos em sua instituição de trabalho ou em sua clínica?
De qualquer modo as mudanças pedem um movimento de adaptação, uma avaliação profunda do que lhe é importante ou não.
É claro que também é possível buscar um trabalho de tempo parcial no qual o médico use sua formação e habilidades para continuar conectado com sua profissão, mas sem o stress e as exigências costumeiras. Esse caminho pode ser muito satisfatório, pode  facilitar a manutenção do status financeiro e a manutenção de relações sociais, em geral aspectos preciosos na profissão.
Algumas pessoas amam os riscos. Não os riscos financeiros que a mídia tanto prestigia. Mas refiro-me aos riscos existenciais, aqueles nos quais buscamos experiências que podem nos enriquecer como pessoas, que podem acrescentar uma dimensão em nós nunca antes experimentadas.
É preciso ter consciência que a aposentadoria significa mudança, re-estruturação da vida, uma certa “bagunça” que requerem tempo e invocam a  clássica pergunta: O que eu quero da vida ? Afinal o trabalho nos dá não apenas uma identidade, mas um estilo de vida e de relacionamentos. Deixar um trabalho é muito mais do que deixar de trabalhar. Contudo, aposentar não é um fim, mas uma transição na vida.

Algumas dicas para este tempo, tais como sugeridas pela Dra. Nancy Schlossberg :
1.      Sinta-se confiante de que você “conta” para algumas pessoas, que é reconhecido, apreciado. Se isso não acontece, comece a pensar em como “mexer” com sua vida, de tal forma que esta sua avaliação mude.
2.      Descubra o que tem significado para você. A espiritualidade é um componente importante na vida de muitas pessoas e ela ajuda nessa fase. Ela pode ter diferentes formas: yoga, leitura, participação em uma religião organizada.
3.      Substitua as relações que tem (ou tinha) no trabalho. É importante ter um papel ativo na construção de um novo network de amigos e conhecidos.
4.      Comece ou aumente as atividades físicas. Entre para uma academia, um grupo de caminhadas, contrate um treinador pessoal para você.
5.      Mantenha sua vida financeira organizada. Se necessário, contrate um contador ou um assessor financeiro para lhe ajudar.
6.      Olhe para dentro de si mesmo. Examinar sua vida é uma tarefa desafiadora, mas que lhe ajuda a lidar com os problemas que surgem continuamente ao longo dos anos de aposentadoria.

Os planos, angústias, desafios e alegrias da aposentadoria são um tema fascinante da experiência humana. Nela se desvelam aspectos insuspeitados que podem contribuir para anos de bem estar e felicidade.
Como isso se dá?
Ah!... cada um tem (ou terá) sua própria história...

Bibliografia:
Retire smart, Retire happy (2009, APA Life Tools)

Autora: Dra Amaryllis Schvinger - Psicóloga graduada pela PUC-RJ e Doutora em Psicologia pela UFRJ.




sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

O coração no trabalho

Pesquisas recentes realizadas na Europa e nos Estados Unidos, por médicos e psicólogos, evidenciam a influência negativa do distresse – o estresse prejudicial à saúde – na vida de trabalhadores. Participantes do Congresso Internacional de Ambiente de Trabalho e Doenças Cardiovasculares, na Califórnia, apresentaram pesquisas que indicam que estressores como pouca recompensa pelo esforço no trabalho, ambiente hostil e horário longo de tarefas podem determinar o risco dos trabalhadores para doenças cardiovasculares1.

Quando o trabalhador, operário ou gerente, não tem autoridade para tomar decisões, tampouco controle sobre seu processo de trabalho e muita insegurança quanto permanecer na função, é provável que viva um alto nível de distresse psicológico e, a partir dele, o risco de desenvolver uma doença cardiovascular .

Homens e mulheres vivem exigências relacionadas ao trabalho que muitas vezes superam seus recursos para lidar com elas. Horários rígidos, multiplicidade de tarefas, baixos salários, competição no mercado, são condições que poucos avaliam corretamente como drasticamente prejudiciais à saúde. Muitas vezes encontro pessoas que acreditam que podem trabalhar mais, esforçar-se mais, dedicar mais horas do lazer para preencher supostas lacunas da jornada de trabalho. Os filhos são quem mais reclamam e se ressentem deste super-empenho. Eles querem não apenas mais companhia e cuidados, mas temem pela vida dos pais. Intuitivamente sabem que as demandas excessivas afetam o corpo, e nele, sobretudo o coração.

Procurar formas de lidar com as pressões do trabalho que sejam preventivas de doenças cardiovasculares é um projeto de vida valioso. Criar pausas para relaxar durante o dia, entrar em contato com os próprios sentimentos, ter uma percepção de si como finito, valorizar sua vida afetiva – e, portanto buscar o apoio de colegas, amigos e familiares – são variedades do manejo de estresse indicadas por especialistas.

O trabalho e o salário são fundamentais na vida da maioria das pessoas, mas não merecem qualquer preço a pagar por eles. Os riscos de doenças coronarianas, já comprovados, advindos da ansiedade excessiva, do trabalho extenuante, da irritabilidade contínua, indicam a necessidade das pessoas refletirem sobre seus valores, prioridades e projetos de vida. Muitas vezes só se dão conta disso depois de um diagnóstico de hipertensão arterial ou de um evento cardíaco mais sério como o infarto do miocárdio. É quando a experiência de crise conduz a um questionamento de tudo que constitui a vida do indivíduo.

Por que não adiantar o relógio de uma tal crise e reavaliar logo seu mundo do trabalho?



[1] The Monitor on Psychology, vol.36,n.5, 2005.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

O cultivo da mesmice

Sempre me intriga observar como muitas pessoas discutem calorosamente sobre seu gosto por uma coisa ou outra e como isso acontece em relação às coisas mais banais da vida. Outro dia ouvi a conversa de duas amigas que gastaram minutos e minutos exaltando as qualidades de seu adoçante preferido e rejeitando o preferido pela outra. Se o tema é mais complexo, aí é que a discussão se prolonga, a emoção se intensifica e a preferência ou gosto torna-se uma arma de batalha.


O que me chama a atenção é o esforço que se faz para convencer o interlocutor, como se fosse necessário manter sua posição a qualquer preço, não importa o valor do que se discute. “Marcar a diferença” é sinônimo de forma sobre o outro? E é isso que faz sentir-se melhor?

O que será que está em questão?
Claro que há teorias que servem para tudo explicar. Por exemplo, a que afirma a necessidade humana de se sentir enraizado, ligado ao que lhe é familiar. Outra que aponta o sentimento de segurança advindo de o indivíduo se sentir “o mesmo” em todas as circunstâncias, para viver uma identidade, para não se desorganizar mentalmente. Algo que poderia se formular assim: “se eu digo e sinto sempre o mesmo em relação às coisas da vida, então sou um ‘eu’ firme e seguro” ou “se defendo com muita energia o que penso, então sou forte.”

Uma consequência devastadora desta atitude de cultivo da mesmice é a discriminação do que é diferente, do que não se “encaixa” nos modelos, opiniões e preferências de cada um. Certa vez um rapaz, entrevistado na televisão sobre o tema do homossexualismo, comentou com muito humor: “As pessoas discriminam tanto o que é diferente que até a tampa do pão de fôrma rejeitam.”


A aceitação do que lhe é diferente, a possibilidade de lidar com um comportamento distinto do seu, a abertura para o que lhe é desconhecido, constituem um desafio que poderá trazer uma diversidade de experiências que proporcionarão encantamento, surpresa, curiosidade ou até medo. Não há garantias. Mas se percebermos que o diferente pode se somar ao que somos, ou temos, e nos tornar menos existencialmente provincianos, aumentará muito o ganho de riqueza na vida e generosidade com os demais. Porque penso que provinciano não é próprio, necessariamente, dos indivíduos que moram na província, na cidade pequena. É um atributo que podemos dar àqueles que vivem encapsulados, limitados a um mundo estreito, plenos de certezas e opiniões imutáveis – essa é a conotação existencial do termo. E eles podem viver em metrópolis.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

Ta Máthema


Desde Galileu, bem no início do século XVI, nós começamos a ser orientados na busca do conhecimento pela ta Máthema – a Matemática, em grego.  Galileu foi um herói de nossa história ocidental.  Pela primeira vez houve um rompimento com as ideias da igreja cristã que quase lhe custou a vida. Como podia contestar que o sol não girava em torno da Terra? Como ousar dizer que o céu não era perfeito, que todos os astros não eram compostos pelo éter? Galileu construiu telescópios, mediu distâncias nunca antes exploradas, analisou o movimento da Terra e dos astros e... chegou à conclusão de que a verdadeira linguagem da natureza é a matemática.

O que isso tem a ver com nossa vida cotidiana, essa que tanto nos importa e tanto nos inquieta?

Duas reflexões nos aparecem: a primeira fala desta herança, radicalizada pelo filósofo francês Descartes, de que só é verdadeiro o que pode ser medido, o que é matematizável. Tudo que apreendemos pela imaginação, pelo sonho, pela percepção dos sentidos, é ilusório, porque muda no tempo e no espaço. Mas o que se traduz em uma fórmula ou equação é perene, portanto válido. Esta “verdade suprema” até hoje domina nossas vidas. Quando, por exemplo, alguém acredita que apenas tomando um remédio – uma fórmula química – encontrará a solução para seus males do corpo e da alma (mente? psique?) está sendo fiel à Galileu , à  Descartes e à ciência moderna que deles deriva. Quando os médicos lidam com seu paciente como se ele fosse uma máquina desarranjada, ou mesmo quando sendo um especialista no tratamento de uma parte do corpo físico desconsidera que esta parte pertence a um sujeito – estão reproduzindo, saibam ou não, os ensinamentos de Galileu e Descartes.

Quando o conhecimento se origina tão longe no tempo e se constitui como base de um poder social – como aconteceu na ciência e na medicina – é muito difícil mudar a visão de mundo de médicos e cientistas.  A abertura para o novo, a experimentação realizada segundo outros paradigmas, a apreensão do indivíduo humano como uma unidade de corporeidade e consciência (sem hierarquia do que é “superior” e “inferior”) é difícil, mas creio, inexorável. Assim como impérios dominam grande parte do planeta e, pouco a pouco, se desmoronam, outros se constituindo e ocupando seu lugar, também modelos de pensar e agir se transformam a partir da emergência de conhecimentos novos e da gradual obsolescência dos que até então prevalecem.

Galileu nunca será esquecido, sua rebeldia em relação aos teólogos da Inquisição, a afirmação da ta Máthema como método de conhecimento necessário para transcender os dogmas bíblicos, fazem dele um modelo para cientistas (como os da Física Quântica) e profissionais, (como os da Psicologia)  que afirmam contra o modelo de ciência vigente:

1.      a inclusão  da subjetividade em toda forma de investigação;
2.      o lugar de domínio da  matemática nas ciências naturais, mas não em todas as áreas do conhecimento e
3.      a consideração de que as emoções, os sentimentos, as percepções e os afetos dos seres humanos não são um estorvo, mas aspectos da realidade que enriquecem o conhecimento e ultrapassam as limitações da matemática e suas derivações, como a tecnologia.


Devemos gratidão eterna a Galileu e Descartes, mas não uma eterna submissão.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Como viver um momento difícil? A mítica do “isso passa”

Eu estava dirigindo o carro, na estrada União e Indústria, em Petrópolis, sexta-feira passada. Ia visitar uma pessoa muito querida em um dos hospitais da cidade. É meu amigo de longo tempo, está muito doente, precisa de um tratamento urgente. O caminho até o hospital era longo, demorado, porque impossível ultrapassar qualquer carro. Como sempre. Decidi falar sozinha. É meu jeito de me acalmar, de me dizer coisas que preciso ouvir para encontrar meu eixo. Falo alto, até grito quando preciso de ênfase.

E então me ouvi dizendo: vai passar, vai passar.

No instante seguinte: o que quer dizer “vai passar”? De que estou falando? O que eu sinto? Identifico que me percebo me consolando, me empurrando a ter fé, algum tipo de fé. Alguns instantes se passam.  Nada muda. Estou igual a quando a “conversa” começou. Encurto agora tudo que eu me disse, o tanto que falei da minha tristeza e preocupações, da raiva meio escondida, mas certamente presente. Sou prolixa, seria capaz de escrever muitos detalhes desinteressantes dessa longa conversa, mesmo que ela me seja importante.

O trânsito continuava infame, fiz uma pausa.
E aí me apareceu uma verdade que eu não conhecia, ou pelo menos, não que eu me lembre com essa formulação: “vai passar” é uma forma manca, distorcida, “otimista”, de uma realidade profunda: vai mudar. Claro! O velho Heráclito com seu panta rei (tudo flui) de volta pra mim! O budismo tibetano que me afirma incessantemente a impermanência! Fiquei contente. Como a verdade me faz bem. Então o verdadeiro sentido do “vai passar” é que o acontecimento de agora vai mudar, ele existe no presente, é assim que precisa ser vivido, em toda sua intensidade e eventual complexidade, mas só existe agora.

Claro que a mudança do que estou vivendo agora não traz consigo nenhuma outra certeza. Estou sofrendo, estou triste, meu amigo está muito doente. O que a mudança trará? Não sei. Não sei. Não quero e nem posso me apegar a antecipações positivas ou negativas. Imaginar agora que ele vai se tratar e logo ficar bom, ou que sua doença vai se agravar e vou perdê-lo – são falsas realidades, e por isso me fariam mal.

É difícil viver no presente. O cotidiano, na nossa cultura de urgências e controles, o onipresente medo, me pressionam a correr, ir adiante, prever, “me preparar”.

(Bem sei o quanto estes temas são recorrentes no meu trabalho como psicoterapeuta. O quanto preciso facilitar nas pessoas o aparecimento da chamada para viver o presente e, nesse mesmo processo, conseguir a compreensão e superação dos obstáculos para que isso aconteça ).

Chego ao pátio do hospital, me dou conta de como o dia está bonito, o céu tão azul nesse final de primavera. Estes momentos de auto-encontro me fazem bem, vejo que persisto na minha busca pela paz e grounding no momento presente.


Claro que até a próxima vez na estrada, até a próxima auto-conversa complicada... E tudo bem. A vida é assim, movimento, mudança, instabilidade, surpresas.


terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Este corpo que sou eu


A tradição científica nos diz que somos feitos de duas partes distintas: uma é material (o corpo) e a outra é imaterial (a psique ou mente ou espírito). Essa divisão permeia não apenas as investigações biológicas, médicas, psicológicas, como entranha nosso dia a dia. Falamos do fígado, do coração, da dor nas pernas, na “coluna”, como se fossem objetos, coisas que precisam ser consertadas para que possamos ter saúde e viver bem.

Embora o conhecimento científico tenha trazido muitos benefícios para o tratamento dos males que nos afligem, precisamos considerar que ele não é a única forma de apreender os fenômenos humanos, entre eles o da corporeidade. A fenomenologia existencial aponta para o fato de que a corporeidade é constitutiva da existência. Isto quer dizer que é própria do ser humano, não é “algo a mais”, uma coisa externa a ele. Eu sou meu corpo. Quais consequências decorrem  deste modo de olhar, de apreender o corpo? Uma delas é a de que a doença, o mal estar, um sintoma, falam de uma alteração no viver que podem ser tratados com medicações, mas que, além disso, são um chamado para que a pessoa se detenha e “escute” a si mesmo,  busque encontrar não apenas as “causas” da doença, mas aquilo do que a doença fala.


H. é uma mulher de quase 60 anos. Procurou-me para psicoterapia por indicação de seu médico clínico. Queixa-se de enjôos frequentes, dor no estômago e cansaço exagerado. Com frequência, convidando-a a vir até sua casa, na verdade H. faz contínuas críticas contundentes ao seu comportamento. Acha que a nora domina o marido - seu único filho - afasta-a da neta, não gosta dela. Aos poucos descobre e aceita a conexão entre seus sintomas corporais e a experiência de não ser ela mesma em uma área importante de sua vida.

A doença traz mudanças de vida, torna a pessoa “diferente”, usando-se a referência de que todo mundo é saudável. Sintomas fazem com que o indivíduo não mais permaneça mergulhado nos afazeres cotidianos, muitas vezes longe de si mesmo. Mas se os considerarmos como alterações no corpo que somos, e não no corpo que temos, eles podem ser vividos como limites, trazendo medo, sofrimento e revolta e, ao mesmo tempo, serem abertura para a aceitação profunda de que a existência é vulnerável, finita e, como tal, precisa ser vivida em consonância com o que realmente a pessoa acredita e almeja para si.   

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Diga sim às emoções


Há quem acredite que se deve controlar a raiva, evitar situações tristes ou que possam resultar em mágoa, substituir as emoções por atitudes bem pensadas, racionais, que o impedem de entrar em conflitos com os outros. Seria isso possível? Seria este o melhor que se pode fazer para si mesmo?  

Acreditamos que não, pois as emoções – ainda que muitas vezes intensamente perturbadoras – nos fazem sentir mais próximos de nós mesmos, mais vivos, agregam riqueza, profundidade e beleza à vida cotidiana. Todos, de alguma forma, sabemos disso, mas muitos de nós, inconscientemente, se recusam a sentir em consequência das defesas erigidas a partir da infância contra dores reais ou imaginárias. Por exemplo, o desconfortável desamparo provocado por um pai ausente pode levar uma criança a fechar-se em si mesma ou a ficar indiferente à pessoa que a magoa – e o que é pior, a levar para a vida adulta esse tipo de postura.  Ignora, no entanto, que um muro construído para refrear o avanço da dor acaba por impedir a ocorrência do prazer e dos pequenos ou grandes momentos de felicidade.

No entanto, é possível aproximar-se das emoções e retirar delas todos os seus benefícios, desde que se entenda que as autodefesas construídas no decurso da vida constituem um empecilho ao pleno sentir e que devem, portanto, ser revistas. De fato, as defesas necessárias à proteção de uma criança desamparada (devido à  pouca idade) acabam por limitar o adulto no qual ela se transforma.

Desafio: Decida qual defesa desafiar e aprenda o que esperar na medida em que você “coloca uma distância psicológica” de si mesmo. E aí jogue sua defesa fora. Procure encontrar o sentido das emoções que começarão a emergir. Identifique de onde elas vêm, com a ajuda de um diário, de um amigo ou de uma psicóloga.

Uma viagem de descoberta de si mesmo leva tempo e não é sempre fácil. Você estará desafiando a si mesmo de uma maneira que pode fazê-lo sentir-se desconfortável. Você precisará conduzir esta auto-exploração com justeza(?) e compaixão por si mesma. NUNCA adote uma posição de julgamento, de impaciência, de dureza (harsh) punitiva diante de suas limitações. NUNCA seja crítica de si mesma.


Você não é diferente ou pior do que ninguém. Todos nós sofremos com as limitações emocionais de nossa vida. Mas as emoções são preciosas bússolas no encontro de si mesmo, no auxílio às intuições, na ajuda a discriminar o que é realmente importante nas situações de vida. 

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Casamento é uma coisa difícil

Casamento é uma coisa difícil. Conviver diariamente com alguém, adaptando-se, revoltando-se, encantando-se às vezes, sentindo-se acompanhado. Tantas experiências diversas e desafiadoras! Vale a pena? A maioria dos casais acha que sim. Uma leitora escreveu contando sua dificuldade para lidar com um comportamento constante de seu marido: a reação agressiva e intolerante quando é contrariado. Diz ela: “Brigamos muito quando eu digo alguma coisa diferente do que ele espera. Tenho a impressão que ele gostaria que eu concordasse com tudo que diz: suas sugestões, suas regras para fazer as coisas, suas opiniões sobre nossos filhos, seu modo de conduzir o trabalho, tudo enfim que me diz. Quando eu discordo, sugiro uma alternativa, argumento algo contrário, pronto – começamos uma discussão, muitas vezes idiota (me dou conta mais tarde).” E me pergunta: “Há alguma coisa que eu poderia fazer pra melhorar nosso relacionamento nessas ocasiões? Eu amo meu marido, mas nestas horas difíceis tenho vontade de fugir, sumir do casamento e procurar uma vida mais fácil.”


Todo comportamento humano é multifacetado e com motivações de apreensão inesgotável. Contudo, nesse caso da leitora,  arrisco-me a mencionar uma compreensão do que ela vive: a dificuldade de conviver com um homem adulto com a reação emocional de uma criança de três anos. A criança nessa idade não gosta de ser contrariada. Ela está experimentando ser “alguém”, descobrindo sua identidade como alguém separado da mãe e que pode fazer coisas por conta própria. Mas isso se dá em uma base ainda muito precária, por ser conquista recente. Então quando é contrariada essa autonomia fica ameaçada, sua segurança na conquista recém-realizada vai “por água abaixo”. É nessa época que os meninos são mais encorajados (sutil e nem sempre conscientemente) a expressarem sua contrariedade de modo agressivo, exuberante. E assim se estabelece um padrão de comportamento duradouro.

Os homens recebem esse estímulo e, simultaneamente, uma cobrança para que sejam assertivos e dominadores. São características que afirmam a masculinidade, dizem. Mas, como todo ser humano, experimentam dúvidas e inseguranças. Pode acontecer então que diante da contestação da mulher a suas posições, todo esse “edifício” de dominação fique ameaçado e uma reação já construída na infância irrompa vigorosa. O que antes aparecia como raiva diante da contrariedade, agora toma o feitio de ódio e prepotência. Todos sofrem. Os homens e as mulheres que partilham suas vidas.

Penso que uma mudança nesse contexto pode advir da aceitação da mulher ao seu direito de pensar diferente do outro, viver experiências diferentes do outro. Afirmar essa diferença a partir da confiança em si mesma, da autoestima. E ao homem aceitar a possibilidade de que seu valor e sua masculinidade não estão em jogo em cada afirmação que fazem. Conviver com seus limites, entender que manifestações de amor não se identificam com submissão e aceitação incondicional de tudo que ele expressa.


A diferença e a diversidade em uma relação conjugal são tão enriquecedoras quanto aquelas que existem em uma sociedade. 

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

O homem e a dor

-          Eu estava trabalhando muito. Não senti dor nenhuma. Comecei a suar, fiquei enjoado. Achei que tinha comido alguma coisa estragada no almoço. Os colegas me disseram que eu estava pálido, seria bom ir ao serviço médico. Eu disse que não era nada, logo ficaria melhor. Mas não fiquei. Esse foi o começo do meu infarto no coração.

Ouvi essa história para uma pesquisa que iria apresentar em um Congresso de Cardiologia Preventiva. Já não era o primeiro que me dizia coisas semelhantes: o início de um episódio cardíaco patológico no qual o homem não identificava as mudanças em seu corpo com uma perturbação séria do organismo.

Por que isso tanto acontece?
Creio que, em geral, os homens têm um condicionamento cultural, vindo lá da infância, no qual lhes é interditado sentirem qualquer coisa que os tornem vulneráveis. A vulnerabilidade, própria da condição humana, é, para eles (mais do que para as mulheres), sinônimo de fraqueza. E esta é abominada, considerada como “coisa de mulher”. Na ânsia de se diferenciar da mulher, de afirmar sua diferença dela e, portanto sua masculinidade, o homem acaba por negar sensações corporais e sentimentos que lhe trazem enorme prejuízo na saúde.

A conexão do corpo com o psiquismo foi negada, principalmente pela ciência, durante séculos. Atualmente inúmeras pesquisas apontam que emoções como a raiva, a constante irritação, a ansiedade intensa e contínua, o estresse, a depressão, são fatores que podem influenciar no aparecimento ou agravamento de doenças, sobretudo as cardiovasculares. Nesse sentido, além da necessidade de cuidar da vida, isto é, do modo como se leva a vida, é muito importante estar “afinado” com as experiências corporais e emocionais que podem indicar que algo “não vai bem” com o indivíduo.

Para que aconteça essa afinação – o termo empregado pelo filósofo alemão Martin Heidegger – é fundamental não ter pre-conceitos quanto ao sentir, quanto à vulnerabilidade, quanto à dor. A dor e o medo que sempre os acompanha são partes de ser gente, e os homens que erradamente acreditam que os sentimentos são barreiras à sua masculinidade acabam por terem problemas sérios, como aconteceu com o homem que me contou e, cotidianamente, acontece com tantos outros homens.

Ao lado da dificuldade de contatar-se com o corpo próprio e dar-se conta que não está se sentindo bem, existe a barreira de um passo seguinte e necessário: pedir ajuda. E, novamente, são os homens que mais relutam, adiam, evitam, pedir ajuda. É todo um modelo de masculinidade que torna-se necessário re-avaliar. Porque não são mais apenas papéis sociais que estão em jogo: é a própria vida dos homens.

Se a ciência está mostrando o entrelaçamento das funções fisiológicas com o vivido psicologicamente, o padrão masculino de comportamentos relacionado a estes aspectos que mencionamos torna-se uma ameaça à sua sobrevivência no mundo.


Tudo muda, dizia Heráclito. Tomara em breve os homens possam sentir a dor no corpo e na alma, considerá-las com seriedade, desejar delas, cuidar e buscar ajuda onde acreditarem ela melhor exista.

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Paulo Coelho: líder espiritual global

A revista inglesa MindBodySpirit publicou, uma lista das 100 pessoas vivas mais influentes espiritualmente no mundo. (edição nº33, Spring 2013),
Recebi essa revista por engano de uma amiga. Nem sabia de sua existência. Por que falar dela? Pela minha surpresa e por meus pensamentos dela decorrentes. O fato desencadeante: Paulo Coelho ocupa o 7º lugar da lista! Considerando que o Dalai Lama está no 1º, Thich Nhat Hanh no 2º e EckhartTolle no 3º, imagine meu espanto. 
A lista foi elaborada a partir de mais de 600 candidatos e tem o objetivo de “servir como um guia positivo dos professores líderes” que podem inspirar as pessoas por seu impacto.
Não quero falar da qualidade literária dos livros de Paulo Coelho. Já escreveram demais sobre isso. Eu mesma o conheço muito pouco. Mas, sem dúvida, o que a mim causa impacto é esse reconhecimento por um lugar que ele ocupa no mundo. Pelo contraste entre o pouco caso e até diria, desprezo, que recebe no Brasil, e a repercussão “global” do que ele diz e escreve.
Creio que o que me toca, particularmente, é a constatação reiterada de como nós, brasileiros, temos pouca consideração com todas as nossas formas de produção: da literatura, ao açaí. Acho incrível como os norte-americanos, por exemplo, valorizam qualquer expressão sua e como, por contraste, nós fazemos o oposto. Muitas vezes me emocionei com a intensidade e quantidade de aplausos que os artistas recebem quando se apresentam em público nas cidades norte-americanas. A aprovação entusiasmada das atuações nem sempre admiráveis, mas sempre reconhecidas com calor.
Creio que minha emoção está relacionada com a compaixão por nós, brasileiros. Nosso abandono e “solidão” no mundo. Sempre volto a pensar no bordão de Lula: como povo, não temos auto-estima. Se algo é feito aqui, não presta. Se alguém escreve aqui, há outros na Europa, nos Estados Unidos, no Japão – que são muito melhores. E por aí vai.
Intervalo: enquanto pensava em escrever esse texto aqui, ouvi um dia o programa Observatório de Imprensa, na rádio MEC. O tema do dia: o “complexo de vira-lata” dos brasileiros. Por que “o complexo” aparece agora? Pela euforia, na mídia, com a exploração do xisto, (fonte energética), nos EUA e assim, mais uma vez, diz ela, nós ficamos para trás na corrida pelo desenvolvimento econômico. Mas o Observatório denunciava os riscos ambientais da sua produção e o fato de que o Brasil é um grande produtor mundial do tal xisto.
Minha história continua…
Depois de ter começado a escrever meu texto, leio o artigo do físico José Goldemberg no jornal Estado de S. Paulo. Relacionado ao meu interesse imediato, disse ele: - na França foi proibida a exploração do xisto; - a empresa russa que é a maior produtora mundial do xisto declarou recentemente que “a revolução energética (trazida pelo xisto) é talvez (o “talvez” deve ser uma sutileza diplomática, digo eu…) uma bem organizada campanha de relações públicas”.
Como não é a primeira vez que falo alguma coisa sobre o tema, me pergunto o que anda acontecendo comigo… Provavelmente o relaciono com outro, bem próximo, sobre o qual desejo pesquisar e escrever: o quanto as pessoas consideram que os outros, e elas mesmas, se importam com quem são. Como o “importar-se” com si mesmo é imprescindível nas escolhas e decisões na vida, como o importar-se com os outros está na base da compaixão e como a percepção de que “eu conto” para os outros contribui significativamente para a felicidade (palavra perigosa nesse momento…) e saúde mental (outro perigo…).

Fui muito longe. Divago. É melhor voltar outro dia para escrever sobre “contar”, “ser importante para”, “valorizar”.

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Faça acontecer

O livro de Sheryl Sandberg, “Faça Acontecer”, é muito bom. Carreguei-o por todos os lados, li nas minhas viagens de ida e volta para casa, do Rio para Petrópolis, nos pequenos intervalos de meu trabalho no consultório. Ela diz coisas que andavam esquecidas, desde que o movimento feminista perdeu força. As mulheres acreditam que não precisam fazer mais nada, o feminismo fez conquistas e se esgotou. Sandberg denuncia, e mostra com pesquisas, bibliografia e depoimentos, que a desigualdade de tratamento, percepção, salários e oportunidades de trabalho continuam sob o jugo do preconceito e da discriminação, da desigualdade entre os sexos. Mas há ainda dois aspectos extremamente positivos no livro: seu depoimento pessoal sobre sua carreira e vida familiar – peculiar por ser ela “a 5ª mulher mais poderosa” do mundo (revista Fortune, em 2012) – e a sua proposta de avanço necessário das conquistas psicológicas e sociais da mulher.
Sandberg passa quase o livro todo apontando as sutis — e não tão sutis — formas pelas quais as mulheres não assumem seu poder de desenvolvimento e não “levantam a mão” para expressar o que pensam no mundo das empresas e instituições. Gostei muito de ela escolher o “levantar a mão” para mostrar a diferença entre homens e mulheres. Há anos vejo em palestras, aulas e conferências — minhas e de outros — como são os homens que mais levantam a mão para fazer perguntas, comentários, desafios. Sempre lamentei isso e, algumas vezes, confesso, fiz perguntas só para “fazer número”, para fazer acontecer. Incomodava-me a “ausência” das mulheres. Devo ter falado muita bobagem, mas falei!
A temática principal do livro é o estímulo, dado pela autora, para que as mulheres sejam cada vez mais donas de sua história pessoal e profissional, para que não se deixem intimidar pelo poder masculino que domina o mundo do trabalho e da família, para que não abdiquem de se desenvolver e de conquistar lugares de destaque e poder social. É uma “velha” mensagem, mas, como ela mesma diz, ainda falta muito para que exista igualdade entre os sexos e para que possamos abrir mão desse tipo de mensagem.  O grande trunfo de Sheryl Sandberg é a enorme e crescente responsabilidade que há anos ela vive no trabalho – atualmente é a segunda profissional na hierarquia do Facebook –, combinada com uma rica vida familiar.
E aí?
Lá pelas tantas do livro lembrei-me de uma experiência feminina que sempre me intrigou. E como ela não consta da narrativa de Sandberg, pensei em falar dela aqui no meu blog.
Qual experiência?
A do enorme sentimento de poder vivido por muitas mulheres na relação com os filhos, principalmente quando pequenos. O menininho entra cauteloso pela primeira vez na escola. A mãe não contém as lágrimas. A separação dói. Há um sentimento de perda, de abandono. Ele pode fazer algo longe dela! Pode gostar e se ligar a outra mulher! O filho lhe escapa!
Já ouvi muitas queixas de professoras: seu trabalho de adaptação das crianças pequenas na escola às vezes é dificílimo porque… as mães fazem “de tudo” para a criança relutar em se afastar dela e entrar na sala.
Ou quando a adolescente começa a se apegar às amigas ou inicia um namoro, um “ficar”, e a mãe, (muitas vezes também o pai), aumenta o controle de saídas e horários. Sob a aparência de cuidado e proteção (que incluí a famosa e onipresente preocupação), percebo a necessidade de domínio, a enorme dificuldade de “deixar ir”, de “deixar ser” a filha ou filho.
O fato é que há nessas situações o exercício vicário de poder.
E me pergunto até que ponto essa experiência de poder sobre os filhos ocupa um lugar tão importante, tão atraente e tão bem aceito socialmente na vida de uma mulher que ela abre mão da conquista do poder social, financeiro, existencial, advindo da convivência (e competição!) com os outros, sejam eles seus companheiros de vida ou de trabalho.

Não tenho nenhuma resposta comprovada, mas deixo aqui um estímulo (tomara!) para uma reflexão frutífera.

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Uma Notícia em Psicologia: A PSICOTERAPIA TAO

Participei da Convenção Anual da American Psychological Association da qual sou um membro internacional. Mais uma vez me surpreendi com a grandiosidade de tudo que lá acontece e aparece: o número de apresentações de trabalhos, a variedade de temas, a exibição de publicações, DVDs, testes de vários tipos de avaliação psicológica, filmes com temas de interesse específico para os profissionais, encontros informais para network, sessões de posters feitos principalmente por jovens psicólogos doutorandos de todo o país. De um tudo.
Entre tantas palestras e painéis, fui assistir ao que chamava “Conversation hour: Intersubjectivity and Human Existence – a Dialogue of Emotional Worlds and Dasein.
Como minha formação em psicoterapia é baseada na filosofia existencial, fui correndo procurar o local – o que não era fácil empreitada. O edifício para convenções era gigantesco, enormes corredores atapetados, salas de teto altíssimo, alas “embutidas” nos corredores.
Conheci então um dos trabalhos que mais me intrigou: a palestra do psicólogo Dr. Erik Craig (nos EUA só recebem a denominação de psicólogo os que têm doutorado). Ao final de sua apresentação fui cumprimentá-lo. Disse que eu era brasileira e gostaria de receber uma cópia de seu trabalho. Seu tema era muito original e pouco conhecido em meu país. Na mesma hora entregou-me um exemplar do artigo já publicado, em 2007, na revista The Humanistic Psychologist:

Tao Psychotherapy: Introducing a New Approach to Humanistic Practice.
O texto narra como Craig conheceu o psiquiatra coreano Dr. Rhee Dongshick e a abordagem psicoterápica que Dongshick denominou Psicoterapia Tao. E o que é Psicoterapia Tao?
Transcrevo o resumo oferecido por Craig:
“A Psicoterapia Tao é fundamentalmente uma abordagem humanista profunda na psicoterapia. Ela é psicodinâmica e interessada com os conflitos e sofrimentos humanos, e ao mesmo tempo é essencialmente transcendental, transpessoal, ou espiritual. Como a Daseinanalyse no ocidente, a Psicoterapia Tao oferece um fundamento filosófico (i.e., ético, epistemológico e ontológico) para a psicologia e psicoterapia.” (p.124)
Embora tenha influência da Daseinanalytic de Martin Heidegger e de várias abordagens da psicoterapia profunda do ocidente, principalmente da Daseinanalyse de Medard Boss e da Psicanálise – ela busca sua fonte originária no Taoísmo e no Budismo Mahayana.

As quatro principais ênfases da Psicoterapia Tao são:
1. O desenvolvimento da personalidade do psicoterapeuta a partir tanto da psicoterapia profunda ocidental quanto do pensamento e prática oriental que têm como foco o esvaziamento e purificação da mente. Craig identifica aqui uma aproximação com a prática da redução fenomenológica de Husserl.
2. A afinação empática (este termo é muito próximo àstimmung de Heidegger e, por aí, minha afinação com a proposta de Craig e Rhee) e a compaixão do terapeuta com o paciente e suas vivências.
3. A ênfase nas “emoções nucleares” – denominação dada por Rhee Dongshick – que, resumidamente, abrangem os complexos afetivos e emocionais originados na infância e que constituem uma influência motivacional por toda a vida.
4. O valor insubstituível na psicoterapia da experiência vivida (Erlebnis). Isto significa que o terapeuta deliberadamente evita interpretações intelectuais em favor da apreensão direta do vivido pelo paciente (este também é um ponto central na abordagem terapêutica fenomenológica-existencial).

A psicoterapia Tao privilegia a utilização de mitos culturais e alegorias e não acredita que o terapeuta deve dar especial importância a específicos métodos e técnicas. “Ser”, e não “fazer”, é o centro/coração desta terapia.

Finalizando este breve resumo, assinalo a correspondência que Craig faz da noção de nada ou vazio, aspecto central tanto do Taoísmo e Budismo, com a do nada em Heidegger. “O Tao é um vazio em espiral”, “o eterno não-ser” diz o Tao Te Ching (Chen, 1989).

Mas isso não indica um nihilismo filosófico. Ao contrário. O vazio ou o nada é a experiência mais pregnante. Dele co-nascem (expressão usada por Thich Nhat Hanh) o mundo e todos os entes nele. O vazio é a experiência fundamental, grávida da possibilidade do indivíduo alcançar o Satori, a iluminação. Em termos existenciais, a autenticidade e o “deixar ser” de todas as coisas, a “abertura para o mistério” (expressão usada por Heidegger no texto “Gelassenheit”,1959).


Enfim, meu contato com este texto sobre a Psicoterapia Tao me faz apreciar, uma vez mais, a beleza e importância da integração do mundo oriental com o nosso e a aceitação da diferença como abertura para a ampliação de nossa visão de mundo. Tudo isso reforça minha convicção de que um bom terapeuta “traz a Primavera para a terra gelada do paciente”, como disse o Dr. Rhee em feitio de koan.

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Meu choro bom

Vi um espetáculo na TV Cultura: a apresentação na Sala São Paulo da Orquestra de Metais Lyra-Tatuí. E aí?… Chorei e ri quase uma hora. Não conseguia parar, a emoção mudou meu estar-no-mundo de tal maneira que fiquei assim, boba e alegre. Pouca gente deve saber dessa Orquestra: as coisas boas do Brasil são muito pouco divulgadas. Somos bombardeados pela mídia por notícias de violência, de corrupção, de desastres naturais absurdos nas suas consequências, de ameaças de guerras. Pouco tempo e espaço são dados a algumas maravilhas que existem no mundo. Mas hoje vivi uma exceção: assistir, em casa, partilhando com meu marido estrangeiro, à apresentação de crianças e adolescentes, brasileiros de Tatuí, SP, tocando instrumentos de sopro e percussão, dançando em coreografia original, cantando ou cantarolando lindamente. Um grupo grande e diversificado na cor de suas peles, na escolha de suas músicas, nos instrumentos complexos ou simples.

Lá pelas tantas houve um pequeno intervalo no programa e o maestro e professor do grupo, Adalto Soares, contou sua experiência de ensino e regência na pequena cidade, com essas crianças e jovens. Falou da alegria e medo deles por se apresentarem na Sala São Paulo, tão cheia de prestígio que é. E das apresentações, bem recebidas, em outras cidades, inclusive européias, como na Alemanha. Logo descreve como a formação musical do grupo começa cedo e apresenta uma menininha linda, de quatro anos. Pede a ela que toque, diante do enorme público, uma nota em seu pequeno instrumento. E lá continuava eu chorando. Quando, ao final do espetáculo, o grupo apresentou um pot-pourri de músicas brasileiras clássicas, populares, um baião dançado com alegria e sensualidade e… o hino nacional – pronto. Nunca consegui ouvir o hino sem chorar muito. As lágrimas correm, a adrenalina corre solta. Emociono-me como se a música estivesse salvando o Brasil, ali, agora. Nem adianta raciocinar, chamar uma lógica ou a vergonha. É assim. Mas felizmente o choro se misturava à minha alegria por sentir orgulho daquelas crianças, daquele jovem maestro dedicado que me faziam ver meu país com olhos mais generosos do que o cotidiano me favorece.

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

Surpresas

Gosto de viver experiências que me surpreendem. De preferência boas, claro. Viajar para além de minha cidade costuma favorecê-las.

Ontem fui assistir ao concerto de dois mestres, no incrível teatro Colón, em Buenos Aires: Martha Argerich e Daniel Barenboim “tomados de la mano, puro afecto y complicidad”, como descreveu o jornal La Nación. Gente por todos os lados, sete níveis de poltronas, mais um montão em pé nas laterais da platéia. Confesso que me emocionei tanto com a beleza da música, o apuro das interpretações, dois pianos em harmonia perfeita, como com a alegria das pessoas, o entusiasmo pelo prazer renovado de ter os dois artistas de volta à sua cidade natal, eles que vivem há décadas em países europeus.

Pois bem, no dia seguinte, uma quarta-feira, estou em uma fila na calçada procurando seguir as instruções de meu amigo portenho que insistia para eu carregar um cartão que me permitiria andar nos ônibus sem me preocupar com moedas (necessárias sempre, porque não aceitam fazer troco). Eu tinha que inserir o tal cartão em uma máquina e fazer a operação de carregamento. Eis que o homem à minha frente começa a reclamar que a máquina não funciona. Repete a operação mais de uma vez. Nada. A velhinha atrás dele desiste. Eu continuo ali, não desisto fácil de nada... Faço, em voz alta, aquelas perguntas vazias: o que será que aconteceu? Tem jeito? Não dá mesmo? E eu que não tenho moedas, não dá pra pegar um ônibus, não é? E é assim que recebo, do senhor atrás de mim, o comentário convicto que não só me surpreendeu como, decididamente, me encantou: “Não se preocupe, não precisa de moeda nenhuma. As pessoas aqui são gentis e de boa vontade. Pode ir sem problema, o motorista não vai lhe cobrar nada.”


(E eu que nem precisava pegar ônibus. Estava apenas sendo obediente. Os táxis em Buenos Aires são baratíssimos). Duas surpresas distintas no seu significado e importância cultural, mas igualadas na minha admiração pelo humano deste mundo...

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Uma falsa compreensão do que acontece

Trabalho como psicoterapeuta há muitos anos. Não canso de me surpreender com o que acontece no processo de psicoterapia e o contraste com o que descubro ser a percepção da maioria das pessoas sobre ele.
Sinto-me agora motivada a escrever sobre o tema depois de minha leitura da entrevista de Marian Salzman para o jornal O Estado de São Paulo, no dia 11 de março de 2013. Ela é considerada “a mulher que vê o futuro”. Marian Salzman é “especialista em prever tendências de comportamento”. Na sua contestação de que tal atividade não é exatamente a de futuróloga, Ms. Salzman diz que não tem poderes especiais para prever o futuro e revela algo que também é verdadeiro para o meu trabalho de psicoterapia: a origem de suas “adivinhações”.
Algumas vezes as pessoas que me procuram profissionalmente, ou se aproximam de mim em encontros sociais, comentam: a psicoterapia não é apenas uma conversa? Não é um bate-papo mais sofisticado? Ou ainda: “ah, minha terapia é fazer exercícios”, ou “minha terapia é conversar com meu filho” e tantas e tantas outras atividades. Todas ótimas, sem dúvida. Mas…
O que há em comum entre a fala e experiência de Marian Salzman e a minha de psicoterapeuta? A resposta que ela deu a seu entrevistador:
 “Para fazer o que eu faço é preciso ter uma boa formação em estatística, saber identificar e analisar padrões, determinar sua densidade e sua velocidade. Também é preciso acompanhar as notícias, ter boa formação em sociologia, antropologia e economia.”

Foi muito bom encontrar alguém que desvela o que tão pouco as pessoas sabem sobre um trabalho que parece “mágico” ou banal por sua aparente simplicidade. Porque o trabalho de psicoterapia é assim: o que parece uma simples conversa, na verdade é um encontro incomparável entre duas pessoas e requer, da psicoterapeuta, uma formação complexa envolvendo não apenas o conhecimento de técnicas, de psicopatologia, de teorias – mas a integração criteriosa de aportes da ciência, do desvelar próprio da filosofia e da literatura, do que diz a antropologia e, mais recentemente, o que a neurociência e a sabedoria do oriente nos trouxe – para só então poder fundamentar o diálogo psicoterápico.

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Robin Williams no Congresso de Análise Existencial e Psicomaiêutica

Em 1992 uma Sociedade para Formação de Psicoterapeutas com a abordagem fenomenológica-existencial, SAEP, no Rio de Janeiro, organizou um Congresso. Eu era a coordenadora da instituição e, junto com colegas e alunos, decidimos apresentar algumas cenas do filme “Sociedade dos Poetas Mortos” como uma bela ilustração de algumas idéias do pensamento existencial, duas das quais me são caras no meu viver e no trabalho como psicoterapeuta: a liberdade de escolha na tomada de decisões e a autenticidade como modo de vida e “motor” da criatividade.

O principal personagem do filme era, sem dúvida, o professor de uma escola secundária ultra conservadora americana que propunha, por  um método de ensino de literatura criativo e iconoclasta, uma visão de mundo na qual a experiência cotidiana fosse colorida pela liberdade e pela fruição de cada momento. Carpe diem, repetia ele. O professor era Robin Williams.

Nunca mais esqueci esse personagem, e acredito que uma parte significativa de sua força expressiva estava na interpretação do ator. A partir desse filme, e da intensidade que Robin Williams me transmitiu, passei a assistir quase todos os seus filmes.

Saber agora de seu sofrimento e desilusão, do ato radical de seu suicídio, me deixou muito triste e, mais uma vez, comprovando a verdade banal, mas complexa, de que a materialidade na vida – o ter e fazer – não são suficientes na busca da harmonia e da felicidade.


Quanto ao seu comentário agressivo sobre a escolha do Brasil como sede dos Jogos Olímpicos, reproduzido nos jornais, acredito que foi a manifestação de um sintoma da depressão e que se expressa por "se minha vida está toda errada, o mundo à minha volta também está e tudo isso me suscita raiva e desprezo”. 

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Una vez más

Agosto de 2014

Estou de volta à Buenos Aires.
É inverno, mas não parece. Estou contente porque assim posso caminhar prazerosamente, sem me sentir congelada, como outras vezes me aconteceu. Foi uma surpresa para turistas e argentinos. Temperaturas de primavera? Hum.. tudo pode acontecer nesse país turbulento e instável.



Hoje pensei que Buenos Aires e Rio de Janeiro são parecidas, usando parâmetros distintos pra dizer a mesma coisa. Ambas cidades são lindas. O Rio com suas praias, montanhas tão perto, sua “floresta interna”, seu sol que cotidianamente nos deixa boquiabertos pelo brilho absurdo e pelo impacto dos raios no mar, no contorno das pedras que envolvem as tantas praias. Buenos Aires não é nada disso. Sua beleza está na arquitetura de muitos bairros, com seus edifícios antigos de portas douradas, as madeiras e balcões desenhados em ferro por toda parte, a “reprodução” encantadora de Paris no fim do mundo... O Rio atrai por sua intensidade e exuberância, exageros por todos os lados. Buenos Aires é sóbria e melancólica, convida à introspecção, ao degustar os acontecimentos no tempo. Ela é nova, porque América. Mas antiga porque lembra sempre a Europa, não só pela arquitetura (que me apaixona), mas pelo chamado das coisas de sua cultura.

Os cariocas adoram estar nos bares, com amigos, colegas, amantes e namorados. Por horas falam alto, riem muito, trocam entre si sua vitalidade e desespero. Os portenhos lotam as confiterías, tomam chás, chocolates e cafés. E cervejas. Conversam muito, até tarde da noite. (Gosto de observar grupos de senhoras, bem idosas, com seus casacos de lã, papeando animadas na mesa do café). Ou, sozinhos, lêem um livro ou o jornal.

Dessa vez descubro mais uma coisa: há outra “identidade” entre as duas cidades: a experiência desgastante e frequente do “nada funciona”. Nem vale a pena agora enumerar. Penso nos amigos portenhos e em meus clientes estrangeiros – todos enlouquecidos com as dificuldades para resolver inúmeros assuntos, desde um bombeiro que marca sua vinda e não aparece nem deixa qualquer recado, até o burocrata que exige comprovantes de tudo que é besteira (ou assim nos parece quando comparada com a importância do trâmite).

Não sei o quanto tenho razão, não sei quem concordaria comigo agora. Penso, também una vez más, que fundamental é estar onde se escolhe estar, julgamentos pouco valem.

E é fácil perceber que o que muito me une às duas cidades é meu amor por elas...